Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > THE WASHINGTON POST

Jornalistas escrevem para leitores, não para fontes

31/07/2012 na edição 705
Sobre artigo de Patrick B. Pexton, de Washington (EUA)

“Repórteres devem permitir que suas fontes alterem uma citação ou revisem rascunhos de matérias antes de serem publicadas?”, indaga, em sua coluna [27/7/12], o ombudsman do Washington Post, Patrick Pexton, respondendo negativamente para ambas as situações. Estes temas vieram à tona na semana passada por conta de duas matérias que envergonharam jornalistas do Post – uma publicada no Texas Observer e outra no New York Times.

O artigo do Observer tratava da troca de emails entre o repórter de educação do Post, Daniel de Vise, e funcionários da Universidade do Texas. Obtidos pelo jornal por meio do Ato de Liberdade de Informação, os emails eram referentes a uma matéria escrita por De Vise em março sobre as práticas da universidade e se os testes padronizados poderiam avaliar de maneira justa o que os universitários aprenderam em quatro anos.

Depois de uma viagem a Austin, De Vise compartilhou dois rascunhos do seu artigo com funcionários da universidade, antes da matéria ser publicada. Eles não gostaram da primeira versão, alegando que o tom não era “justo”. Dentre os emails mais vergonhosos estava um de De Vise afirmando que “tudo é negociável”.

Em busca da verdade

Na opinião de Pexton, De Vise é um repórter justo e consciente, mas esqueceu que escreve para os leitores e não para as fontes. É claro que jornalistas devem ser justos com suas fontes e precisos na verificação dos fatos, mas estão em um negócio no qual a verdade está em jogo – e ela surge por meio de pesquisa, entrevistas, observação, análise e do instinto obtido com a experiência. Além disso, a verdade deve incluir – ou pelo menos deveria – julgamento editorial. É por isto que os leitores pagam pelo jornal.

Jornalistas erram, mas o processo – de revelar a verdade por meio de uma imprensa livre – é tão importante que há proteção especial na Primeira Emenda da Constituição americana. Dar a alguma fonte o poder de revisão enfraquece o jornalista e beira a autocensura. Compartilhar rascunhos de matérias não é prático, permite que as fontes tornem suas declarações mais suaves e dá a elas controle sobre a narrativa do repórter. Com o texto na mão, fontes podem ver com quem o repórter falou, pressionar outras fontes ouvidas e até puni-las, caso tenham autoridade para tal, direcionando assim o trabalho jornalístico, que deveria ser isento.

Por isso, Pexton concordou com a atitude do editor-executivo Marcus Brauchli de tornar mais rígidas as normas internas do jornal referentes ao compartilhamento de rascunhos e também de modificar aspas com fontes. Agora, o envio de esboços só pode ser feito em casos “extremamente raros”, com autorização de Brauchli ou do chefe de redação. Alterações a pedido de fontes podem ser feitas somente após consulta com editores e com uma explicação para os leitores.

Jogo político

O NYTimes também levantou o tema em um artigo publicado no dia 16/7 sobre a insistência das campanhas presidenciais dos partidos Democrata e Republicano em editar as citações oficiais que serão publicadas – os repórteres, incluindo os do Post, acabam concordando com o esquema para conseguir ter em seus textos as opiniões dos principais estrategistas políticos dos candidatos. “Esta é uma prática terrível. O que esquecemos é que temos mais poder do que pensamos. E se os repórteres que cobrem a Casa Branca resolvessem não comparecer a uma coletiva de imprensa por um dia? O que os funcionários do governo fariam? Deixariam-nos na geladeira por semanas? Demitiriam-nos? Não, eles não podem. Eles precisam de nós tanto quanto precisamos deles. Não podemos nos esquecer disso”, conclui o ombudsman.

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