Sábado, 16 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

MEMóRIA > MANOEL CARLOS KARAM (1947-2007)

Uma prece por um prosador

Por Deonisio da Silva em 04/12/2007 na edição 462

É muito triste escrever sobre a morte, ainda mais sobre a morte de um amigo, principalmente para quem já teve a experiência da morte na própria família e nos verdes anos.

Já estava com este artigo a meio caminho quando recebi a notícia da morte de Manoel Carlos Karam.

Este texto talvez não tenha comentário algum, contrastando com a enxurrada de observações do da semana passada, que recebeu cerca de 50 críticas, algumas delas requerendo paciência infinita de quem edita e escreve, mas outras absolutamente esclarecedoras, principalmente quando os internautas, alguns deles desatinados, descambam a discutir uns com os outros. Com paciência, pode-se aprender muito com eles, mas é preciso garimpar, o que, aliás, os internautas também fazem.

Antes de comentar a morte de Karam, chamo a atenção de quem lê para o artigo de José de Souza Martins, sociólogo e professor da USP, publicado no caderno ‘Aliás’, do Estado de S.Paulo de domingo (2/12/2007): ‘Ignorância, sabedoria e nhenhenhém: no bate-boca lingüístico-cultural com FHC, Lula confunde simplicidade, que é bom, com ignorância, que não é’.

Um ‘divertido horror’

Diz ele que ‘as complicações começaram com as simplificações da militância política e partidária, que levaram ao rompimento com o verdadeiro mundo acadêmico e à desqualificação do saber erudito, que o MST faz reiteradamente’ – errando feio neste pormenor, pois o MST não faz isso.

Sou testemunha ocular e auricular do que afirmo. Convidado pelo MST, estive numa de suas sedes, em São Paulo, discutindo meu romance Os Guerreiros do Campo (Editora Siciliano, 2000 e Editora Girafa, 2006) e saí de lá com a melhor das impressões. E confesso também que, quando pesquisava para escrever este romance, visitando acampamentos, ensinei aos acampados que a palavra ‘erudito’ vem do latim e quer dizer ex-rude, aquele que deixou de ser bruto, tosco, ignorante, estado que muitos políticos insistem em conservar intacto.

Para isto, basta ver, ouvir e ler os eleitos, entre os quais muitos campeões de voto. Provavelmente em nenhuma outra época rebaixamos tanto a representação política, especialmente na Câmara e no Senado. Chega a ser de um ‘divertido horror’, como dizia Nelson Rodrigues, assistir a entrevistas de deputados e senadores.

Nem o futebol nem a vida são justos

Entretanto, depois de observar que ‘os trabalhistas ingleses criaram em Oxford o Ruskin College, um college para dar a trabalhadores a oportunidade do estudo num dos melhores centros universitários do mundo’, Souza Martins escreve que ‘no Brasil, o racha lingüístico e cultural ganhou força política por essas influências externas, especialmente a de Antônio Gramsci, a partir dos anos 1960, no reconhecimento da legitimidade da língua do povo, mas também de sua medicina, de seu direito, de sua agronomia, de sua botânica, de sua zoologia, de sua arquitetura imaginativa (de que as favelas estão cheias de exemplo), de sua literatura oral, de sua arte primitiva, de sua música antiga e, não raro, refinada, na viola de dez cordas’.

Pressuponho que este artigo vai ter poucos comentários. O recorde continua com o texto que escrevi quando o Internacional foi campeão do mundo e a mídia, quase por unanimidade, disse que ele perderia para a final para o ‘Barcelona de Ronaldinho’, isso se não tropeçasse na semifinal. Ou play off, como os macaqueadores, ágrafos em português, tentaram denominar as finais dos campeonatos de futebol. Na verdade eu ia escrever sobre a hora de a onça beber água, pois o Corinthians, mal das pernas, ficou indevidamente com o título que, por justiça, caberia ao Internacional em 2005. E se em 2007 o Internacional resolvesse perder para o Goiás, com o fim de ajudar no rebaixamento de quem se aproveitou indevidamente de uma vitória que, por justiça, não era sua? Mas quem disse que o futebol é justo? Nem o futebol e nem a vida são justos!

Prêmios literários

Foi o jornalista e cartunista Dante Mendonça que me avisou, no sábado pela manhã. Nosso amigo comum, Manoel Carlos Karam, acabara de morrer em Curitiba.

A propósito do último romance de Manoel Carlos Karam (Sujeito Oculto, Editora Barcarolla, 2004), escrevi neste Observatório (18/1/2005):

‘O narrador, alter ego do escritor, despede-se dos leitores nos dois últimos capítulos fazendo divertido e insólito resumo do que contou. Serve-se para tanto de um personagem estratégico: um locutor que no rádio, comentando fusos horários, diz que `três acontecimentos ocorreram em locais diferentes e em horas diferentes e em dias diferentes, mas exatamente no mesmo instante´’.

Escrevi também:

‘Curitiba abriga um grupo de escritores inventivos, inconformados, como é de praxe acontecer a pessoas lúcidas. Alguns dos maiores reconhecimentos literários brasileiros foram parar nas mãos deles. Em 1995, Manoel Carlos Karam arrebatou o Prêmio Cruz e Sousa. E, ano passado, Dalton Trevisan levou para Curitiba o Prêmio Portugal Telecom.’

Pois neste ano de 2007, Dalton Trevisan voltou a arrebatar o prestigioso Prêmio Portugal Telecom.

Manoel Carlos Karam, catarinense de Rio do Sul, vivia em Curitiba desde a década de 1960. Cursou jornalismo na PUC e trabalhou em jornais e TVs do Paraná, sendo editor em diários como O Estado do Paraná, Tribuna do Paraná, em emissoras de TV como os canais 4 e 12, que repetiam parte da programação da TV Globo, na condição de emissoras afiliadas.

Naturalmente, enquanto nossas escolas se situarem entre as piores do mundo, escritores como Karam terão ainda menos leitores.

O público, problema e solução

De todo modo, convém assinalar a complexidade de tal afirmação. Excelentes escritores foram ignorados e pouco lidos no mundo inteiro e de muitos deles foi exigido antes o atestado de óbito para que lhes fosse concedido o reconhecimento, como foi o caso de Fernando Pessoa e de Cruz e Souza, para citar apenas dois exemplos.

E, voltando a outros mortos ilustres mais recentes, Paulo Leminski não teve em vida, assim como Clarice Lispector também não teve, a procura que teve depois de ter partido.

Lá se foi Karam! Como dramaturgo, deixou 20 peças. Como prosador, ficaram seus desconcertantes e inusitados romances. Ele estreou nacionalmente em 1985, pelas mãos de Márcio Souza, Felipe Lindoso e Maria José Lindoso, com Fontes Murmurantes, seguido de O Impostor no baile de máscaras (Artes e Ofícios, 1992). Arrebatou o Prêmio Cruz e Sousa com A Cebola é uma flor, cujo título foi reduzido para Cebola (FCC Edições, 1997). A pequena editora Ciência do Acidente lançou Comendo bolacha do dia de são nunca, publicado também pela Imprensa Oficial do Paraná (1999), e a Ateliê editorial pôs no mercado Encrenca (2002). A cortina fechou-se com Sujeito Oculto (Barcarolla, 2004).

Quando Fernando Morais era secretário de Estado da Cultura em São Paulo, o editor Pedro Paulo de Sena Madureira e o animador cultural Pedro José Braz coordenavam as oficinas culturais, e a escritora Anna Maria Martins dirigia a Oficina da Palavra, na mesma casa onde morou Mário de Andrade, propus a vinda de Manoel Carlos Karam a um dos eventos. Os oficinandos ficaram surpresos: pensavam encontrar um escritor difícil, arredio, complicado, e se viram face a face com um sujeito, não oculto, mas revelado e revelador, explicando com clareza porque, o estilo do jornalista era tão diverso daquele do romancista. ‘O problema é o público leitor’, ele resumiu. E acrescentou: ‘Mas o público é também a solução’.

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Doutor em Letras pela USP e professor da Universidade Estácio de Sá, onde é vice-reitor de pesquisa e pós-graduação e coordenador de Letras; seus livros mais recentes são Os Segredos do Baú (Peirópolis) é A Língua Nossa de Cada Dia (Novo Século); www.deonisio.com.br

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