Quarta-feira, 19 de Junho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1042
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Uma programação visceral

Por Marcos Vinicius Gomes da Silva em 26/05/2009 na edição 539

A televisão brasileira nos últimos anos não tem prezado pela qualidade em sua programação, todos sabemos. Se Chacrinha era tido como popularesco em sua época, hoje pode ser considerado um ícone-master da cultura brasileira, inclusive a televisiva. Seus bacalhaus e abacaxis distribuídos soam tão pueris numa época de celebridades vazias, testes de fidelidade falsificados, pegadinhas ou sessões de exorcismo, entre outras barbáries.

Nestes tempos de esquisitices midiáticas, a televisão tem se destacado hábil em oferecer cardápios variados. A nova onda que pode ser detectada, por exemplo, numa noite de domingo, é a da exposição da infelicidade humana em sua forma mais cruel – mostrando pessoas comuns com suas doenças e as conseqüências que essas doenças trazem. Tomo como exemplo um domingo desses (03/08/2009), quando presenciei uma programação televisiva literalmente visceral.

Começou no Fantástico, da Rede Globo. Ali, Drauzio Varela exibia a série sobre transplantes. Tudo asséptico, tudo organizado, nem parecia que estávamos no Brasil. Mostrou-se uma família que após ter anunciada a morte cerebral da mãe, resolveu doar os órgãos, que não foram aproveitados. O motivo era que na mesma UTI havia um homem com parada cardíaca que necessitou de apoio de toda a equipe, enquanto que a possível doadora ficou abandonada com seus órgãos disponíveis. Após isso, um médico da equipe de captação de órgãos da Santa Casa censurou os colegas que socorreram o paciente da UTI em detrimento da paciente com morte cerebral.

‘Tudo bem, meu anjo…’

Varela deve ser louvado pelo trabalho de divulgação que faz sobre área da medicina. Há anos ele participa de programas, em campanhas de órgãos de saúde para a conscientização dos cuidados médicos, prevenção de doenças, enfim, na desmistificação da ciência médica para a população. Mas, nesta série da Globo, parece um dom Quixote com seu Rocinante.

No país onde inúmeras pessoas morrem na fila por falta de um atendimento clínico básico, onde exames são marcados com meses de espera, num país onde doenças erradicadas em outros países ameaçam nossa população, como a tuberculose, tem-se a impressão de que estamos num país de primeiro mundo, com um sistema de saúde eficientíssimo e Varela parece ser o porta-voz desse ideário coletivo. Temos um sistema de transplantes que só perde para os Estados Unidos em números de cirurgias. Parece que a série de Varela assina o recibo da falta de foco da medicina atual. O matuto que tem problemas cardíacos por contaminação por parasitas ou pela doença de Chagas – essas doenças são evitáveis com simples cuidados e informação – pode se gabar de ter um serviço de transplantes tão eficiente quanto o do tio Sam.

Mudando o cenário do mundo visceral, mudo de canal e assisto na Band o E 24, uma produção argentina que mostra o dia-a-dia de equipes médicas de resgate no caos urbano de São Paulo. Aqui, um médico socorrista do Samu atende a uma moça num supermercado que teve a mão prensada numa máquina de pão. Ele (coisa rara entre os discípulos de Esculápio), com teor humanitário, diz a ela para que não olhe para a mão ferida: ‘Está tudo bem, OK meu anjo…’

Um português sofrível

No E 24, tudo funciona perfeitamente (não me refiro aqui à equipe do médico citado e à do Samu como um todo, assim como o corpo de Bombeiros, que presta ótimos serviços à comunidade). Os médicos são didáticos, os exames são pontuais, não há aparelhos de raio X quebrados, tudo destoa do cenário de horrores do serviço público cotidiano nacional. E tudo parece funcionar muito bem para a Band, pois a atração tem bons índices de audiência com recursos parcos – os atores-involuntários são pacientes (geralmente têm em sua face uma ‘borra’, quando não autorizam a divulgação da imagem), outros aparecem de rosto limpo, há apenas uma câmera, não há repórter, apenas um produtor que faz perguntas aos médicos, pacientes e suas famílias. Além disso, a Band não gasta dinheiro com gasolina, pois vão de carona em ambulâncias e viaturas de bombeiros, numa clara demonstração de ‘esperteza’ na utilização de recursos públicos em situações privadas.

Mudo de canal novamente, agora sintonizo na rede TV! Dr. Hollywood, uma produção americana sobre cirurgias plásticas protagonizada por dr. Rey, um brasileiro filho de americano que fala um português sofrível – ele foi para os Estados Unidos com doze anos estudar. Na série em questão, ele é dublado e mostra junto com outros colegas o mundo das cirurgias plásticas.

Revelar o ser humano fragilizado

Aqui o conteúdo é mais relax, pois tem um teor estético – mostram-se cirurgias de implante de silicone, redução de mamas, redução de lábios vaginais, cirurgias corretivas penianas, aplicações de botox, lipoaspirações, entre outros procedimentos. Aqui há razão de ser a assepsia, o bom atendimento, pois estamos na América e lá, desde garçonetes até patricinhas de mente desocupada fazem plástica e o sistema de saúde, apesar de não ser universal, dá um acesso razoável a qualquer um. Além do mais, Hollywood é Hollywood. No final, Rey conversa com a apresentadora e mulher do dono da emissora, Daniela Albuquerque, num link, quando afirma que um dia mudará para o Brasil e fará trabalhos voluntários na área quando ficar mais velho, tudo sem dublagem no seu português ruim.

Assim termina o ‘domingo visceral’. Entranhas, vísceras, sangue, gorduras, vaginas, seios, ossos, tudo num cardápio que para o telespectador desavisado pode parecer um serviço de utilidade pública, mas que, na verdade, tem em si a vontade insaciável de destrinchar, mostrar, revelar cada vez mais profundamente o ser humano, fragilizado e que aceita a exposição muitas vezes de modo forçado.

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Professor de Inglês, Taboão da Serra, SP

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