Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

21/08/2012 na edição 708
“Plágio e integridade jornalística: a importância da clareza no domínio da autoria”, copyright Público, Lisboa (Portugal), 19/8/12.

“No campo rela­tivo ao assunto da men­sa­gem que há uma semana recebi do lei­tor Rui Ribeiro lia-se sim­ples­mente ‘Plá­gio no Público’. Sus­pei­tei desde logo, e a lei­tura do texto confirmou-o, que esta­ria perante mais um da mão cheia de casos simi­la­res que têm sido objecto de quei­xas de lei­to­res que encon­tram, geral­mente na edi­ção on line, notí­cias e outras peças jor­na­lís­ti­cas que repro­du­zem, sem indi­ca­ção da ori­gem (em alguns casos) ou identificando-a de forma defi­ci­ente (na maior parte das vezes), o que já tinham lido em outros órgãos de comu­ni­ca­ção (geral­mente sites noti­ci­o­sos estrangeiros).

Desta vez, porém, a recla­ma­ção apre­sen­tava duas par­ti­cu­la­ri­da­des: a notí­cia que o lei­tor con­si­de­rou con­fi­gu­rar um caso de plá­gio saíra (com des­ta­que) na edi­ção impressa e era expli­ci­ta­mente assi­nada por um jor­na­lista do PÚBLICO. Veja­mos o que escre­veu Rui Ribeiro: ‘Assi­nante da edi­ção digi­tal do Público, fiquei enor­me­mente sur­pre­en­dido quando, ao con­cluir a minha lei­tura da edi­ção de dia 12 de Agosto, me depa­rei, na última página do caderno prin­ci­pal, com uma notí­cia da auto­ria (?) de Filipe Esco­bar de Lima, sob o título ‘Famí­lias dos cam­peões olím­pi­cos Dou­glas e Lochte estão na falên­cia’. A sur­presa de que falo tem uma razão de ser – no dia 9 de Agosto tinha lido uma notí­cia muito seme­lhante, no sítio do The Daily Beast, que achei tão inte­res­sante que par­ti­lhei o link na minha página do Face­book’.

‘A lei­tura da notí­cia, que no ori­gi­nal já me tinha des­per­tado grande inte­resse’, con­ti­nu­ava o lei­tor, ‘tinha dema­si­a­das seme­lhan­ças com a memó­ria [que tinha] da notí­cia ori­gi­nal, algo que rapi­da­mente con­fir­mei revi­si­tando essa notí­cia. O ori­gi­nal, da auto­ria de Kevin Fal­lon, é muito mais extenso, mas as par­tes que Filipe Esco­bar de Lima apro­vei­tou, cor­res­pon­dem, no essen­cial, à forma como essas par­tes foram nar­ra­das por Kevin Fal­lon. Fiquei, por isso, à espera de, no final do texto, ver uma refe­rên­cia à notí­cia ori­gi­nal. No entanto, infe­liz­mente para a repu­ta­ção do Público, essa refe­rên­cia está ausente. Nada na notí­cia do Público refere a auto­ria do tra­ba­lho que levou à publi­ca­ção do texto ori­gi­nal. Parece-me, por­tanto, que se trata de uma situ­a­ção de plá­gio des­ca­rado, situ­a­ção que emba­raça o Público e devia enver­go­nhar o jor­na­lista que a ela recorreu’.

Está apre­sen­tado o caso. Antes de o ava­liar em con­creto, gos­ta­ria de real­çar algu­mas linhas gené­ri­cas que devem enqua­drar a aná­lise das acu­sa­ções de plá­gio que me chegam:

– Quase todas as recla­ma­ções desse tipo se repor­tam, de facto, a casos de má prá­tica jor­na­lís­tica, mas nem todos esses casos, longe disso, con­fi­gu­ram situ­a­ções indis­cu­tí­veis de plá­gio. Há uma dife­rença, ainda que nem sem­pre larga, entre a atri­bui­ção defi­ci­ente da auto­ria de um texto, ou de parte de um texto, e o plá­gio puro e duro. Entre a pará­frase pre­gui­çosa e a cópia não assu­mida. Entre a negli­gên­cia (ou mesmo algum dolo) no modo como é citada a ori­gem de um tre­cho e o roubo da sua auto­ria – que é o que o plá­gio é, sendo nes­ses ter­mos ‘ter­mi­nan­te­mente proi­bido’ pelo Livro de Estilo do PÚBLICO. Por isso, cada caso deve ser ana­li­sado em con­creto, até por­que as situ­a­ções de plá­gio indis­cu­tí­vel, num jor­nal cioso da sua cre­di­bi­li­dade, devem ter con­sequên­cias seve­ras para a car­reira pro­fis­si­o­nal de quem cometa o que é um dos mais gra­ves aten­ta­dos à ética do jornalismo.

– Na era do jor­na­lismo na Inter­net, a abun­dân­cia e fácil aces­si­bi­li­dade das maté­rias ori­gi­nais uti­li­za­das ou reci­cla­das sem o devido res­peito pela sua auto­ria favo­re­cem as prá­ti­cas incor­rec­tas de jor­na­lis­tas menos bem for­ma­dos, ou as ori­en­ta­ções erra­das que rece­bem. Na veloz e nem sem­pre reflec­tida ela­bo­ra­ção das edi­ções on line há dema­si­ado ‘corta e cola’, dema­si­a­das tra­du­ções mais ou menos adap­ta­das, dema­si­a­das trans­cri­ções de sites noti­ci­o­sos estran­gei­ros sem a devida sina­li­za­ção da sua ori­gem. As mes­mas con­di­ções expli­cam a maior faci­li­dade de detec­ção des­sas prá­ti­cas (há até pro­gra­mas infor­má­ti­cos para o fazer) por parte de lei­to­res aten­tos, como são mui­tos lei­to­res do PÚBLICO que não dis­pen­sam a lei­tura, na Inter­net, de meios infor­ma­ti­vos estran­gei­ros de refe­rên­cia ou espe­ci­a­li­za­dos em temas que mais os interessam.

– A indis­tin­ção entre dife­ren­tes graus de gra­vi­dade nos pro­ce­di­men­tos que se afas­tam de um res­peito exem­plar pelo tra­ba­lho alheio leva por vezes a acu­sa­ções infun­da­das ou exa­ge­ra­das de plá­gio. É mais per­tur­ba­dora, no entanto, a incons­ci­ên­cia que parece per­sis­tir entre nume­ro­sos jor­na­lis­tas de que o cum­pri­mento rigo­roso do pre­ceito segundo o qual ‘os tex­tos base­a­dos em notí­cias de outros órgãos de comu­ni­ca­ção devem men­ci­o­nar de forma inequí­voca a sua ori­gem’ (volto a citar as nor­mas éticas deste jor­nal) é o único cami­nho que per­mite afas­tar sus­pei­tas sobre a sua inte­gri­dade pro­fis­si­o­nal. ‘Men­ci­o­nar de forma inequí­voca’, sublinho

– As carac­te­rís­ti­cas do jor­na­lismo actual acon­se­lham uma deter­mi­na­ção rigo­rosa do que é ou não plá­gio. O tema está na ordem do dia em paí­ses como os EUA, onde é mais forte a medi­a­ti­za­ção e mais severo o escru­tí­nio de casos de ale­gado incum­pri­mento da ética pro­fis­si­o­nal. São conhe­ci­dos casos pro­va­dos de apro­pri­a­ção de tra­ba­lho alheio que con­du­zi­ram jor­na­lis­tas até aí pres­ti­gi­a­dos ao ostra­cismo pro­fis­si­o­nal. Mas há tam­bém o epi­só­dio recente de Fareed Zaka­ria, colu­nista da Time e cola­bo­ra­dor da CNN, que viu a sua acti­vi­dade sus­pensa nos dois órgãos face à acu­sa­ção de ter pla­gi­ado um tre­cho de um ensaio publi­cado na New Yor­ker (ele pró­prio reco­nhe­ceu ter errado), mas irá será rein­te­grado após uma inves­ti­ga­ção minu­ci­osa ter ate­nu­ado uma ava­li­a­ção ini­cial mais nega­tiva. Ou o caso de Jonah Leh­rer, um autor de sucesso que se demi­tiu da mesma New Yor­ker face à denún­cia, com­pro­vada, de que inven­tara cita­ções (no caso, de Bob Dylan), mas se viu tam­bém acu­sado de ‘auto-plágio’, um con­ceito bem mais con­tro­verso, apli­cado ao facto de ter reci­clado, sem o refe­rir, ideias, fór­mu­las ou fra­ses que uti­li­zara em tra­ba­lhos seus anteriores.

– Na aná­lise das quei­xas que recebo, tenho uti­li­zado um con­ceito de plá­gio que acrescenta à defi­ni­ção típica de dici­o­ná­rio (apro­pri­a­ção do tra­ba­lho de outro como se fosse seu) a demons­tra­ção da inten­ci­o­na­li­dade do acto. Como já aqui escrevi, ‘no plano da ética jor­na­lís­tica (…), o plá­gio implica a ocul­ta­ção deli­be­rada da auto­ria alheia de um texto’. Devo hoje acres­cen­tar que algu­mas fór­mu­las fre­quen­te­mente uti­li­za­das para ‘atri­buir’ essa auto­ria são, pela sua falta de cla­reza – quer esta se deva a negli­gên­cia pro­fis­si­o­nal ou, na pior hipó­tese, a uma ‘habi­li­dosa’ inten­ção de con­fun­dir –, pés­si­mas prá­ti­cas jor­na­lís­ti­cas. A roçar, por vezes, o plágio.

Visto à luz des­tas refle­xões, o caso apon­tado por Rui Ribeiro é, na minha opi­nião, exem­plo de uma prá­tica cen­su­rá­vel. O jor­na­lista que assi­nou, na edi­ção do pas­sado domingo, a peça sobre as difi­cul­da­des finan­cei­ras dos fami­li­a­res de cam­peões olím­pi­cos norte-americanos deu à crí­tica do lei­tor a seguinte e lacó­nica res­posta: ‘No segundo pará­grafo está a refe­rên­cia à his­tó­ria ser con­tada pela Newsweek, a que o lei­tor se refere como The Daily Beast, suple­mento que é parte inte­grante daquela revista ame­ri­cana e que o lei­tor deve desconhecer’.

Pas­se­mos ao lado da impre­ci­são quanto à ori­gem da peça assi­nada por Kevin Fal­lon. Sendo certo que oweb­site jor­na­lís­tico The Daily Beast e a Newsweek se fun­di­ram há mais de um ano numa única empresa, há mais rigor na afir­ma­ção do lei­tor que diz ter lido o texto ori­gi­nal publi­cado nesse site do que na suges­tão de que este teria sido colhido das pági­nas da conhe­cida revista.

O que impor­tará subli­nhar é que no texto assi­nado por Filipe Esco­bar de Lima não se diz que a Newsweek é a fonte de ori­gem de toda a ‘his­tó­ria’ rela­tada. A única refe­rên­cia à revista cita-a como tendo noti­ci­ado um (e só um) dos fac­tos que com­põem a his­tó­ria. Quem não tivesse lido o texto ori­gi­nal pre­su­mi­ria legi­ti­ma­mente que o jor­na­lista do PÚBLICO usou aquela publi­ca­ção como uma entre várias fon­tes de um tra­ba­lho em que outras infor­ma­ções e decla­ra­ções são cre­di­ta­das, ao mesmo nível, a outros títu­los – como o USA Today ou o site TMZ –, quando estes, afi­nal, são fon­tes devi­da­mente cita­das no pró­prio artigo do The Daily Beast. A prá­tica de só atri­buir à fonte única de um texto uma par­cela espe­cí­fica deste é infe­liz­mente comum (nome­a­da­mente em rela­ção a des­pa­chos de agên­cias noti­ci­o­sas a que nada é acres­cen­tado), mas nem por isso é menos enga­na­dora e censurável.

O autor da notí­cia publi­cada na última página do PÚBLICO do pas­sado dia 12 não é quem apa­re­ceu a assiná-la. Tudo o que lá está é a tra­du­ção, com ligei­rís­si­mas adap­ta­ções, de excer­tos de um texto escrito pelo jor­na­lista Kevin Fal­lon. Nada do que lá está resulta de tra­ba­lho pró­prio do redac­tor do PÚBLICO, com excep­ção da equí­voca refe­rên­cia à Newsweek – que até poderá ser esgri­mida con­tra a acu­sa­ção de plá­gio, mas não basta para jus­ti­fi­car o inde­fen­sá­vel. O PÚBLICO tem a obri­ga­ção, perante os seus lei­to­res, de cor­ri­gir estas prá­ti­cas ina­cei­tá­veis na uti­li­za­ção de tra­ba­lho alheio.”

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