Um jornal sobre notícias ou opiniões? | Observatório da Imprensa - Você nunca mais vai ler jornal do mesmo jeito
Quarta-feira, 15 de Agosto de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1000
Menu

VOZ DOS OUVIDORES > THE WASHINGTON POST

Um jornal sobre notícias ou opiniões?

02/10/2012 na edição 714
Sobre artigo de Patrick Pexton, de Washington (EUA); tradução de Jô Amado

Os republicanos acham que a mídia vem poupando o presidente americano e candidato à reeleição Barack Obama. Na realidade, 60% pensam assim, número maior que os 55% de quatro anos atrás, quando Obama enfrentou o senador John McCain. Essa é a conclusão de uma pesquisa feita entre 20 e 23 de setembro pelo centro de pesquisas Pew Research Center for the People & the Press, comenta, em sua coluna [29/9/12], o ombudsman doWashington Post, Patrick Pexton. A constatação reflete os e-mails que o ombudsman recebe de pessoas que se identificam como republicanas e conservadoras – e também de independentes e democratas que dizem que o Post vem poupando Obama. Esses e-mails não são uma pesquisa científica e sim uma relação de queixas e desapontamentos com o jornal; mas a sua tendência e as pesquisas feitas pelo Centro Pew deveriam levar a uma reflexão por parte do Post.

A pesquisa do Centro Pew mostra que cidadãos de opiniões variadas pensam que a cobertura de Obama e Mitt Romney é imparcial – 46% em ambos os casos. Isso, porém, é bastante inferior à maioria (60%) de americanos que, em 2008, disseram que a cobertura de McCain e Obama era imparcial. Uma boa parte dessa mudança deu-se entre republicanos. Há quatro anos, 48% dos republicanos achava imparcial a cobertura de McCain. Agora, apenas 38% acham que a cobertura de Romney é imparcial. Em 2008, 39% dos republicanos disseram que a cobertura de Obama era imparcial. Agora, apenas 30% pensam assim.

Se compararmos essa última pesquisa com outras feitas pelo Centro Pew no ano passado, o quadro de republicanos insatisfeitos ainda é maior. A cada ano, desde 1989, o Centro Pew vem fazendo uma pesquisa sobre a percepção de parcialidade nas notícias. Em 1989, praticamente o mesmo percentual de todos os grupos – um quarto de democratas, republicanos e o público em geral – via “bastante parcialidade” nas notícias. Numa pesquisa de janeiro, esse número chegava a 49% entre republicanos, 32% entre democratas e 37% entre o público em geral. Portanto, aumentou a parcialidade entre todos os grupos e, entre os republicanos, mais do que os outros.

“Cobrimos política de uma maneira imparcial”

Um aspecto do Post que particularmente irrita os conservadores é a posição dos colunistas que aparecem nas edições impressa e online (ao contrário do que ocorre com a seção “Opiniões” nas páginas editoriais). Com exceção de Dan Balz e Chris Cillizza, que cobrem política de maneira não-partidária, quase todos os colunistas escrevem da esquerda para o centro. Ezra Klein, do Wonkblog, vem da esquerda dos democratas e às vezes aparece na primeira página da edição impressa do Post; Steven Pearlstein, que cobre administração e às vezes aparece na primeira página; Walter Pincus, sobre segurança nacional; Lisa Miller, no blog On Faith; Melinda Henneberger, de She the People; Valerie Strauss, do blog de educação; mais três colunistas locais – Robert McCartney, Petula Dvorak e Courtland Milloy –, todos escrevem a partir de uma perspectiva progressista, segundo os leitores. (Assim como Dana Milbank, que trabalha na seção de “Opiniões”, mas escreve uma coluna que aparece na página A2 duas vezes por semana).

Diante disso, o ombudsman levantou algumas questões: haveria algo de estranho no fato de, sendo um conservador à procura de notícias não tendenciosas, você se sentir rejeitado, insultado ou ofendido pelo que foi publicado nas versões impressa e online do Post? E você deixaria de confiar nas notícias quando vêm empacotadas em comentários tão liberais?

Marcus Brauchli, editor-executivo do Post, disse que os leitores conservadores podem interpretar a recente cobertura de Romney como muito dura porque perderam muito da cobertura feita sobre Obama nos últimos quatro anos. “Há anos cobrimos Barack Obama de uma maneira agressiva”, disse Brauchli. “Só demos uma cobertura maior a Romney desde que ele é o candidato republicano. Cobrimos política de uma maneira imparcial e Dan Balz, Chris Cillizza, Karen Tumulty, Glenn Kessler e outros repórteres fazem um magnífico trabalho de dar as notícias sem opinião. Entre os colunistas da página editorial e os comentaristas das páginas de notícias, acho que o Post oferece aos leitores uma perspectiva equilibrada.”

E os comentários dos conservadores?

A boa notícia sobre as pesquisas do Centro Pew é que 68% dos americanos, de todas as tendências políticas, têm reiteradamente dito aos pesquisadores desde 2004 que querem as notícias sem ponto de vista político. Como disse Andrew Kohut, presidente do Centro de Pesquisas Pew: “As pessoas usam mídias diferentes para objetivos diferentes.” Primeiro procuram a televisão e sites de notícias, como os do Post e do New York Times, em busca de informação. “Depois vêm talk shows para polarizá-los”. O Post deveria, em primeiro lugar, dar a notícia sem opinião. “Se o Post quiser embrulhar as notícias em comentários, tudo bem, mas não deveriam algumas dessas vozes ser de conservadores?”, conclui o ombudsman.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem