Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

TV EM QUESTãO > GRUPOS CBS & WARNER

União de redes de TV desarruma mercado

Por Marcel Pazzin em 30/01/2006 na edição 366

Depois de 11 anos em competição direta, duas das seis principais redes de televisão norte-americanas estão por cessar operações e passarão a ser uma só. A partir de setembro, as redes The WB e UPN combinarão programações e operações e adotarão o nome de The CW. A sigla é formada pelas iniciais das empresas CBS Corporation e Warner Bros. Entertainment, que têm controle parcial das atuais redes e serão sócias de igual proporção no novo empreendimento. A notícia, divulgada na terça-feira (24/1), tomou de assalto o mercado da comunicação nos Estados Unidos e passou a ser o assunto mais discutido da semana, rendendo repercussão nos mais variados veículos.


No ar desde 1995, as duas redes competiam entre si na disputa pela audiência de um público demograficamente mais jovem – 18 a 34 anos – sem nunca terem chegado a atingir índices que competissem diretamente com as gigantes ABC, CBS, NBC e Fox. O anúncio foi feito em Nova York pelo presidente da CBS Corporation, Leslie Moonves, e pelo presidente da Warner Bros. Entertainment, Barry Meyer.


A nova rede pertencerá a duas das três empresas que detêm controle das atuais e separadas redes. A The WB Television Network até o momento é concebida entre uma sociedade composta pela Warner Bros. Entertainment e a Tribune Broadcasting. A rede United Paramount Network é propriedade da CBS Corporation, conglomerado que reúne ainda a rede aberta CBS e empresas como a editora Simon & Schuster e o canal a cabo Showtime. A CBS Corporation e Warner Bros. ficarão cada uma com 50% das cotas da nova operação. A empresa Tribune Broadcasting, que detinha 22,5% da The WB, abriu mão da participação na nova rede de televisão, em troca de um acordo de afiliação para suas emissoras cuja duração é de 10 anos.


No novo panorama, serão a princípio 28 emissoras diretamente vinculadas à nova rede de televisão: 16 da The WB, pertencentes à empresa Tribune Broadcasting, e outras 12 que tinham laços com a UPN, sob a chancela da CBS Corporation. O resultado será uma cobertura de 48% do território americano e a presença nos 13 principais mercados de TV, além de 20 dos 25 maiores mercados, como Nova York, Los Angeles, Chicago, Atlanta, Boston e Filadelfia. ‘Este é um grande dia para a Tribune e para seus cotistas e estamos satisfeitos em ser o grupo líder de afiliadas desta que será uma rede forte’, declarou Dennis Fitzsimmons, presidente da Tribune Broadcasting.


As novas grades


Em praças onde houver afiliadas às duas redes, será priorizada aquela que for pertencente à CBS Corporation ou à Tribune Broadcasting. No caso de as duas partes terem um canal de televisão em determinada praça, fatalmente uma ficará sem rede para transmitir e deverá se tornar independente. Em praças onde nenhuma representante das duas redes for pertencente às empresas componentes da The CW, será eleita a afiliada com melhor desempenho para continuar no projeto.


A estimativa dos executivos da nova rede é que até o fim do ano a cobertura chegue a 95% do país, pela seleção das melhores afiliadas das duas redes. O presidente da CBS Corporation, Leslie Moonves, disse, em nota oficial à imprensa, que o novo empreendimento vai representar mais do que as duas redes em separado já representaram. ‘Será claramente mais importante que as suas partes em separado, levando excelentes dados demográficos aos anunciantes e compondo um novo e forte corpo de afiliadas’, afirmou. Para Barry Meyer, presidente da Warner Bros. Entertainment, a The CW tem a tendência de capitalizar em cima da soma dos recursos pré-existentes de cada operação. ‘Será chave para a nova rede o benefício que virá por ser uma quinta rede competitiva, com bons índices de audiência e financeiramente sã’.


A The CW planeja programação de 30 horas semanais em rede, 13 delas em horário nobre. O plano preliminar divulgado pela CBS Corporation prevê grade nacional alternada com programação local. Nacionalmente, haverá programação de segunda a sexta, das 15h às 17h e das 20h às 22h. Aos sábados, um bloco específico de desenhos das 7h ao meio-dia. No domingo, a programação estará ao ar das 17h às 22h. Nos demais horários, a programação será gerada pelas emissoras afiliadas, misturando programas comprados (syndication) e reprises a telejornais locais.


Órfãos apreensivos


A programação basicamente será fruto da mistura formada entre os sucessos das duas redes, como Smallville, 7th Heaven e Gilmore Girls, pelo lado da The WB, mais Everybody Hates Chris, America’s Next Top Model e Veronica Mars, da UPN. Estes seriados já são conhecidos do público brasileiro de televisão por assinatura, sendo transmitidos pelos canais Sony Entertainment Television e Warner Channel. ‘Essa nova rede servirá ao público com programação de alta qualidade e manterá nosso compromisso atual com a diversidade’, disse Leslie Moonves.


A responsabilidade pela nova operação será dos atuais executivos de The WB e UPN. A divisão de programação terá a atual presidente da UPN, Dawn Ostroff, como chefe. ‘Temos muito trabalho a nossa frente’, disse a executiva à revista Zap2It. ‘Temos que definir a grade de programação e isso só deve acontecer em maio’, declarou, visando esfriar as especulações sobre quais programas devem ser combinados na grade. A divisão administrativa ficará sob o comando de John Maatta, que ocupava a mesma função na The WB.


Apesar da euforia em torno da novidade, a apreensão já vem dando sinais entre os funcionários das emissoras afiliadas que não pertencem à Tribune Broadcasting ou à CBS Corporation – cujas emissoras estão garantidas na transmissão da rede The CW. Estações que não pertencem a nenhum dos dois grupos não têm certeza de participação na nova rede nacional. Para que o leitor compreenda melhor a situação, citamos o exemplo da praça Nova York.


Na semana da feira


Nesta cidade, atualmente a The WB é transmitida pela WPIX-TV canal 11, e a UPN, pela WWOR-TV canal 9. A primeira emissora é da Tribune Broadcasting, portanto, será responsável pela transmissão da rede The CW na região de Nova York. O destino do canal 9 ainda não foi confirmado, mas estima-se que venha a se tornar independente, transmitindo desenhos, filmes e reprises. O mesmo quadro se observa no segundo maior mercado de televisão, Los Angeles, onde a The WB é vista através do canal 5, KTLA-TV, cuja gestora é a Tribune. Portanto, caberá a ela representar a The CW, e não o canal 13 da UPN, KCOP-TV.


Aliás, o impacto do desaparecimento da UPN já é sentido na KCOP-TV. A emissora, um dia após o anúncio da fusão, mudou seu nome fantasia de ‘UPN 13′ para ’13 Los Angeles’, apagando todas as menções gráficas que remetam à rede à qual ainda é afiliada. A mesma realidade se observou em Nova York. Nesta mesma semana, a WWOR-TV canal 9 também procurou eliminar todas as referências à UPN, fixando como marca fantasia o seu número 9. Emissoras sem vínculo com redes eram uma constante nos Estados Unidos até o surgimento de The WB e UPN em 1995 — e o grande motivo para a criação das duas redes era justamente o vasto mercado de estações independentes disponíveis para transmitir sua programação.


A bomba da criação de uma nova rede de televisão nos Estados Unidos caiu justamente na semana em que começou na cidade de Las Vegas a feira da NATPE (National Association of Television Program Executives), na qual se vendem programas e equipamentos de televisão a clientes de todo o mundo. Segundo a revista Television Week, o tema mais debatido entre os expositores e freqüentadores foi justamente o futuro das emissoras que serão descartadas no processo de implantação da nova rede. Basicamente, a estação que não for convidada a retransmitir a programação da The CW terá de comprar mais programas para preencher o vazio.


As saídas de Murdoch


Quando se fala em comprar programas, isto significa adquirir direitos de reprise ou atrações produzidas com o objetivo da venda para preencher espaços nas emissoras locais. Esse formato é denominado syndication e é parecido com o que existe no Brasil, quando um colunista de jornal vende sua coluna a jornais de outras praças, sem vínculo trabalhista. O jornal escolhe a página onde quer a coluna. Da mesma forma, as emissoras nos Estados Unidos compram programas independentes, da sua ou de outras redes, e escolhem o horário em que os querem exibidos em sua praça. Cita-se como exemplo maior desta prática o talk-show de Oprah Winfrey, que não pertence a nenhuma rede; entretanto, vai ao ar em quase todos os mercados americanos através de emissoras que compram seus direitos de exibição.


Apesar da iminente queda, a rigor, de uma das redes, nem todas as emissoras percebem o futuro como derrota. Matthew Gray, gerente geral da afiliada da UPN em Cincinatti (WBQC-TV), acha que o pior percalço, caso sua emissora não integre a The CW, será preencher 11 horas semanais de programação deixadas pela antiga rede. ‘Isso apenas significa que programas dos quais temos opção de reprise podem aparecer no horário nobre de segunda a sexta’, disse à Television Week.


Do ponto de vista de quem vende programação, a perspectiva de novas emissoras independentes é animadora, sobretudo pela possibilidade de vender formatos incomuns, como filmes de longa metragem. ‘Algumas emissoras se sairão melhor com a independência, sobretudo no tocante à verba originada com novos anúncios’, disse Mort Marcus, da empresa de syndication Debmar-Mercury.


Quando se fala em emissoras que ficarão ‘órfãs de rede’, a News Corporation, dona da rede Fox, do titã Rupert Murdoch, é a bola da vez. Além de emissoras integrantes da rede Fox, o grupo tem afiliadas vinculadas à UPN, que perderão a afiliação com o advento do novo conceito. Algumas destas estações estão em praças-chave, como Nova York, Los Angeles, Chicago e Washington. Nos Estados Unidos, cogitam-se três hipóteses. A primeira diz respeito a realmente torná-las independentes. A segunda, vislumbra uma espécie de ‘Fox 2’, com reprises da rede Fox, juntamente com programas concebidos pelo braço de produção do grupo, a Twentieth Television. A terceira possibilidade é a de simplesmente vender estas estações sem rede.


Ações sobem


A revista Television Week ressaltou que a decisão de encerrar as operações da UPN ‘pegou e não pegou’ a News Corporation de surpresa. Pegou porque não se imaginava a fusão abrupta com a The WB. E não pegou porque o contrato de afiliação destas emissoras com a rede UPN estava por acabar na metade deste ano, no fim da atual temporada de TV. E também porque a rede UPN estava batalhando em termos financeiros.


Em nota oficial, um porta voz da News Corporation alegou que ‘esta é a grata oportunidade para reprogramar estas emissoras localizadas nos mercados mais importantes do país’. O desfalque atingirá também as próprias empresas investidoras na nova rede. Em determinadas praças, está previsto um overlap, ou seja, a existência de emissoras pertencentes a cada uma das empresas coligadas na operação – sendo que somente uma poderá carregar a The CW. Com a concretização da fusão, a CBS Corporation ficará com emissoras sem rede em Atlanta, Filadélfia e Seatlle, ao passo que a Tribune ganhará independentes em Dallas, Boston, Miami e Nova Orleans.


Ao longo de sua trajetória, nem The WB nem UPN tiveram divisões de jornalismo ou telejornais nacionais. A responsabilidade pela informação foi delegada às emissoras locais, que escolhem o horário e a duração dos informativos. Em Nova York, a atual afiliada da The WB, WPIX canal 11, exibe diariamente cinco horas de telejornalismo local. As primeiras quatro horas vão das 5h às 9h, com o WB11 Morning News. À noite, o noticiário vai ao ar das 22h às 23h no WB11 News At Ten. Na pauta destes telejornais, existe abertura para noticiar fatos nacionais e internacionais, além das notícias locais.


Na praça de Los Angeles, a KTLA canal 5 segue um molde idêntico ao nova-iorquino. São quatro horas de jornalismo local no começo da manhã no KTLA Morning News e mais uma no horário nobre, com o KTLA Prime News. A grande diferença do modelo jornalístico adotado por estas emissoras é a inexistência de noticiário ao meio-dia ou no fim de tarde – que são uma estampa das emissoras pertencentes às redes maiores. Até o momento não foi divulgada intenção da rede The CW no sentido de investir em jornalismo.


O anúncio da fusão das duas redes provocou reações na Bolsa de Valores de Nova York. As ações da CBS Corporation subiram 3,3%, ficando ao preço de 26,68 dólares na tarde do anúncio. O mesmo efeito aconteceu com as ações da Time Warner (gestora da Warner Bros. Entertainment), que subiram 15 centavos até 17,24 dólares. Na atual temporada, a rede The WB vem marcando média nacional de 2,2 pontos e participação de 3%. A United Paramount Network atinge 2,3 pontos, com participação de 4%, segundo o Instituto Nielsen. Nenhuma das duas redes tem programas no Top 20 americano. A líder na preferência do telespectador é a rede CBS, que vem assinalando 8,4 pontos e participação geral de 14%.

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