Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

30/10/2012 na edição 718

“'Sou leitor assíduo desse jornal. Convivo bem com divergências, concordei e discordei de vários artigos e reportagens, mas eis que minha paciência democrática, que pensava inesgotável, chegou ao limite com o editorial 'Para quem precisa'.'

A mensagem, de um administrador de empresas de Santa Catarina que prefere não se identificar, exprime bem a indignação que tomou conta de muitos leitores da Folha nos últimos dias.

O editorial que provocou revolta argumentava que só devem ir para a prisão os criminosos violentos, que representam perigo à sociedade, sendo que aos demais caberiam penas alternativas. Entre 'os demais', estariam os réus do mensalão.

Num momento em que 'a sociedade brasileira tem a alma lavada pelo julgamento no Supremo Tribunal Federal', na definição de um leitor, a Folha teria traído a confiança de seu público ao defender a ideia de que políticos corruptos não precisam de cadeia.

Penas alternativas para crimes não violentos vêm sendo defendidas em editoriais há anos. No caso do mensalão, sempre sublinhando a sua gravidade (a 'escala sistêmica' da corrupção promovida pela 'camarilha' petista), o jornal foi assumindo devagarinho uma posição.

Em setembro, o editorial 'Menos impunidade' comemorava a disposição do STF de tratar com 'inusitado rigor delitos difíceis de coibir', mas ressalvava que pena privativa de liberdade só deve ser aplicada nos casos em que 'o condenado traz real ameaça à segurança pública'.

Há oito dias, em 'As penas de cada um', a Folha alertava para o risco de os réus do mensalão pagarem pela 'impunidade geral' e pedia equilíbrio na dosagem das punições.

Mas a reação só veio na quinta-feira passada, quando o jornal disse, com todas as letras, que, apesar do 'legítimo anseio de ver os culpados atrás das grades', o correto seria condená-los a devolver o dinheiro que foi desviado, impedi-los de exercer cargos públicos e obrigá-los a prestar serviços à comunidade.

Imaginar José Dirceu trabalhando em 'uma ONG de preservação de baleias' para pagar sua pena, como ironizou um leitor, pareceu incoerente com o tom duro que o jornal tem adotado em relação aos 'mensaleiros'. No dia em que o Supremo condenou o ex-ministro, a 'Primeira Página' colocou um gigantesco 'Culpados' no lugar da manchete.

Provocou então a ira dos petistas, somada agora à dos que sonham em ver Dirceu & cia. mofarem na cadeia. O editor de Opinião, Marcelo Leite, diz que a Folha leva em conta as inclinações dos seus leitores, 'mas não pode subordinar a própria opinião a clamores de qualquer grupo'. 'Menos ainda quando se chocam com princípios do Direito, com o que acreditamos ser do interesse público ou com posições tradicionais do jornal', diz.

De fato, não dá para acusar a Folha de jogar para a plateia. No último capítulo do novelão do julgamento, quando a sanha condenatória toma toda a grande imprensa, o jornal se diferencia ao não engrossar o coro de 'cadeia neles'.

'Os editoriais não são escritos de modo a ganhar (nem perder) leitores, muito menos conquistar o favor (ou a antipatia) de qualquer governo. O objetivo é esclarecer questões relevantes e contribuir para a melhora da qualidade do debate público no Brasil, agregando-lhe mais equilíbrio e objetividade' (Marcelo Leite – Editor de Opinião)

'Nesse estágio do julgamento, com o Joaquim Barbosa lutando para punir a quadrilha, a Folha vem abrandar, dizer que não convém levar os criminosos para a cadeia. Como um jornal de vanguarda, que não tem rabo preso com ninguém, defende uma coisa dessas? Tem que ir para a prisão para mostrar que os tempos estão mudando' (Eduardo Domingues, empresário, leitor da Folha há 30 anos)”

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