Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

UMA HISTóRIA > O jornalismo a serviço da inclusão

A arte de renascer

Por Renato D'Ávila em 25/09/2017 na edição 959

Trecho do livro “Histórias de Baixa Visão“, de Mariana Baierie que será lançado dia 18 de novembro em Porto Alegre – RS

Sou Renato D’Avila Moura, natural de Aracaju-SE, nasci em 05 de novembro de 1988, com baixa visão, cujo diagnóstico foi distrofia de cones e bastonetes, não tinha visão central, apenas visão periférica. Estudei em escola regular, durante todo o tempo. A escola tinha limitações na metodologia didática para me repassar os conhecimentos, pois os professores não sabiam como lidar com a minha maneira de ver as coisas e o mundo.

Com o apoio fundamental dos meus pais, que muito fizeram para que eu conseguisse ter acesso ao ensino através da aquisição de tecnologias adaptativas que contribuíram para me incluir nos assuntos lecionados em sala e com um reforço escolar personalizado em casa, aprendi e fui um dos melhores alunos da turma. As tecnologias como: lupas, réguas ampliadoras, aparelho Jordy, de origem Alemã, o Amigo (aparelho de ampliação portátil que auxilia na leitura), me proporcionaram concluir o ensino fundamental, médio e superior.

Optei pela formação em jornalismo, pois tinha um desejo muito grande de entrevistar pessoas, conhecer suas histórias de vida, ouvir, registrar, opinar e divulgar acontecimentos e fatos do cotidiano que muito me interessava. Fiz minha graduação em Universidade particular, estudava no período noturno, pois facilitava a minha visão, já que durante o dia ela apresentava mais dificuldades devido à luminosidade.

Durante o período da minha formação acadêmica, fiz estágio em uma Organização Não-Governamental (ONG), estágio em uma emissora pública de TV, na área da produção geral, além de estagiar em um jornal impresso de maior circulação na cidade, onde fazia a rádio escuta, para elaboração de pautas. Foram anos de muito trabalho, estudo, autoestima, pois encontrava oportunidades e me sentia muito útil.

Formado há seis anos e com pós-graduação em marketing e web-jornalismo, me lancei no mercado de trabalho. Após dois anos desempregado, a primeira oportunidade surgiu na Secretaria de Esporte e Lazer de Aracaju. Em seguida, trabalhei durante três anos  em uma emissora de TV, afiliada da Rede Globo, como  produtor do Globo Esporte local.

Desde setembro de 2015, iniciei com um blog no Portal G1, intitulado: “Novo Olhar”, uma janela para mostrar o cotidiano de pessoas com deficiências. Hoje os textos são publicados no blog “Com Novo Olhar“.

Nos textos  procuro mostrar exemplos de pessoas que, como eu não se deixaram influenciar pelo desânimo e tocaram suas vidas até encontrarem seus espaços como cidadãos.

Durante a minha vida escolar, passando pela vida profissional, passei por momentos de muitas dificuldades e que por vezes, me levavam a refletir se não era melhor desistir de tudo, não fosse a minha fé em Deus, que é o combustível que me move para a frente. Sofri bullying, preconceitos, apelidos, discriminação, entre tantas outras coisas que prefiro esquecer. Nesse período, minha visão que era baixa, passou a diminuir ainda mais, sofri de uma doença adicional, catarata e fui submetido à cirurgia, com objetivo de melhorar um pouco, fato que com o passar do tempo, não se concretizou, e acabou dificultando ainda mais, pois me levou a usar outro acessório indispensável para quem não enxerga: a bengala.

O uso da bengala foi mais um capítulo em minha vida. Tive todo apoio dos meus pais  e da minha irmã, Camila Moura, que ainda me auxiliou em plena Avenida Paulista, treinando o uso junto comigo, para que eu conseguisse quebrar o meu próprio preconceito .

A música é outro fator que influenciou meus passos desde os oito anos de idade, com a prática do teclado e  violão . A  minha curiosidade por instrumentos musicais me levou até a descoberta de dons na sanfona, guitarra, contrabaixo, bateria, flauta doce, kulelê e cada vez mais uma novidade acrescenta conhecimentos ao meu gosto musical eclético. Diante de tanta paixão pela música, tive a oportunidade de retornar à Universidade, desta vez pública. Prestei novo vestibular, mesmo tendo que conciliar com o trabalho. Fui aprovado e passei a cursar Licenciatura em Música, atualmente estou no quinto período.

O  destino me mostrou a namorada que se tornaria eterna em minha vida e hoje é minha esposa, Simone, uma mulher incrível. Às vésperas do meu casamento fui exonerado da Secretaria de Esporte e Lazer de Aracaju e tive uma súbita perda da visão, fato que me abalou bastante.

Quando a vista começou a embaçar, passei por cirurgia de catarata, que foi feita com sucesso e até obtive certa melhora, passei a enxergar de longe. Embora tudo ficasse mais escuro com passar do tempo. Ainda assim, mantive minha rotina.

Em 2016 as coisas mudaram quando retornei das férias, liguei o computador e iniciei os trabalhos, as letras ampliadas e o contraste da tela de plano de cor preta com letras brancas, parecia entre nuvens, flash de escuridão e luzes brancas. A angústia dos tempos de escola me invadiu naquele instante em que eu não conseguia realizar minha tarefa no trabalho. Eu me perguntava: cadê minha visão? De repente, várias mudanças radicais em minha vida em curto espaço de tempo: a perda súbita do resquício de visão, passando a uma nova condição que implicava diretamente na minha profissão e na minha rotina, pois tinha que reinventar-me.

Os textos ampliados e os recursos de informática da noite para o dia, não mais me serviam. Tinha que reaprender a viver, como cego, sem conhecer o Braile. Busca de novos softwares.  Não suportei a carga e a depressão que nunca me abalara, enfim, tentava me vencer.

Iniciei uma rotina de visitas a psicólogos, terapias alternativas, busca por recursos óticos, consultas diversas que não resultavam em muita coisa em curto prazo.  Testei mais de trinta lentes, óculos e a resposta não vinha. Estava cego. Havia deixado pra trás aquela coragem de encarar meu caminho. A vida que estava iniciando com minha esposa, o sonho de atuar cada vez mais no jornalismo e eliminar qualquer obstáculo provando que consigo caminhar a despeito das limitações impostas pela vida e estímulo da família, dos colegas de trabalho, da minha própria vontade de fazer jus ao meu nome, Renato, que significa renascido das cinzas.

O jornalismo passou a ser a minha ferramenta de desbravamento. Nesta jornada conheci pessoas especiais, me aproximei da realidades dos meus entrevistados, onde fiquei de frente com muitos exemplos de superação nos diversos setores e profissões de cada canto do País. Através de grupos e contatos de parte dos 45 milhões de pessoas com deficiência, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE Censo 2010), percebi que eu não estava sozinho nesse novo caminho sem visão.

Na busca por “Novo Olhar”, missão que se tornou dever de casa e que faz parte da rotina de trabalho na produção jornalística do Blog, procuro mostrar exemplos de pessoas com alguma deficiência, cujas histórias de vida tornaram-se  fonte de estímulo para seguir em minha própria história.

Os casos de pessoas com deficiência tem conquistado espaço na mídia, nas pautas dos telejornais. Hoje, eu tomei consciência de que nós possuímos os cinco sentidos, para que possamos utilizar mais ou menos um ou outro, a depender da necessidade. Percebi que posso desbravar novos caminhos, mesmo sem o sentido da visão, posso dar sentido à vida utilizando a audição, o tato o olfato e até o paladar para dar sabor à vida, alimentar sonhos e estimular outros deficientes na busca constante por seus direitos de cidadãos.  Mais que isso, o sentido da resiliência e da perseverança, fundamentais para tocar a vida em frente.

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Renato D’Ávila Moura é jornalista, Pós-Graduado em Comunicação, Marketing e Web Jornalismo. Atuou na TV Sergipe, SEJESP, entre outros.

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