Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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TV EM QUESTãO > ENTREVISTA / VALDEMAR W. SETZER

Televisão, a guerra perdida

Por Paulo Lima em 15/02/2005 na edição 316

Os meios eletrônicos e o seu impacto sobre a educação têm no professor Valdemar W. Setzer, da Universidde de São Paulo, um dos seus mais obstinados críticos. Em seu intenso trabalho de pesquisa distribuído por muitos artigos e livros sobre o assunto, ele estuda a influência que a TV, o computador e os jogos eletrônicos exercem especialmente sobre as crianças. O aviso estampado em seu site não deixa dúvidas quanto às posições do autor: ‘Deixem as crianças serem infantis, não lhes dêem acesso a TV, jogos eletrônicos e computador!’.

Baseado nos princípios da pedagogia Waldorf, desenvolvida pelo austríaco Rudolf Steiner em 1919, e hoje utilizada em mais de 800 escolas pelo mundo, Valdemar é taxativo: não esperem da TV qualquer contribuição educativa. Isto porque, diante da telinha, as imagens chegam prontas, sem induzirem a qualquer esforço mental. A velocidade e o bombardeio constante de imagens impedem que o telespectador desenvolva qualquer tipo de raciocínio. No processo educativo, o aprendizado resulta de uma atividade interior, da associação de idéias, da contextualização daquilo que se aprende. Na TV, as imagens já chegam prontas e não exigem de quem as assiste qualquer esforço de associação, atuando, para o professor, como uma ‘antítese da educação’. A indução à violência é outro ponto que depõe contra a TV, segundo Valdemar Setzer, respaldado nos resultados de ampla pesquisa científica sobre o assunto.

Mas a ‘máquina de fazer doido’, como já se referia à TV o cronista Stanislaw Ponte Preta, nos anos 60, faz mal não somente às crianças, ‘mas a todas as pessoas’, afirma Valdemar Setzer, que diz não sentir falta da TV em seu dia-a-dia (só foi comprar o primeiro aparelho quando a filha menor já era adulta). Com sua presença maciça no cotidiano, a TV determina um formato de show e de espetáculo que acaba extrapolando para todas as formas de manifestações culturais. Outros meios que não estejam sujeitos a esse ditame são considerados ‘aborrecidos’ e ‘chatos’ pelas pessoas.

Sem otimismo

Na sua crítica ao admirável mundo novo prometido pelos meios eletrônicos, o professor identifica idêntico perigo na relação precoce das crianças com o computador. No contato com essa ferramenta, o usuário está preso a uma linguagem formal, lógico-simbólica. Nos seus primeiros sete anos, a criança está submetida a outro universo, que privilegia a ‘imaginação’, o ‘ritmo’ e a ‘imitação’. A pedagogia Waldorf, adotada por Valdemar Setzer em sua análise, divide o desenvolvimento humano em três grandes fases, ou ‘setênios’. No primeiro ‘setênio’, o ensino deveria ser exercido em ‘jogos’, ‘brincadeiras’, ‘histórias’ e ‘trabalhos manuais simples’. Para Valdemar, pelo menos duas conseqüências podem advir desse uso na infância: ‘Indução de um pensamento rígido e de uma mentalidade materialista’.

Um conhecimento mais amplo das suas idéias pode ser obtido com a leitura do seu último livro, Os meios eletrônicos e a educação: uma visão alternativa (Ed. Escrituras), um dos 11 que já publicou, além dos artigos divulgados em seu site (www.ime.usp.br/~vwsetzer).

Professor titular aposentado, desde 1992, do Departamento de Ciência da Computação do Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP, palestrante, músico, estudioso e praticante da antroposofia, Valdemar Setzer foi professor-visitante nas universidades do Texas, em Austin (EUA), e de Stuttgart, na Alemanha. Nesta entrevista concedida por e-mail, ele fala da influência da TV e dos computadores na educação e não mostra qualquer otimismo quanto ao paraíso futuro prometido pela tecnologia.

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Por que evitar que crianças vejam TV?

Valdemar W. Setzer – Por que TV faz mal a todas as pessoas, especialmente, e terrivelmente, às crianças.

Não há chance alguma de a criança vir a aprender com o que assiste na TV?

V.W.S – Claro que, excepcionalmente, uma criança pode aprender algo com a TV. Mas não é a forma correta de aprendizado, pois educação é um processo lento e participativo. A TV é rápida e totalmente apassivadora, inclusive na consciência e no pensamento. É importante saber-se que a TV não tem efeitos informativo e educativo, caso contrário, seria largamente usada nas escolas.

A televisão é uma instituição onipresente na cultura contemporânea. Os estados nacionais têm perdido sucessivas batalhas para regulamentá-la. Essa é uma guerra perdida?

V.W.S – Sim, pois a TV comercial vende espectadores aos anunciantes; qualquer coisa que atraia os telespectadores é válida dentro desse contexto. Enquanto a mentalidade de selva capitalista imperar, a batalha está perdida. Quanto à TV sem fins lucrativos, esta precisa ter audiência, pois senão não justifica sua existência perante o público e os órgãos financiadores, de modo que cai no mesmo padrão de atrair audiência. Como a TV deixa a pessoa passiva tanto fisicamente (ações) quanto nos pensamentos, sobram os sentimentos. Tudo o que atinge os sentimentos de maneira emocionalmente forte e agitada é bem transmitido e atrai os telespectadores. Daí a transmissão de violência, desde os desenhos animados (terríveis para crianças, pois apresentam sempre uma caricatura do mundo) até crimes, passando por esportes excitantes ou violentos. Se uma cena bucólica, lenta, carinhosa, for transmitida, os telespectadores achá-la-ão ‘chata’ e vão mudar de canal (aliás, nem para isso é preciso mais fazer um esforço…).

A TV interativa pode vir a funcionar como um progresso, rompendo a passividade do atual modelo de TV?

V.W.S – Não. A interatividade será mínima, e acontecerá durante poucos períodos de uso da TV. Além disso, uma das piores coisas da TV (e dos joguinhos eletrônicos, que são ainda piores do que ela) é que tudo é apresentado sob forma de imagens, impedindo a criação de imagens interiores (como ao ler um livro, por exemplo), isto é, prejudica a fantasia (que deveria ser propriedade de qualquer criança) e a imaginação.

Essa nova TV poderá ser utilizada positivamente na educação?

V.W.S – Não.

Pessoalmente, como o senhor lida com a TV em seu cotidiano? Com qual freqüência costuma assisti-la?

V.W.S – Praticamente nunca. Mudei para um apartamento em 25/11/04 e até hoje nem adaptei os cabos para ligá-la na antena coletiva (TV a cabo ou satélite, nem pensar; eu não gastaria meu dinheiro com algo tão inútil e tão prejudicial). Não me faz absolutamente falta, e nem tenho tempo para perder com ela. Não tive TV até minha filha menor tornar-se adulta. Foi o melhor presente que dei a meus filhos! Por sinal, todos os quatro têm sucesso profissional muito bom, em alguns casos até excepcional.

O senhor vê uma associação entre a violência e a programação mostrada pela TV. A violência não seria fruto de um contexto maior, como falta de perspectiva, desemprego, conflitos familiares etc.?

V.W.S – Claro que não se pode isolar um único fator; o ser humano e a sociedade são entes extremamente complexos. No entanto, devido à minha conceituação sobre os efeitos da TV, estou absolutamente seguro de que ela induz violência. Além disso, há várias pesquisas mostrando que a TV induz violência a curto, médio e longo prazos. Um argumento intuitivo é que o ser humano incorpora todas as suas experiências, em geral de maneira inconsciente ou subconsciente (aliás, padrão da gravação, no telespectador, de todas as imagens e do som da TV). Essas imagens gravadas no telespectador não passam em brancas nuvens, devem obviamente influenciar o comportamento. É por isso que a propaganda na TV funciona – caso contrário não se gastariam os milhões que se gasta com esse meio nessa atividade.

A cultura do show, do espetáculo, está presente nas atividades culturais de uma forma maciça, e a TV tem estado no centro dessa influência. O senhor acredita que esse é um espírito de época, ou conheceremos um novo estágio civilizacional?

V.W.S – De fato, estamos caminhando para um novo estágio: a degradação completa da dignidade humana. Os meios eletrônicos são um instrumento fundamental nesse processo.

De que forma os processos educacionais podem trabalhar essa influência?

V.W.S – É preciso educar em primeiro lugar os adultos, mostrando-lhes que a TV é a maior tragédia que aconteceu à humanidade (só pelo tamanho já se vê a proporção: metade da humanidade fica bestificada na frente da TV todos os dias!), que ela não é necessária e é altamente prejudicial, principalmente para as crianças. Infelizmente a escola também não ajuda: em geral, quer ser moderninha e embarca em qualquer coisa de alta tecnologia, quando não é mercenária e usa a última para vender matrículas.

O senhor mantém também uma postura crítica em relação ao uso do computador pelas crianças. Por que o desaconselha?

V.W.S – Porque ele força um pensamento algorítmico, isto é, matemático, discreto, expresso por meio de uma lógica simbólica. Isso é altamente prejudicial às crianças, pois é próprio só de adultos. Ele acelera indevidamente o desenvolvimento intelectual das crianças e jovens. Observe-se uma criança usando um computador: ela está numa atitude infantil ou adulta? Como está em meu site: ‘Deixem as crianças serem infantis, não lhes dêem acesso a TV, jogos eletrônicos e computador!’

O acesso ao mundo informatizado tornou-se o símbolo máximo da modernidade. As crianças são iniciadas cada vez mais cedo no universo dos computadores, da internet. Que conseqüências físicas e psicológicas poderão advir desse batismo precoce?

V.W.S – Isso levaria a muito longe. Os leitores devem ler meus livros e meus artigos. Mas vou adiantar duas conseqüências: indução de um pensamento rígido e de uma mentalidade materialista. É essencial que se reconheça que o uso de computadores e da Internet por crianças não apresenta nenhuma, absolutamente nenhuma necessidade. Qualquer um aprende a usá-los rapidamente na idade adulta ou quase adulta.

Oposições como ‘apocalípticos vs. integrados’, sugerida por Umberto Eco, dão conta da complexidade relativa ao uso atual da tecnologia?

V.W.S – Não da minha maneira.

Os defensores da tecnologia vêem um futuro completamente dominado pela convergência de tecnologias inteligentes, com ganhos para toda a sociedade. O senhor mantém o mesmo otimismo?

V.W.S – De modo algum. A sociedade tem melhorado? Claro que temos mais saneamento básico, algo puramente tecnológico, por exemplo. Mas as pessoas estão mais felizes, mais seguras, com mais ideais, com mais perspectivas de realizar seus objetivos, ou estão cada vez mais frustradas com seu trabalho, com sua família e amigos, estão cada vez com mais depressão, estão cada vez mais cometendo suicídios a idades cada vez mais jovens, têm cada vez menos respeito pelos seus semelhantes? O ser humano está se degenerando – e sendo degenerado – rapidamente. É preciso reconhecer as causas profundas dessa situação: os meios eletrônicos são algumas das mais importantes.

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Formando em jornalismo da Universidade Tiradentes (SE) e editor do Balaio de Notícias (www.sergipe.com.br/balaiodenoticias)

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