Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > FEBRE DAS SÉRIES

Uma forma diferente de ver TV

Por Giulio Sanmartini, de Belluno (Itália) em 19/02/2007 na edição 421

No início dos anos 1950, quando ainda não existia televisão, no distante bairro do Jacaré (RJ) onde eu morava, o único divertimento do fim de semana era ir ao cinema. Perto de minha casa existia o Cine Palácio Royal, que apesar do pomposo nome, nada mais era que ‘poeirinha’ de última categoria.

Todo domingo entrava às duas da tarde para sair somente às seis, o programa além do jornal (sempre o mesmo) tinha dois filmes e antes desses seriado, com Tom Mix, no melhor do filme a cena se interrompia e assim deveríamos esperar pelo próximo domingo. Esse seriado era o assunto de toda a semana, comentava-se o acontecido e imaginava-se o que aconteceria no próximo. O contávamos inúmeras vezes àqueles que não tinham ido vê-lo.

Logo depois chegou a televisão e aos sábados tinha seu seriado tal qual como o do cinema. Me parece que o primeiro filme desse gênero feito exclusivamente para a TV. e com enorme sucesso tenha sido Papai sabe tudo, a este foram sucedendo-se outros: Bat Mastersson, Os intocáveis, O fugitivo – com este aconteceu algo curioso; estavam passando derradeiro capítulo onde toda a trama que durava anos seria desvendada, quando faltou luz em toda a cidade, assim a televisão no dia seguinte reapresentou em edição especial o tal capítulo.

Outras séries foram aparecendo e interferindo diretamente na vida dos brasileiros, Dallas, Bonanaza, A feiticeira este trouxe junto com seu sucesso uma geração onde grande número de meninas levaram o nome de Samantha; Casal 20, trabalho do escritor Sidney Sheldon, cujo título passou a ser usado para definir um casal ‘pra frente’.

Quando vim para a Itália esse filão era dominado pelos filmes policiais, especialmente três, baseados na obra literária de famosos escritores: Hercule Poirot da inglesa Agatha Christie; Inspetor Maigret do belga George Simenon e Comissário Montalbano do siciliano Andréa Camilleri.

Medicina em alta

Devagar, sem que ninguém percebesse, mas de forma prepotente começaram os seriados envolvendo médicos e hospitais: Grey’s Anatomy, Médicos em primeira linha, Crossig Jordan – este um policial que se ambienta num morgue, onde os protagonistas praticam medicina legal.

Mas em termos de histórias passadas em hospitais envolvendo médicos, em primeiro lugar absoluto está Dr. House – Medical division, protagonizado pelo ator britânico Hugh Laurie, ele faz o papel de um médico que trabalha num grande hospital, mas tem um caráter difícil, tiradas de ironia agressiva e humor que deixa a desejar. Tem além de três auxiliares, um amigo oncologista e a diretora do hospital. Ele vive em conflito com todos e também com alguns pacientes. Mas o ponto alto das tramas são os paciente cuja diagnose da doença é muito complicada, leva seu grupo a discussões, na tentativa de saber o que está afligindo o paciente, no final ele sempre tem razão, mas tudo funciona de forma bem racional e realística. Tão real que levou quatro espectadores especiais, nas sextas feiras (dia do episódio) às 9 da noite, mesmo que o mundo esteja caindo, a desligar os telefones, ter permissão para levantar-se somente durantes os intervalos comerciais e fixar-se na televisão como só se faz durante as Copas do Mundo de Futebol.

O programa é visto por 5,4 milhões de espectadores (o país tem menos de 60 milhões de habitantes), com índice de audiência 19,26%.

As quatro pessoas citadas, que o assistem são médicos: Camillo Cargnel, clínico geral; Pierluigi Guarino, hematólogo; Alfonso Zarantonello, medicina do trabalho e Stefano Nobile, clínico geral. Eles reúnem-se em um consultório e vestem o guarda pó, como se estivesse com eles o mítico Gregory House. ‘Procuramos encontrar a diagnose antes que ele’, diz Nobile, ‘muitas vezes o tempo fecha e chegamos a brigar. Amigavelmente, bem entendido.’

‘No olho do furacão do dia a dia, com pacientes para visitar, um depois do outro, muitas vezes deveríamos fazer como ele, parar e brincar com uma bola de tênis’, diz Zarantonello, ‘Realmente invejo o tempo que ele tem para pensar’. Quanto ao resultado das tele-diagnoses ele complementa: ‘Acertamos poucas. São muito estranhas e muitas vezes improváveis’.

Tudo bem, mas o importante é que os quatro médicos descobriram uma forma original e inteligente para assistir um simples seriado televisivo.

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