Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Suzana Singer

31/07/2012 na edição 705
“Justiça seja feita”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 29/7/12.

“Na quarta-feira passada [25/7], a Folha noticiou que a Justiça Federal em Brasília arquivou o inquérito contra a ex-ministra da Casa Civil Erenice Guerra. Alguns leitores e blogueiros aproveitaram a deixa para criticar o ‘denuncismo’ da mídia.

O ex-presidente Lula já tinha declarado em junho, antes da decisão da Justiça, que Erenice foi ‘execrada, acusada de tudo quanto é coisa’ e que a ‘imprensa, que a massacrou, não teve coragem sequer de pedir desculpas’.

A ‘execração’, na definição de Lula, aconteceu em plena campanha presidencial de 2010 e é apontada como um dos motivos que levaram ao segundo turno presidencial entre Serra e Dilma.

A ‘Veja’ iniciou o escândalo com uma reportagem em que um empresário dizia que Israel Guerra, filho da ex-ministra, fazia lobby para viabilizar negócios com o governo -segundo a revista, a mãe garantia o sucesso da intermediação.

A denúncia tomou toda a imprensa e foi manchete da Folha por nove dias. Em 16 de setembro de 2010, o jornal trouxe o seu ‘furo’: uma entrevista com Rubnei Quícoli, autodenominado ‘consultor de empresas’, acusando Israel de cobrar uma taxa para conseguir liberar empréstimo do BNDES.

A ministra caiu no mesmo dia, mas a Folha foi bastante criticada, porque Quícoli não era exatamente um exemplo de probidade. Com duas condenações na Justiça, já tinha passado dez meses na cadeia. Segundo o ‘Globo’, ele tinha tentado chantagear o governo, ameaçando fazer denúncias à imprensa.

Só que o fio do novelo já tinha sido puxado. Novas denúncias surgiram contra Israel Guerra, outros parentes e o marido da titular da Casa Civil, que teria buscado benefícios junto à Anatel para a empresa de telefonia que dirigia.

O inquérito, aberto em 2010 pela Polícia Federal, só teve desfecho agora, no último dia 20, com o pedido de arquivamento pelo Ministério Público Federal, que não encontrou provas que pudessem embasar uma denúncia criminal, o que foi acatado pela Justiça.

Isso significa que Erenice é mais uma vítima do ‘assassinato de reputações promovido pela imprensa’? Não é bem assim.

Mesmo que não tenha cometido um crime, a ex-ministra pode ter falhado eticamente ao permitir que se instalasse um balcão de vendas de influência na Casa Civil.

Em março do ano passado, a Controladoria-Geral da União apontou ‘irregularidades graves’ em três dos nove fatos investigados durante a gestão de Erenice.

O erro da imprensa está na forma como a decisão da Justiça foi noticiada. A Folha pelo menos deu uma menção na ‘Primeira Página’ -o que não aconteceu com o ‘Estado’ nem o ‘Globo’.

Só que a reportagem era bem confusa e, na quinta-feira, o jornal insistia no tom acusatório ao relatar que uma nova investigação terá como alvo uma suspeita de sonegação fiscal da empresa de Israel Guerra.

Para fazer o devido contrapeso às fortes denúncias do passado, era necessário divulgar, com destaque e clareza, a conclusão da Justiça de que não há provas contra a ex-braço direito de Dilma.

Às vésperas do julgamento do mensalão, é fundamental não alimentar os que veem uma desmedida sanha acusatória da mídia.

…E tudo voltou a ser como antes

A Folha voltou a editar os assuntos de macroeconomia em ‘Mercado’, decisão que merece ser comemorada. A migração de notícias sobre PIB, inflação, desempenho da indústria etc. para ‘Poder’ tinha roubado espaço de política e separado artificialmente temas correlatos.

A concentração de economia nacional em um caderno facilita a leitura e pode dar mais densidade à cobertura de negócios e finanças.

O segundo recuo em relação às mudanças implantadas em março do ano passado não é tão animador: ‘Esporte’ volta a ser standard, o mesmo formato do resto do jornal.

O tabloide, fácil de ser manuseado, tinha sido bem-aceito pelos leitores. A grita será ainda maior se, terminados os Jogos Olímpicos de Londres, o espaço da editoria for muito reduzido.”

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