Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

TV EM QUESTãO > LINHA DIRETA

Telejornalismo ou teledramaturgia?

Por Wagner Humberto Durães em 29/03/2005 na edição 322

Um programa bem curioso esse Linha Direta. Um misto de jornalismo e entretenimento, que certamente pende mais para o segundo elemento. A simulação dos crimes ocorre em alto estilo dramatúrgico, num formato espetacular só comparável ao de uma novela. Novela é sinônimo de audiência. E também de ficção. Mas tudo parece bem real. Cada crime fica ainda mais bárbaro recheado com tantas cenas de brutalidade ‘testemunhadas’ por milhares de telespectadores.

Alguém capaz de fazer tudo aquilo que o programa mostra merece mesmo ser linchado (e alguns de fato o foram depois da exibição da história). Que perdão pode merecer um indivíduo que espreita sua vítima pela janela e articula passo a passo sua maldade explícita? E o pior é que os personagens bárbaros nunca têm um motivo aparente para levar a cabo seu terrível plano. A vítima, ao contrário, mais do que vítima, é uma figura de caráter ilibado, que respira pura inocência. Alguém que só cumpre suas honestas tarefas de uma vida irrepreensível, e, conforme anuncia o apresentador com tom grave e expressão macabra, ‘ela não sabe que vai morrer’.

Não sabe mesmo. Até porque não merece isso. Seria incapaz de levantar sua mão para machucar alguém. ‘Mas o destino não perdoa’. E seu caminho e o de um monstro foram cruzados. Um caminho sem volta. ‘Como veremos no próximo bloco’. A boa moça se despede de seus pais após o café e vai trabalhar. Mal sabe ela que seu ex-marido/namorado/companheiro a espera com uma faca/corda/revólver/veneno a apenas alguns metros dali, com muita frieza. De fato, ela não sabe que vai morrer. Nem ele sabe que sua história vai estar no horário nobre da maior rede de televisão do país, antes que a Justiça tome suas providências e dê seu veredicto.

Além da tela

Mas como sabemos o que de fato se passou? Isso é o que menos importa. O que importa é que agiu por motivo torpe. O resto fica por conta da ‘simulação’ ou dissimulação. Kleber Mendonça, autor de A punição pela audiência, explica que há um trabalho de costura que permite superar a tensão existente entre o nível jornalístico, cujo paradigma é o da notícia tradicional, e o nível da simulação, com elementos narrativos próprios da teledramaturgia. Nessa costura, são embutidos elementos fictícios e suposições para completar as lacunas de ‘casos que desafiam a polícia’. Paradoxalmente, o crime é evidente demais para a produção do programa. Se resta ainda alguma dúvida, basta ouvir os depoimentos que os parentes da vítima gravam para o programa.

E é mesmo possível conciliar tais elementos que fazem parte da dinâmica de Linha Direta Até que ponto o que vemos é telejornalismo? O formato, sem dúvida, em parte remete ao formato telejornalístico. Por trás das histórias e estórias, há certamente um trabalho de apuração jornalística. Mas devemos lembrar que a própria Globo coloca o programa no seu pacote de ‘entretenimento’. Um espetáculo que só pode ser feito pela Central Globo de Produções (CGP). Coisas do Projac.

Então não é nem uma coisa nem outra. O jornalismo trabalha com fatos. A dramaturgia com ficção, com representação. Entretanto, numa novela, a vilã só é condenada na tela. Sua sorte é morrer queimada, ser presa ou ficar louca, particularmente nas novelas mexicanas. É um espetáculo que todos almejam ver no fim da trama, dadas as mazelas a que se dedicou a personagem ao longo do enredo. Em Linha Direta, os telespectadores são induzidos ao mesmo sentimento – mas as conseqüências transcendem a tela. Vão para a realidade levando tudo que pretensamente se produziu como um retrato do factual.

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Estudante de Jornalismo da UnB

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