Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Jornalistas escrevem para leitores, não para fontes

31/07/2012 na edição 705

“Repórteres devem permitir que suas fontes alterem uma citação ou revisem rascunhos de matérias antes de serem publicadas?”, indaga, em sua coluna [27/7/12], o ombudsman do Washington Post, Patrick Pexton, respondendo negativamente para ambas as situações. Estes temas vieram à tona na semana passada por conta de duas matérias que envergonharam jornalistas do Post – uma publicada no Texas Observer e outra no New York Times.

O artigo do Observer tratava da troca de emails entre o repórter de educação do Post, Daniel de Vise, e funcionários da Universidade do Texas. Obtidos pelo jornal por meio do Ato de Liberdade de Informação, os emails eram referentes a uma matéria escrita por De Vise em março sobre as práticas da universidade e se os testes padronizados poderiam avaliar de maneira justa o que os universitários aprenderam em quatro anos.

Depois de uma viagem a Austin, De Vise compartilhou dois rascunhos do seu artigo com funcionários da universidade, antes da matéria ser publicada. Eles não gostaram da primeira versão, alegando que o tom não era “justo”. Dentre os emails mais vergonhosos estava um de De Vise afirmando que “tudo é negociável”.

Em busca da verdade

Na opinião de Pexton, De Vise é um repórter justo e consciente, mas esqueceu que escreve para os leitores e não para as fontes. É claro que jornalistas devem ser justos com suas fontes e precisos na verificação dos fatos, mas estão em um negócio no qual a verdade está em jogo – e ela surge por meio de pesquisa, entrevistas, observação, análise e do instinto obtido com a experiência. Além disso, a verdade deve incluir – ou pelo menos deveria – julgamento editorial. É por isto que os leitores pagam pelo jornal.

Jornalistas erram, mas o processo – de revelar a verdade por meio de uma imprensa livre – é tão importante que há proteção especial na Primeira Emenda da Constituição americana. Dar a alguma fonte o poder de revisão enfraquece o jornalista e beira a autocensura. Compartilhar rascunhos de matérias não é prático, permite que as fontes tornem suas declarações mais suaves e dá a elas controle sobre a narrativa do repórter. Com o texto na mão, fontes podem ver com quem o repórter falou, pressionar outras fontes ouvidas e até puni-las, caso tenham autoridade para tal, direcionando assim o trabalho jornalístico, que deveria ser isento.

Por isso, Pexton concordou com a atitude do editor-executivo Marcus Brauchli de tornar mais rígidas as normas internas do jornal referentes ao compartilhamento de rascunhos e também de modificar aspas com fontes. Agora, o envio de esboços só pode ser feito em casos “extremamente raros”, com autorização de Brauchli ou do chefe de redação. Alterações a pedido de fontes podem ser feitas somente após consulta com editores e com uma explicação para os leitores.

Jogo político

O NYTimes também levantou o tema em um artigo publicado no dia 16/7 sobre a insistência das campanhas presidenciais dos partidos Democrata e Republicano em editar as citações oficiais que serão publicadas – os repórteres, incluindo os do Post, acabam concordando com o esquema para conseguir ter em seus textos as opiniões dos principais estrategistas políticos dos candidatos. “Esta é uma prática terrível. O que esquecemos é que temos mais poder do que pensamos. E se os repórteres que cobrem a Casa Branca resolvessem não comparecer a uma coletiva de imprensa por um dia? O que os funcionários do governo fariam? Deixariam-nos na geladeira por semanas? Demitiriam-nos? Não, eles não podem. Eles precisam de nós tanto quanto precisamos deles. Não podemos nos esquecer disso”, conclui o ombudsman.

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