Domingo, 19 de Maio de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1037
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Terra Magazine

12/05/2009 na edição 537

KANE E A CRISE
Paulo Nassar

Além do Cidadão Kane

‘‘Cidadão Kane’, de 1941, que marcou a estupenda estréia de Orson Welles no cinema, permite algumas reflexões úteis para quem trabalha com história e memória empresarial. O filme conta a história de Charles Foster Kane, um empresário, que constrói um poderoso império de comunicação: jornais, revistas, rádios e agências de notícias. Hoje, o personagem poderia ser, um presidente de qualquer uma dessas grandes empresas de capital aberto, cotada em bolsas de valores ou alguém enrolado em negócios mal explicados. Apesar de Welles negar publicamente, a narrativa inspirou-se na trajetória do empresário norte-americano William Randolph Hearst, dono de um império de imprensa, construído a partir da segunda metade do século XIX. Tanto que, em decorrência das ‘coincidências’ entre ficção e realidade, Hearst desencadeou uma verdadeira guerra contra Welles, para impedir a produção do filme. Mas Hearst é uma referência datada, faz parte da história de Welles, e hoje é figura irrelevante. Roger Ebert, crítico norte americano de cinema, compara Hearst a Ted Turner, da CNN, a Rupert Murdoch e Bill Gates. Em diferentes países, ‘Cidadão Kane’ é usado para malhar donos das mídias locais.

A memória do moribundo

O filme começa com a morte de Kane, que pronuncia sua última palavra: ‘rosebud’. Mais do que uma simples palavra, cuja tradução para o português – botão de rosa – é, certamente, um enigma. Do começo ao fim do filme, um jornalista é destacado para decifrar seu significado. Mas apenas descobre que Kane não encontra a sua identidade no trabalho, muito menos a paz advinda – e esperada – desse encontro. Do lado de cá da tela, o espectador percebe que ‘rosebud’ é apenas uma significante, que revela um Kane movido por uma profunda carência e insegurança, que nada tem a ver com a objetividade dos seus negócios e de suas articulações. Não é o empreendedorismo de Kane, mas sua subjetividade (‘rosebud’), que explica seus excessos e suas loucuras – do apoio a amante, péssima cantora de ópera, à construção de um castelo. A psique, estrutura mental de uma pessoa, pode explicar muitos dos meandros dos negócios. As teorias de administração e marketing têm falado pouco sobre sucessos e fracassos das empresas, que o diga a recente crise financeira internacional, em 2008 e 2009.

As grandes empresas brasileiras, geralmente, registram em livros as demonstrações racionais e a importância dos seus personagens para o desenvolvimento do país e das comunidades em que estão suas fábricas e seus escritórios. Assim é, por exemplo com várias multinacionais brasileiras – Sadia, Vale, Gerdau, Embraer, Petrobrás, Votorantim, Natura, Odebrecht entre outras -, que a partir de memórias selecionadas entre seus acontecimentos, narram seus mitos fundadores, seus heróis, seus produtos e marcas. Poucas das narrativas revelam algo da subjetividade das organizações. Jorge Luís Borges diria que alguma biblioteca de nosso país – ‘iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta’ -, deveria guardar as narrativas de empresas e empresários, protagonistas importantes do desenvolvimento industrial e comercial brasileiro como Olacyr Francisco de Moraes (Grupo Itamaraty), Omar Fontana (Transbrasil), Jorge Wilson Simeira Jacob (Grupo Fenícia), Paulo Diederichsen Villares (Empresas Villares), Eugênio Staub (Indústrias Gradiente), Ângelo Calmon de Sá (Banco Econômico), Matias Machline (Grupo Sharp), Henry Maksoud (Hidroservice), João Carlos Paes Mendonça (Grupo Bompreço), Leon Feffer (Companhia Suzano) e muitos outros.

‘Cidadão Kane’ chega ao passado pela palavra, que guardou algum sentimento. A memória empresarial, que pode chegar à condição de memória social é aquela que, de alguma forma, consegue estimular nossos afetos e subjetividades. Através desses afetos, lembramos nossas experiências com empresas, empresários, marcas e produtos. O contrário é apenas o esquecimento ou ruína.’

 

TELEVISÃO
Márcio Alemão

Besta é tu. Besta é tu

‘Chegou a dar traço o Toda Sexta da última sexta.

Não me espantei. Deu a lógica. Em breve é provável que o programa mude de nome: Quase Toda Sexta. Seria o início da fase de resfriamento, antes da entrada formal na geladeira seguida de mais algumas capas de revista com o famoso bordão: ‘estou em paz’.

Ratinho fala mal de Datena que fala mal de Ratinho.

Os dois lordes da TV não estão nos dando bons exemplos. É feio falar mal do coleguinha.

É feio e não resulta em nenhuma mudança. Duvido que o telespectador do Ratinho irá ouvir o Datena e concluir que deve mudar de canal. E o vice-versa se aplica.

Em algum momento um mediador poderia entrar na parada:

Calma, gente! Ainda tem muito espaço para muita baixaria e para muitos programas de baixo nível nessa nossa TV. A Márcia vai bem, a Cristina Rocha vai bem, o Pânico vai bem, o Zorra Total e muitos outros que privilegiam a pouca inteligência do telespectador estão caminhando bem.

Foi no Força Tarefa de duas semanas atrás que assisti a uma das cenas mais engraçadas da TV. A policial decide invadir a fábrica de cimento onde seu parceiro estava sendo torturado. Para tanto ela se utiliza de uma esteira que, vindo de fora, passa justamente pelo local citado. Os bandidos estão prestes a encher de cimento a boca do grande Murilo Benicio, que continua falando um idioma próprio, que ninguém entende. Mas, de repente, a esteira começa a funcionar, do nada.

Os bandidos ficam espantados, pasmos, quase assustados. A esteira corre à velocidade de mais ou menos 1 km por hora. Você chega a pensar que está em câmera lenta. Não está. E na mesma velocidade, ou seja, bem de-va-ga-ri-nho, surge a parceira, deitada na esteira, empunhando a arma. É claro que diante de tal surpresa, os bandidos se entregam.’

 

GAY TALESE
José Pedro Goulart

A notícia de autor

‘O Gay Talese tem 77 anos e está preocupado com a busca da verdade; ele que dedicou grande parte da vida ao jornalismo literário – o New Journalism – tendo companheiros como Truman Capote, Tom Wolfe, Norman Mailer. E a busca da verdade sempre foi uma questão: os adversários deles consideravam que, na procura de um maior efeito dramático, invariavelmente o lado escritor do sujeito acabava prejudicando o lado jornalístico.

Por outro lado, ao deter-se em personagens verdadeiros, mas buscando olhar para eles como se fossem atores de uma peça escrita pelos fatos, os jornalistas / escritores acabavam mostrando um ponto de vista agudo, talvez até mais profundo do que a verdade ‘aparente’. Afinal, numa reportagem clássica, o próprio corte do conteúdo, a escolha da manchete, enfim, a edição em si, acabam contaminando aquilo que chamaríamos de real.

(Nos anos 50, do último século, o então jovem repórter, Gay Talese, dedicou-se a examinar a cidade de Nova Iorque sob um ponto de vista peculiar. Ele descobriu, por exemplo, que os nova-iorquinos piscavam em media 28 vezes por minuto e que nos dias de chuva menos gente se matava na cidade. Produziu crônicas sobre desconhecidos, cujo cotidiano não é exatamente prosaico. Matthew Di Ângelo e Philip Tortorici, por exemplo, que trabalhavam na única ‘carrocinha de cavalos mortos’ de NYC. Na época, toda semana, pelo menos 4 cavalos caiam falecidos pela cidade. Famosos, como Sinatra, também foram investigados por Talese. Claro que sempre sob olhos oblíquos – se é que essa expressão faz sentido)

Gay Talese está preocupado com a busca da verdade, foi o que li em um artigo recente na Folha. Só que isso não é novo. Talese vem denunciando que as redações andam cada vez mais acomodadas, que os repórteres não saem do ar condicionado e que, por motivos inclusive econômicos, se utilizam de notícias que chegam pela web, ou usam demais o telefone. Talese diz que não é possível dar um google em tudo e se satisfazer com os resultados da busca. E ainda decreta que a internet, subjugada por um anonimato/irresponsável, ‘está cheia de lixo’. A tese do sujeito, acima de tudo, é que ele só escreveu suas matérias porque ‘sujou os sapatos’, esteve lá, botou o olho, ouviu e retribuiu com a escrita daquilo que lhe pareceu genuíno.

Gay Talese não disse, mas talvez pudesse ter dito, que a saída do jornalismo em crise é acabar nos aproximando de algo que era privilégio das artes, isto é, a radicalização do trabalho ‘de autor’. A notícia com chancela, assinada e rubricada. Fórmula que, afinal de contas, ele sempre praticou. Mesmo assim, ao contrário de Gay Talese, não acho que a verdade irá se propagar – ‘a’ verdade sempre foi uma quimera -, mas pelo menos que a mentira tenha alguém responsável por ela.’

 

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