Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

TV EM QUESTãO > SALTO PARA O FUTURO

TV francesa na era digital

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 29/03/2005 na edição 322

De acordo com uma série histórica de pesquisas, os franceses passam cada vez mais tempo diante da TV – que, diga-se a tempo, pode ser tão imbecilizante quanto a brasileira. O meio parece se prestar à mediocridade e à vulgaridade, e no mundo inteiro Sílvios e Berlusconis usam a TV para se comunicar com a massa, fazer fortuna e levar entretenimento para platéias que não exigem mais do que o riso fácil ou a ilusão de ganhar milhões.

O tempo que o francês passa (ou perde?) diante do aparelho de TV tende a aumentar com a inauguração, nesta quinta-feira (31/3), da TNT, sigla explosiva que significa Télévision Numérique Terrestre (televisão digital terrestre). A TNT oferece uma qualidade de imagem e de som muito próxima do DVD.

Não é nova na Europa essa forma de transmissão em que os sinais de vídeo e de áudio são digitalizados antes de serem organizados num fluxo único, chamado ‘multiplexagem’. Itália, Inglaterra e Espanha já a conhecem há alguns anos. A novidade é que em vez de sete canais hertzianos gratuitos os franceses terão mais opções: disporão, num primeiro momento, de mais outros sete pela tecnologia digital.

Os pessimistas, que detestam de uma maneira geral a TV, lembram que os catorze canais abertos (oito privados e seis públicos) podem entrar numa competição feroz pela audiência e se nivelarem por baixo. O que lhes daria 14 boas razões para não ligarem a TV.

Nesta primeira fase, a partir de 31 de março, 35% da população (as grandes cidades como Paris, Marselha, Lyon, Bordeaux e Rennes) terão acesso aos novos canais. Em setembro, metade do país será coberto pela nova tecnologia. Até 2009, praticamente toda a França receberá os canais digitais e em menos de dez anos o sistema analógico de TV será completamente extinto, segundo o presidente do Conselho Superior do Audiovisual, Dominique Baudis.

Alto nível

Os atuais canais abertos vão ter esses novos sete concorrentes nos seus pés, além dos canais por assinatura já presentes em um terço dos lares franceses. Num primeiro momento, os canais abertos levam vantagem pois têm programação conhecida de todos e uma audiência conquistada, além de cobrirem todo o país. Futuramente, terão de brigar para manter a audiência e as fatias de publicidade atuais. Esse é um dos fatores que podem levá-los a melhorar o nível dos programas.

Na França, graças ao imposto chamado ‘redevance’, pago por toda pessoa que possui um aparelho de TV, o governo financia os canais de televisão públicos. Menos engessados pelas leis do mercado, os canais públicos podem se dar ao luxo de oferecer programas literários, de debate político ou de jornalismo investigativo de alto nível – como Envoyé spécial (enviado especial), graças aos recursos da ‘redevance’.

Entre os novos canais abertos oferecidos com a tecnologia digital estão dois canais públicos: o Canal Parlamentar, do Senado e da Câmara dos Deputados, que pretende levar o debate e a compreensão das decisões políticas a todos os cidadãos; e o France 4, um canal genérico, isto é, não dirigido a um público específico, que terá como objetivo ser europeu e dedicar o máximo de seu tempo aos espetáculos e acontecimentos artísticos de uma maneira geral, com um espaço privilegiado para a música.

Entre os sete canais ‘históricos’, o franco-alemão Arte – que garante a qualidade incomparável de sua programação graças ao fato de não estar preocupado com audiência de massa e nem presa ao binômio audiência-publicidade – ocupará um canal à parte, o canal 7, deixando de dividi-lo com France 5, que passa a funcionar no 5 com uma programação de 24 horas.

Financiado pelos governos francês e alemão, o canal Arte pode se dar ao luxo de exibir programas culturais de alto nível degustados por um público pequeno, mas exigente. A emissora participa também da produção de documentários e de filmes não-comerciais.

O primeiro canal

No domingo (27/3), depois de assistirem ao filme As aventuras de Heckleberry Finn, os espectadores do Arte se deliciaram com um documentário de Ken Burns sobre Mark Twain. O diretor faz um magnífico perfil do pai-fundador da literatura americana usando textos do próprio escritor, além de entrevistas com um de seus biógrafos e com os escritores americanos Russel Banks e Arthur Miller.

Ainda este ano o Conselho Superior do Audiovisual vai escolher entre 27 emissoras os candidatos aos 8 canais gratuitos disponíveis na TNT. Mas o Conselho não é obrigado a preenchê-los todos.

Um dado histórico: a televisão francesa era totalmente pública até a década de 1980, quando foram privatizados alguns canais e criadas as primeiras redes privadas.

O primeiro canal privado de televisão, Canal + (Canal Plus), foi criado em 1984. A privatização da TF1, em 1987, foi a consagração definitiva de uma TV privada lado a lado dos canais públicos.

Em 1949, quando foi criada a estatal RTF (Radiodiffusion et Télévision Française), a França tinha 297 aparelhos de televisão. O primeiro canal emitiu sozinho até 1964, quando foi criado o RTF 2, seguido do RTF 3, em 1972.

A televisão em cores foi introduzida em 1967.

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