Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Uma perigosa revisão da história

Por Laurindo Lalo Leal Filho em 08/02/2005 na edição 315

A Globo possui uma versão muito particular da história da televisão (e do país) que, muitas vezes, não bate com a realidade. Assistida pela maioria da população diante da falta de alternativas, a emissora nunca conseguiu transformar audiência em simpatia. Os vínculos com a ditadura, as distorções jornalísticas, a aposta no consumismo exacerbado, o desrespeito com a infância e o ufanismo ridículo no esporte são marcas difíceis de serem apagadas.

Parece haver agora uma política para mudar esse quadro e reescrever a história. É ai que mora o perigo. São várias ações no mesmo sentido: seminários, manifestos, livros. Na PUC de São Paulo, uma universidade de tradições democráticas, marcada pela luta contra a ditadura, a Globo realizou um seminário supostamente em defesa da cultura brasileira. O que se defendia na verdade, com a repercussão do evento, era o controle da veiculação de conteúdos audiovisuais pelas empresas de telefonia, uma ameaça ao império da Globo.

D. Lily resume

Ação semelhante ocorreu durante a 4ª Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes, realizada no Rio de Janeiro em 2004. Não houve praticamente nenhuma mesa importante em que um representante da empresa não estivesse presente defendendo os compromissos da Globo com aquelas faixas etárias. Alguns foram vaiados, outros apenas provocaram risos.

Mas o pior está nos livros. A pretexto dos 35 anos do Jornal Nacional, a Globo lançou um de mais de 400 páginas tentando limpar a barra do telejornal. Fez como o Chacrinha, quando dizia não ter vindo para explicar e sim para confundir. Só que, diferente do Velho Guerreiro, o livro tem pretensões à seriedade. Nega, distorce e parcializa versões de episódios conhecidos e comprometedores para a veracidade do seu jornalismo. No caso mais célebre, onde é impossível dizer que não favoreceu Collor na edição do debate com Lula em 1989, junta depoimentos conflitantes e aponta para alguns subalternos que seriam os responsáveis pelo deslize. Entre tantos entrevistados o livro esqueceu de um, Paulo Henrique Amorim, funcionário da Globo na época que não reluta em dizer de quem foi a ordem de dar ‘tudo o que fosse bom para o Collor, e tudo o que fosse mau para o Lula’: Roberto Marinho.

Bajulatório e repleto de erros factuais chegou também às livrarias a biografia do próprio Roberto Marinho, escrita por Pedro Bial e o mais inofensivo da trilogia: ‘Roberto & Lily’, uma história de amor entre milionários, bem ao sabor da revista Caras, escrita pela viúva do dono da Globo. Muito mais importante que o livro foi a frase dita pela autora na ocasião do lançamento: ‘O Roberto colocou ele (Fernando Collor de Mello, na Presidência) e depois tirou. Durou pouco. Ele se enganou’. Em poucas palavras a rica viúva pôs por terra a autodecantada imparcialidade do jornalismo global. Vão ser necessários muitos outros livros para explicar que não foi bem isso o que ela quis dizer.

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