Domingo, 19 de Fevereiro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº934

UMA HISTóRIA > A mulher em "A Regra do Jogo"

Os feminismos na televisão

Por Maura Oliveira Martins em 17/02/2016 na edição 890

Se formos olhar atentamente aos programas de TV a que assistimos, é bem provável que reconheçamos algo bastante óbvio, mas, mesmo assim, importante: os produtos televisivos não surgem de nada e, consequentemente, não são sobre nada, mesmo quando pareçam se fundamentar apenas na banalidade. Para conseguir mobilizar um público gigantesco, é preciso que eles estejam razoavelmente em consonância com os discursos que circulam no mundo social. Além disso, os textos da televisão (seja a ficcional ou a da “realidade”) são feitos por pessoas que estão no mundo. Sendo assim, é natural, e mesmo desejável, que elas escrevam coisas a partir daquilo que vivenciam e é vivenciado pela sociedade.

Por isso mesmo, não devemos nos espantar quando notamos que vários temas sobre os quais debatemos no “mundo aqui fora” se reproduzem, com diferentes sentidos e intenções, naquilo que vemos na telinha. As agendas que existem na vida social se reproduzem nas mídias, e vice-versa. Se tal assunto se torna importante – nos jornais, nas conversas do dia-a-dia, no debate político – é bem provável que ele, de alguma maneira, permeie os programas televisivos. Por exemplo: se estamos falando bastante sobre a questão de gênero, sobre os encontros e limites entre biologia, desejo e sexualidade, faz bastante sentido que um personagem da novela A Regra do Jogo, Breno (Otavio Müller), se torne crossdresser (que fique claro: sobre qual imagem dos crossdressers que o personagem ajuda, ou não, a construir, já é outra discussão).

Uma das temáticas mais urgentes nos últimos anos diz respeito à legitimação dos direitos das mulheres e do desnudamento do machismo não apenas nas tramas do discurso, mas nos pequenos atos onde se esconde. Ou seja, tem-se consolidado na agenda do debate público uma discussão pertinente sobre algo que já estava dado há muito: que as mulheres conquistaram espaços que tornam os discursos da desigualdade dos sexos totalmente desajustados com aquilo que elas (e eles) vivem. Frente a isso, um programa de TV que sustente de forma simplória a ideia de que a mulher é um ser frágil e aguarda alguém que a “resgate” se torna totalmente démodé e incongruente.

Temos visto, então, uma série de discursos ligados aos femininos – que aqui pontuo como vários, pois têm diferentes tonalidades e profundidades naquilo que dizem – que podem ser observados nos produtos de mídia. No cinema blockbuster, o discurso está lá, às vezes de uma forma um tanto didática. Por exemplo, em Joy: O Nome do Sucesso, a protagonista Joy Mangano (Jennifer Lawrence) é apresentada ao público ainda criança, quando ouve de suas parentes mais velhas que ela é uma princesa e, consequentemente, precisa de um príncipe em sua vida, ao que prontamente reage que não precisa de homem algum. O papel rendeu mais uma indicação a Jennifer Lawrence ao Oscar.

“Os homens estão ficando cada vez mais bobos”

Na televisão, os discursos também são múltiplos e muitas vezes surgem de onde menos esperamos. As cinco temporadas da série de terror American Horror Story, por exemplo, são comandadas por protagonistas fortes e centralizadoras, que regem os universos em que habitam. Em quatro delas, Jessica Lange encarna mulheres complexas que se reerguem ao serem subjugadas por homens que guardam para elas lugares de submissão. Em especial, a temporada Coven é sintomática: envolve a busca pela sobrevivência das bruxas em uma Nova Orleans pouco propensa a aceitar os obscuros “poderes femininos”. As metáforas à vida das mulheres são várias, e todas maravilhosas.

Mesmo o chamado programa sobre nada, o famigerado Big Brother Brasil, não escapa da discussão. Logo no começo do programa, uma das mulheres se declarou “machista” ao dizer que os sexos não deveriam ter os mesmos direitos. Ana Paula foi execrada nas redes sociais pela declaração – e pela sua própria história, assumida como “garota mimada que não trabalha” – e poucos se atentaram ao teor daquilo que declarava. “A mulher está muito para frente e os homens estão ficando cada vez mais bobos”, complementou, em uma declaração que, embora torpe, merece reflexão. Na sequência da temporada, Ana Paula voltou-se agressivamente contra Laércio, um participante que, segundo ela, olhava desrespeitosamente para o corpo das moças. O discurso circulante no mais banal dos programas nos mostra que, na maior parte das vezes, o empoderamento das mulheres não se encontra nas palavras que elas escolhem (ser ou não feminista ou machista), mas na forma como elas agem.

Por fim, um dos textos mais ricos para pensar nesta questão está novamente em A Regra do Jogo, que também se constrói a partir de várias personagens femininas fortes. Há várias vozes de mulheres ali circulando, e me chamam a atenção especialmente três personagens. A primeira é Domingas (Maeve Jinkings), que encarna o típico papel da mulher violentada pelo marido, mas que não consegue se livrar dele. Conforme já apontado em outra análise, a personagem tem um arco narrativo um tanto previsível: a virada do personagem era óbvia e inevitável, mas precisou que um homem misterioso (Carmo Dalla Vechia) aparecesse para que ela conseguisse, enfim, se libertar do marido explorador. A ousadia do texto de João Emanuel Carneiro talvez seja tímida: aparentemente, Domingas sairá da novela sem o príncipe salvador, mas reinventando-se enquanto empresária no morro da Macaca.

O empoderamento das mulheres

O grande discurso feminista em A Regra do Jogo, ouso dizer, não se dá na relação entre os sexos, mas no confronto entre duas personagens mulheres: a manicure Janete (Suzana Pires) e a ex-prostituta Adisabeba (Susana Vieira). Após dois casamentos malsucedidos e que acabaram em traição, a honesta manicure se envolve com Merlô (Juliano Cazarré), o infantilizado filho de Adisabeba – uma mulher que sobreviveu a todo tipo de humilhação e que se tornou a pessoa mais poderosa da favela em que vive. Alguém poderia caracterizá-la como feminista, não sem razão: ela reivindica, por exemplo, o direito à própria história pregressa e ao próprio corpo. Por outro lado, a potência desta mulher abre espaço à fragilização do filho, e ela não tem o menor interesse que ele cresça e largue a sua saia (não estariam os homens meio bobos, diria Ana Paula, do BBB?).

Assim, quando surge Janete, uma mulher adulta e independente que não faz concessões à sogra e não se interessa pelo dinheiro dela, a reação de Adisabeba é a rejeição e a destruição da “opositora”, a quem chama de velha. Janete, por outro lado, exige de Merlô que ele dê um passo a mais – que resista ao sedutor conforto da proteção maternal e torne-se, finalmente, um homem adulto – mas deixa claro que prefere estar sozinha a dividi-lo com a mãe. Os diálogos deste conflito, embora se insiram no núcleo de humor, são riquíssimos e talvez falem muito mais sobre o empoderamento das mulheres do que muitos discursos assumidamente feministas.

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Maura Oliveira Martins é jornalista, professora universitária e editora do site A Escotilha

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