Segunda-feira, 23 de Julho de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº996
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UMA HISTóRIA > Fotógrafo da época de ouro do Cruzeiro

O olhar indomável de Luciano Carneiro

Por Luis Sérgio Santos em 13/12/2017 na edição 970
Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles

Guerra da Coreia, em 1951. (Foto: Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Em pouco mais de dez anos de atividade jornalística, o repórter fotográfico, redator e perspicaz apurador Luciano Carneiro deixou um portfólio memorável com dezenas de textos jornalísticos no estilo de reportagem e centenas de fotografias.

Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles

Autorretrato de Luciano Carneiro, em 1959. (Foto Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Luciano era um dos intrépidos jovens que ajudaram a construir a fase dourada da revista O Cruzeiro principalmente na década de 1950. Um ciclo que começa a ser exposto de modo consequente principalmente pela ação do Instituto Moreira Salles em sucessivas pesquisas e exposições mostrando acervos de profissionais da revista O Cruzeiro e, em especial, de Luciano Carneiro.

Sua morte, aos 33 anos de idade, às vésperas do Natal de 1959, não causou somente comoção mas, principalmente, enorme frustração. O destino tolhia de modo cruel a carreira de um dos profissionais mais brilhantes e destemidos da imprensa brasileira. Em 1951, Luciano cobriu a sangrenta Guerra da Coreia, pulando de paraquedas, junto com tropas americanas, direto no front em região na área do paralelo 38. Produziu pelo menos nove grandes reportagens publicadas nas páginas de O Cruzeiro, textos e fotos marcadamente humanas. Foi o único jornalista sul-americano a cobrir aquela guerra.

Outra cobertura memorável de Luciano foi a queda de Fulgêncio Batista e a ascensão de Fidel Castro, em Cuba. Entrevistou os dois em momentos diferentes e produziu fotos que falam por si, onde a angústia de uns e a euforia de tantos estão em relevo.

O comício de Fidel Castro na entrada em Havana, 1959 (Foto: Luciano Carneiro/Acervo Instituto Moreira Salles)

Nas festas que marcaram a coroação da rainha Elizabeth II, lá estava Luciano, documentando eventos que se somavam à maratona da coração e inserindo no contexto a figura carismática e heterodoxa de Assis Chateaubriand, o mentor da melhor fase de O Cruzeiro.

Chatô adorava a disponibilidade do jovem Luciano e sua agilidade em correr o mundo. Admirava também suas qualidades de piloto, de paraquedista e de enxadrista. Fê-lo correspondente da O Cruzeiro na Europa inserindo-o nos salões do “grand monde” francês na cobertura de saraus, regabofes e vernissages. São memoráveis as fotos de Luciano em Cannes, na cobertura do festival de 1955. Em 1954, lá estava ele, em junho e julho, na cobertura da Copa do Mundo FIFA, na Suíça ao lado de colegas de O Cruzeiro, dentre os quais David Nasser.

Esses são apenas alguns poucos episódios entre tantos outros que marcaram a breve carreira de Luciano Carneiro.

Assumi o desafio de resgatar a história desse jovem cheio de vida. Faz parte de uma linha de pesquisa a favor do exemplo de cearenses brilhantes deletados da memória nacional pelo distanciamento temporal e, também, por certa inaptidão. A primeira biografia que escrevi trata do jornalista e advogado Rui Facó, autor do clássico “Cangaceiros e Fanáticos”. Depois restauramos uma história de 80 anos de um dos jornais mais antigos do Brasil, ainda em circulação: O Estado foi fundado em 1936, em Fortaleza, por José Martins Rodrigues, jurista e deputado federal.

A terceira biografia trata do professor e político José Parsifal Barroso, o mais jovem ministro de Juscelino Kubitschek, que assumiu a pasta do Trabalho, Indústria, Comércio e Previdência. Como governador do Ceará, foi Parsifal Barroso quem, em 1960 inaugurou a rua (hoje avenida) Luciano Carneiro, no calor da perda do jovem jornalista cearense.

O trabalho do Instituto Moreira Salles em relação a preservação e divulgação da obra de Luciano Carneiro é outro fator estimulante. Publiquei o projeto de pesquisa da biografia de Luciano Carneiro. Trata-se, também, de uma maneira de sensibilizar pessoas que tenham informações sobre o aspecto pessoal e humano desse intrépido jovem homem de imprensa.

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Luis Sérgio Santos é professor do Curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará.

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