Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

TV EM QUESTãO > ELEIÇÕES FRANCESAS

TV interativa na campanha presidencial

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris em 19/02/2007 na edição 421

A moda da interatividade vai desempregar os jornalistas profissionais nos programas políticos da TV? Essa pergunta não foi formulada exatamente assim, mas era em torno dessa questão de ‘pessoas comuns’ substituindo jornalistas que vários jornalistas políticos franceses discutiam outro dia num programa de rádio.

A moda começou no programa criado pela líder de audiência da TV francesa, a TF1, para entrevistar os candidatos à eleição presidencial de abril. A fórmula básica do J’ai une question à vous poser (Tenho uma pergunta a lhe fazer) o programa da TF1 vai repetir com todos os candidatos. O primeiro a passar pela entrevista interativa, na semana retrasada, foi o candidato do partido UMP (direita) Nicolas Sarkozy.

Como a candidata do Partido Socialista, Ségolène Royal, preferiu participar do programa em meados de fevereiro, seu principal rival ficou com o privilégio de estrear o programa. E Sarkozy deu o seu show habitual de comunicação, mistura de Silvio Berlusconi com Margaret Thatcher. Berlusconi na forma vulgar e populista e Thatcher nas idéias neoliberais.

Ministro e candidato

Num debate na Radio France International, um grupo de jornalistas resolveu discutir essa nova moda de convidar franceses comuns, principalmente jovens, para fazerem perguntas ao candidato a presidente. Traria isso algum proveito para o telespectador-cidadão? A maioria pensa que o programa fica mais morno e os cidadãos-eleitores perdem em informação.

No programa com Nicolas Sarkozy, por não serem profissionais escolados, os entrevistadores deixaram de fazer perguntas incômodas, que o colocariam em dificuldade. A mais evidente das perguntas seria questioná-lo sobre o que os franceses chamam la double casquette, isto é, a acumulação de papéis: Sarkozy é ao mesmo tempo candidato à presidência e o titular da pasta do Interior, justamente o responsável pela organização das eleições.

A utilização do cargo para fins eleitorais e de campanha é uma acusação permanente da esquerda e, enquanto mantém o cargo de ministro, Sarkozy se faz de desentendido e vai tocando uma campanha discreta em suas viagens ministeriais. Alega que quando sai como ministro usa paletó e gravata e quando está como candidato usa gola roulée. E que quando sai como candidato, sua campanha paga todas as despesas.

O distanciamento do presidente Jacques Chirac, que não deu apoio explícito à campanha do candidato de seu próprio partido, foi outra pergunta que os 100 franceses escolhidos pelos produtores do programa ‘esqueceram’ de fazer. Provavelmente, nenhum desses dois temas estaria fora de uma entrevista feita com o candidato respondendo a perguntas de jornalistas profissionais.

Para que servem os jornalistas políticos profissionais? Justamente por conhecerem todos os problemas e os interesses que estão por trás de cada candidato e por serem profissionais da arte de perguntar, os jornalistas políticos não se inibiriam nem se censurariam. Fariam perguntas difíceis que, muitas vezes, podem levar a conseqüências drásticas. Como, por exemplo, a pergunta que Boris Casoy fez ao candidato a prefeito Fernando Henrique Cardoso, em 1985 (‘O senhor crê em Deus?’). Ao responder com sinceridade que era um ateu, o candidato perdeu a eleição para seu concorrente Jânio Quadros.

A candidata socialista

Os debatedores de France Inter explicaram aos ouvintes como são acompanhadas as agendas dos candidatos durante a atual campanha presidencial, como são escolhidos os temas do dia e como é feita a pauta dos jornais da rádio no que diz respeito à cobertura das eleições.

Os jornalistas são totalmente livres na cobertura da campanha presidencial? A essa pergunta, os jornalistas que participaram do debate na rádio responderam que sim, apesar do controle minucioso dos organizadores das campanhas de cada candidato, os marqueteiros. Nenhum dos jornalistas admitiu haver pressão por parte dos respectivos órgãos de imprensa.

Quanto ao tempo que as rádios e as estações de TV dão a cada candidato, a lei francesa prevê um controle pelo CSA (Conseil Supérieur de l’Audiovisuel) do tempo dedicado aos candidatos em matéria jornalística, em função do tamanho do partido e de seu peso eleitoral. Esse tempo é controlado de perto por cada partido e o que se vê é um resultado bastante justo.

Na quarta-feira (14/2), o segundo programa dessa série foi dividido entre Jean-Marie Le Pen (Front National, extrema direita), Olivier Besancenot (Ligue Communiste Révolutionnaire, trotskista), e Marie-George Buffet (Partido Comunista Francês).

Nesta semana será a vez da socialista Ségolène Royal que lançou em grande estilo, em 11/2, o seu programa definitivo, chamado Pacto Presidencial, tentando se posicionar claramente à esquerda nas questões sociais.

As duas locomotivas

Ségolène Royal é a primeira mulher a ter chances de vir a ser eleita presidente da França, mesmo se as últimas pesquisas dão uma ligeira vantagem a Nicolas Sarkozy no primeiro e no segundo turno. Entrevistada sobre o tema da dominação masculina, a antropóloga Françoise Héritier – discípula de Lévi-Strauss e segunda mulher a entrar para o prestigiadíssimo Collège de France – respondeu à revista Le Monde2 ao ser indagada como via a possibilidade de uma mulher chegar à presidência da República:

‘Para que uma inovação social seja possível, é preciso muitas vezes, séculos. Primeiro, é preciso que ela seja logicamente possível, isto é, que seja concebível no mundo das idéias. Depois, que seja intelectualmente pensável, isto é, que venha ao espírito de alguns, mesmo que suscite os sarcasmos e os risos dos outros. Enfim, que se torne emocionalmente concebível, isto é, que a maioria se acostume a ela. Então, ela se torna tecnicamente realizável.

A idéia de que uma mulher possa chegar à presidência da República tornou-se, sem dúvida, emocionalmente concebível há pouco tempo, tão pouco tempo que os políticos não viram acontecer. Foi por isso que num primeiro tempo, a candidatura de Ségolène Royal ao Eliseu despertou as reações machistas habituais – `Não é um concurso de beleza´, `Quem vai ficar com as crianças?´ – mas os políticos que expressaram essas idéias viram logo que elas só prejudicavam a eles próprios’.

A Alemanha já é dirigida por uma mulher. Agora, tornou-se, pois, ‘emocionalmente concebível e tecnicamente realizável’ que a outra locomotiva da União Européia, a França, venha a ser dirigida ainda este ano por uma mulher.

Mesmo que Angela Merkel prefira os terninhos e esteja à direita de Ségolène Royal, elas poderão chegar a posições comuns sobre muitos aspectos da construção da Europa. Quem sabe, formarão uma nova geração de mulheres líderes mundiais, à qual é possível que se junte no próximo ano a atual senadora Hillary Clinton.

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Jornalista

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