Quinta-feira, 18 de Abril de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1033
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TV Cultura fora de forma

Por Roberto Muylaert em 03/09/2010 na edição 605

Para uma televisão ter audiência é preciso que a sequência dos programas convide o espectador a permanecer no canal. Uma atração leva a outra, confirmando o surrado adágio de que ‘uma andorinha só não faz verão’.


Numa TV adormecida, não é possível criar um programa de sucesso isolado, entre tantos a que ninguém assiste.


Quem trabalha numa TV sem audiência não está sujeito a espécie alguma de cobrança, bastando repetir a sequência de seu trabalho, sem nenhum risco de que algum espectador, diretor ou conselheiro venha a fazer reparos ou cobranças a respeito de uma programação a que não assiste.


A exceção foi Roda Viva (24 anos no ar) da última segunda-feira [30/8], cheio de chamadas na TV e nos jornais, alertando para algo fora do comum que iria acontecer na TV Cultura, mas só naquele dia e horário.


O abnegado espectador que chegou até o canal 114 da Sky encontrou o Roda Viva reformulado, com qualidades e defeitos. Ou melhor, meia Roda Viva, uma vez que, tirando Paulo Caruso, no hemisfério Sul do cenário, os demais participantes estão no hemisfério Norte, fora o entrevistado, no centro do semicírculo.


Qualidades: Marília Gabriela melhor do que nos outros programas de entrevistas que faz na TV, mais natural, mais suave. Augusto Nunes discreto e oportuno, fazendo valer a sua larga experiência no programa. E Paulo Moreira Leite vibrante, inteligente e original, rebatendo com gestos enérgicos até as próprias palavras.


Nuca em foco


Consequência do que ocorre numa TV sem audiência, a valorosa equipe técnica da casa, apanhada no susto, mostrou estar fora de forma para um programa com gente assistindo.


A começar pelo cenário verde metálico plastificado, de tonalidade indefinida, que entristece e escurece as figuras focalizadas, sem contrastar com elas. O que faz parecer que está sendo usado o chroma-key, pela indefinição da borda das imagens. A fraca iluminação (‘televisão é iluminação’, já disse Boni) faz a fisionomia do entrevistado parecer filme desbotado, como o stock-shot que se compra para cobrir textos com imagens, na linguagem televisiva.


Para completar, a posição das câmeras faz a mágica de que a imagem mais focalizada da noite ser a nuca do entrevistado, tendo Marília Gabriela no contraplano, quando deveria ser o contrário.


No formato anterior, os entrevistados do programa, ao entrar no estúdio, reclamavam por estar sendo lançados à cova dos leões. Medo infundado, já que os entrevistadores, no afã de aparecer, sempre se anulavam, em benefício de quem estava no centro da roda.


O menor número de entrevistadores possibilitou o questionamento em sequência, algo fundamental para descobrir o que pensa o entrevistado.


O que não foi suficiente para saber quem é Eike Batista, figura enigmática. Mas aí está um defeito que não pode ser atribuído ao programa.

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Presidente da Aner (Associação Nacional dos Editores de Revistas), foi presidente da TV Cultura (1986-1995) e ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social no governo FHC

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