Terça-feira, 20 de Agosto de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1050
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Um jornalismo exemplar

Por Pedro Eduardo Portilho de Nader em 12/05/2009 na edição 537

Que belo exemplo de jornalismo é propiciado pelo documentário Faith Without Fear, produzido pela 90th Parallel. O programa apresenta Irshad Manji: logo no começo, ficamos sabendo que ela reside numa casa com janelas à prova de balas e que sua caixa de correio tem tranca para impedir cartas-bomba (não somos informados de onde ela mora: seria perigoso para ela). Manji nasceu em Uganda e mudou-se para o Canadá quando tinha quatro anos de idade. Ela é de origem muçulmana e declara ter fé inabalável, embora sua consciência, essa sim, tenha sido abalada. O motivo principal: há anos, terroristas têm matado civis sob a bandeira do islamismo. The Trouble With Islam Today (O Problema com o Islã Hoje) é o título do livro que ela escreveu. Ela já foi chamada de ‘o pior pesadelo de Bin Laden’.

Pouco depois do início, o documentário mostra sua participação num programa de debates de televisão, em que ela, se contrapondo enfaticamente a um líder muçulmano, argumenta: nos últimos cinquenta anos, mais muçulmanos foram atingidos por violência e mortos por muçulmanos do que por não-muçulmanos. (Antes de continuar, cabe ressaltar o quão isso lembra o belíssimo, e talvez menos conhecido do que devia ser, filme Antes da Chuva, de 1994: dividido em três partes, o filme mostra diferentes grupos étnicos ou religiosos em conflito: em cada parte, emblematicamente, pessoas de cada grupo, devido à intolerância tida como irredutível, acabam causando mais mortes a outras pessoas do seu próprio grupo étnico ou religioso).

Transformar a religião

Por escrever e dizer em conformidade com o que sua consciência a leva a pensar, Manji recebe milhares de correspondências furiosas, com injúrias e ameaças de teor religioso (do tipo ‘espero que queime no inferno’) e/ou ameaças explícitas de morte. Explicam-se assim as proteções especiais à sua segurança em casa. A mãe dela não discorda do que a filha diz, mas se mostra preocupada com as consequências das reações porque ela se expressaria de forma exagerada num mundo em que muitas pessoas reagem não aceitando essa postura independente. O receio, claramente, é que se repita com ela uma perseguição feroz como a que ocorreu com Salman Rusdhie.

Vemos no documentário Manji dizer, em uma palestra, que os muçulmanos, em algum momento, precisarão reconhecer a responsabilidade de sua contribuição para a atual crise do islamismo. Em declaração para o documentário, ela acrescenta pensar que o islamismo foi corrompido – ‘por nós, os muçulmanos’, diz ela se referindo aos fundamentalistas islâmicos, mas se incluindo de maneira indubitável entre os muçulmanos. Somente os muçulmanos podem consertar o islamismo, defende ela.

‘Somos nós que devemos transformar a religião muçulmana’, diz ela. ‘O Alcorão ensina que Deus não transforma uma pessoa até que ela se transforme.’ A atividade que ela se deu: investigar as possibilidades e descobrir a maneira como ‘nós, os muçulmanos’ podemos mudar no século 21. Além disso, ela assinala uma prática multisecular da formação muçulmana: o ijitjihad, a tradição de privilegiar a discussão e os debates, tradição própria da religião muçulmana.

Silêncio diante da violência

A maioria dos muçulmanos atualmente permanece em silêncio diante da violência perpetrada pelos ‘guerreiros santos contemporâneos’, que usam a história para tentarem legitimar essa violência, diz Irshad Manji. Ela, assim, considera a maioria muçulmana: aqueles muçulmanos que ficam em silêncio diante dessa violência praticada por muçulmanos compactuam em algum grau com isso, pensa ela num determinado momento mostrado pelo documentário.

O documentário mostra Manji no Iêmen, local que serviu de berço da religião muçulmana séculos atrás. Ela conversa com um muçulmano que, perguntado por ela, diz que ficaria orgulhoso se seu filho pequeno, quando crescesse, vier a se tornar um mártir. Nos Estados Unidos, ela conversa com uma americana que se converteu ao islamismo e que usa a abaya e o niqab como vestimenta corriqueira nas ruas. Ela reconhece que morando nos Estados Unidos ela se beneficia da liberdade de expressão de poder sair nas ruas vestida como quer, usando a vestimenta tradicional muçulmana, sem medo de sofrer represálias, enquanto em muitos países em que predomina a religião muçulmana não há liberdade para as mulheres se vestirem com a roupa tradicional nas ruas sem o risco de sofrerem agressões.

Em contrapartida, Manji conversa com Arwa, uma escritora que corre risco no Iêmen. ‘As mulheres não são genitália’, diz Arwa. ‘Só queremos viver nossas vidas. Viver e aproveitar a vida.’

Ofensas são de esperar

Manji diz que quando criança era uma filha zelosa que estudou em escola muçulmana e muitas vezes voltou para casa contrariada pelo ambiente sufocante; quando adolescente, foi expulsa por fazer as ‘perguntas erradas’. Como: por que os direitos dos muçulmanos são desrespeitados pelos muçulmanos? O profeta fundador do islamismo defendia a divergência de opiniões, observa ela.

Mais no meio do documentário, vemos com mais minúcias o confronto entre Manji e o líder muçulmano no programa de televisão. Ela o interpela sobre ‘a responsabilidade que nós, muçulmanos, temos de `curar´ o Islã’. Ele responde: ‘Se você questiona o Alcorão, questiona as leis e toda a crença islâmica, e não encontra a resposta, então o erro está em você. Há respostas para tudo.’ Ela primeiro ri; mais tarde se exalta, profundamente ofendida por ter sido dito que o erro era dela por questionar a crença islâmica como um todo. Os ânimos se exaltam, principalmente por parte dela.

Ele diz que ela mina o Islã. ‘Ela quer definir o que a religião muçulmana deve ser. Ela não tem esse direito. Ela não é dona do Islã. Ninguém é dono do Islã.’ Perto do seu final, o documentário mostra o reencontro de Manji com esse líder muçulmano, o iman do Conselho Muçulmano do Canadá. É Manji exercendo a tradição do ijitjihad. Na casa dela, ele diz para ela de forma calma: ‘O modo como você se apresentou para os muçulmanos faz com que os muçulmanos não a vejam como alguém confiável, como alguém que gosta do Islã. Você age como quem quer desqualificar o Islã. Você acha que o Islã é uma religião anormal, como quem acha que a religião deve mudar de acordo com sua opinião.’ Ela, enfim, compreende o que ele queria dizer antes. Na continuação do diálogo, ele diz: ‘Você deve pensar: do modo como você se apresenta, você precisa questionar toda a religião muçulmana? Eu questiono muitos muçulmanos, mas não a religião. Você deve questionar os comportamentos de muçulmanos, não os ensinamentos muçulmanos’. Manji diz que isso faz lembrar os versos do Alcorão sobre Deus não transformar alguém até que a pessoa se transforme. ‘Exato’, responde o iman, ‘precisamos nos transformar.’ Os dois adversários que antes se defrontavam asperamente agem de maneira ponderada. Ela reconhece que estava errada no modo como se apresentava.

Em um mundo plural, ofensas são de se esperar. Assim como o debate’, diz Irshad Manji no encerramento do documentário Faith Without Fear. ‘Nós [os muçulmanos] temos uma tradição de debates: o ijitjihad. Cumprindo-a, cada vez mais muçulmanos terão a possibilidade de se expressarem e se libertarem do conformismo tribal.’

Aprender e crescer

É muito claro: ela quer o debate, em conformidade com o ijitjihad, não por se considerar a dona da verdade, ou a dona da razão, mas porque a racionalidade está no debater e discutir. Aqueles que se pretendem ser ‘donos da razão’, ou que assim se consideram, são os que ela combate ‘Eu tenho razão’ é o que dizem, por exemplo, os homens-bomba (muçulmanos que matam muitas vezes muçulmanos) e os fundamentalistas islâmicos que não ligam para a vida e morte de muçulmanos (o documentário é anterior, mas cabe lembrar que, no conflito na Faixa de Gaza no início deste ano, a liderança do Fatah não hesitou em se esconder entre a população civil, atraindo o exército israelense para cima dos civis na Palestina. Quanto mais o exército israelense atacava a Faixa de Gaza e matava palestinos civis, sobretudo crianças e mulheres, melhor para a liderança do Fatah em sua disputa com Israel).

‘Eu tenho razão e não admito discutir minha razão, que me importam as causas, os fatos, as consequências’, é o que pensam (e dizem) os intolerantes. Essa espécie de razão não aceita os critérios da racionalidade – entendida como associada à discussão e ao debate. Em contrapartida a esse tipo de postura, Manji não lhes contrapõe uma outra pretensa razão do mesmo tipo, de critério único: ela tanto não se considera a dona da razão que o documentário mostra sua mudança consciente.

Assim, no início do documentário, ela se via na posição de se considerar uma muçulmana em briga contra a religião muçulmana corrompida: era uma posição estranhíssima, ainda que pudesse parecer normal nesse mundo regido por ‘loucuras’. No final do documentário, ela está combatendo não a religião muçulmana corrompida como um todo hoje, mas uma apropriação do islamismo feita pela mentalidade tribal (é uma questão, não estritamente religiosa, mas eminentemente política a respeito do tribalismo). Desta maneira, a mudança se faz, para Manji, recuperando a tradição, própria da religião muçulmana, do ijitjihad (novamente: a tradição do ijitjihad na religião muçulmana é uma questão eminentemente política).

Certamente não é demais terminar repetindo o que foi dito no começo: o documentário se constitui num exemplo primoroso de jornalismo. Não alega isenção jornalística para não se posicionar a favor da tolerância. Não contemporiza com a intolerância. Mais ainda, mostra uma pessoa cuja abertura para o mundo a leva – não meramente a reconhecer, corajosamente, um erro – a aprender e crescer. Durante os cerca de cinquenta minutos de sua duração, o documentário presta um serviço digno do melhor jornalismo possível.

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Bacharel em História e doutor em Filosofia pela FFLCH – USP, Campinas, SP

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