Sexta-feira, 25 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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VOZ DOS OUVIDORES > THE WASHINGTON POST

Resenhas de carros e opiniões políticas

16/10/2012 na edição 716
Sobre artigo de Patrick Pexton, de Washington (EUA); tradução de Jô Amado

O ombdusman do The Washington Post, Patrick Pexton, geralmente defende a não publicação de opiniões nas páginas de notícias, mas, como explica em sua coluna [12/10/12], as resenhas opinativas sobre automóveis escritas por Warren Brown, veterano repórter e colunista do Post que cobriu por muito tempo o setor industrial, são justificadas.

Nos últimos três meses, Brown abriu suas resenhas de domingo sobre automóveis com o que, para alguns leitores, seria um desvio inapropriado para política partidária. No dia 27/7, Brown escreveu sobre um sedan que consome muita gasolina, o Dodge Charger SRT8, um carrão V8 usado eventualmente pela polícia. Descrevendo-se inocentemente como um “apoiador de Obama eco-esquerdista”, Brown confessou que aquele carro ia contra seus princípios. E disse que aquilo o fazia compreender como Mitt Romney podia ser uma vira-casaca, ou melhor, um “homem em conflito profundo” – um cidadão que aprovou uma lei de reforma do seguro-saúde quando era governador de Massachusetts, muito parecida com aquela aprovada por Obama, a mesma que iria imediatamente revogar caso se elegesse presidente. Dirigir o Charger era um prazer tão grande, ainda que culpado, escreveu Brown, “que me dá vontade de gritar: ‘Aleluia, Sarah! Vai, bichinho, vai!’”

Em sua resenha de 7/10, sobre o novo modelo Altima, da Nissan, um sedan popular de tamanho médio, Brown descreveu como o carro – que lhe criou grandes expectativas desde que vira uma versão sua anterior no International Auto Show de Nova York – acabou sendo insosso e desinteressante porque a Nissan quis fazer um pouco de tudo para todas as pessoas. Então, comparou o carro com o que o presidente Obama fez em seu debate com Romney: “Não me interpretem erradamente. Eu gosto de Obama. E gosto do Altima. Mas ambos têm em comum o hábito frustrante de dar soquinhos quando você torce para que partam para o nocaute”.

Eis aqui o que um leitor, que quer ser identificado apenas como I.P., disse sobre as metáforas políticas de Brown: “Você provou, sem dúvida alguma, que é incapaz de escrever uma simples resenha sobre carros sem recorrer a colocar temas como raça, política, classe e alguns outros insultos odiosos e rancorosos, ao invés de produzir uma resenha qualificada do carro propriamente dito. Você simplesmente não consegue se afastar de um ressentimento profundo e admiração bajuladora por algum dos atuais candidatos políticos para fazer realmente o seu trabalho, que é o de escrever sobre um carro numa página do jornal destinada a isso”.

O ombudsman observou o uso de política nas duas resenhas, mas política como metáfora e, na sua opinião, Brown escreve por metáforas todas as semanas e é por isso que suas resenhas de carros são tão boas. Ele compara os carros a algo em nossas vidas diárias com as quais todos nos relacionamos. Nesta época eleitoral, certamente nos relacionamos com Romney e Obama. Onde o leitor vê “insultos odiosos e rancorosos”, Pexton vê alfinetadas, tanto a Obama quanto a Romney. Onde o leitor vê “um ressentimento profundo e admiração bajuladora por algum dos atuais candidatos”, Pexton vê figuras de expressão divertidas e astuciosas de carros e candidatos.

Quem é Warren Brown

É útil saber quem é Brown. Ele cresceu no sul racista, é um veterano do movimento pelos direitos civis e cobre a indústria automobilística há 30 anos. Sabe bastante sobre essa indústria, ainda um dos maiores setores da economia americana. E tem opiniões – suas observações políticas apareciam com frequência na coluna “Car Culture” que ele escrevia para o Post sobre a indústria automobilística. Brown não tem muito a ver com políticos (ou outros jornalistas) que falam sobre carros e o setor de energia sem realmente saberem muito sobre o assunto. Ele conheceu e entrevistou George Romney, pai de Mitt, quando era governador do Michigan.

Metáforas políticas

Brown chama a si próprio de “agressivamente independente” e disposto a pegar no pé de qualquer pessoa. “Nunca fiz segredo de minhas tendências políticas; já bati de frente com o pessoal de Obama, com os republicanos e com qualquer outro com quem queira bater de frente”, disse ele. “Uma leitura superficial de minha coluna ao longo das décadas daria essa informação. Conheci gente que ficava ofendida com isso.” E terminou: “O importante é que no momento em que eu dirigia o Altina da Nissan, ao mesmo tempo em que se dava o debate, aquele carro lembrou-me tanto de Obama que me irritou.”

Na opinião do ombudsman, a leitura de Brown é boa porque ele é perspicaz e fácil de ler. “Suas metáforas políticas são divertidas e apropriadas. Ele fala abertamente de suas opiniões. Isso não é um insulto; é a voz de quem escreve”, conclui.

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