Quarta-feira, 23 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº988
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VOZ DOS OUVIDORES > THE WASHINGTON POST

Uma homenagem do ombudsman ao ex-senador McGovern

30/10/2012 na edição 718
Sobre artigo de Patrick Pexton, de Washington (EUA); tradução de Jô Amado

O ombudsman do Washington Post, Patrick Pexton, encontrou-se por duas vezes com George McGovern quando era jovem, suficientemente perto para ficar com uma impressão nítida do homem. Homem que seria responsável pelo fato de o ombudsman ter se tornado jornalista, revela, em sua coluna de domingo [28/10/12].

Nos anos do ex-presidente Richard Nixon, era popular, como é hoje, descrever liberais como delicados, fracos, maleáveis e confusos. Na opinião de Pexton, isso não descrevia McGovern. É verdade que McGovern era um liberal, mas duro como tungstênio. Ex-piloto de um bombardeiro B-24 que fez 35 missões de voo na Europa durante a Segunda Guerra Mundial, McGovern lembrava a geração dos veteranos combatentes – inflexível, confiante, não tolerava insolências. Esses homens sofreram profundamente com a guerra mas esta também os humanizou. Tinham prazer em viver e apreciavam os erros humanos – e, pessoalmente, eram tolerantes e generosos. George H.W. Bush é do mesmo tipo.

O primeiro encontro que o ombudsman teve com McGovern foi em 1971, numa conferência para a qual foi convidado como recompensa por ter saído bem no trabalho voluntário. Estudava no ginásio, na Califórnia do Sul, onde participava da seção de uma organização humanitária, a American Freedom From Hunger Foundation. A fundação – McGovern e Sargent Shriver faziam parte da diretoria – treinava e formava estudantes do ginásio e da universidade, no início da década de 1970, para fazerem “marchas da fome” de 40 quilômetros e levantar dinheiro e atenção para programas de combate à fome nos EUA e no exterior. Por incrível que pareça, a seção em que trabalhava o então jovem ombudsman levantou US$ 20 mil em dois anos – o que naquele tempo era muito. Era um grupo de jovens ativistas, embora achassem que faziam um trabalho de caridade. Algumas das autoridades que encontravam em suas marchas – diretores de colégios, políticos ou policiais – os consideravam um grupo de protesto de esquerdistas. O grupo falou com McGovern sobre isso quando o encontrou na conferência. Ele deu uma risada e contou algumas histórias de guerra e de política cuja moral era manter a coragem de suas convicções, cabeça para cima e um bom argumento, serem respeitosos e, mais tarde, a sós, rir das objeções idiotas que recebiam. Ele os incentivou com sua determinação, calor humano e senso de humor.

Muita resistência e oposição

Depois da segunda marcha da fome, na primavera de 1972, muitos dos jovens prosseguiram diretamente para a eleição primária de McGovern para a presidência. Encontraram muitos eleitores que surpreendentemente receptivos à campanha, já que a Califórnia do Sul era “terra de Nixon”. Também tiveram portas batidas na cara e a intimidação por parte das pessoas que Nixon chamava a maioria silenciosa. Não pareciam assim tão silenciosos; só malcriados.

O segundo encontro que o ombudsman teve com NcGovern foi dias antes da primária da Califórnia, após uma manifestação organizada próximo ao Vale de San Gabriel. A manifestação era muito maior do que o esperado. McGovern crescia e o entusiasmo era grande, mas o candidato, como sempre, chegou duas horas e meia atrasado. Mas a multidão ficou até ele aparecer. Depois da manifestação, McGovern encontrou-se com alguns voluntários. Passava da meia-noite e ele estava cansado, mas em nada mudara do homem que o ombudsman conhecera um ano antes. Tinha uma palavra generosa e de inspiração para todo mundo. O ombudsman fez 18 anos depois da eleição de novembro e nunca teve a oportunidade de votar nele.

Foi sua experiência como voluntário de uma campanha de caridade que, em última instância, fez o ombudsman voltar-se para o jornalismo. Queria contar as histórias daqueles garotos e escrever sobre como é a política e como são os políticos – os bons e os ruins. Os jornalistas, como os ativistas e os políticos, encontram muita gente em seu trabalho – e também encontram muita resistência e oposição. Pessoas sempre dizendo não, você não pode ter essa informação. Pessoas que mentem na sua cara e que estão sempre prontas a denunciar a mídia como causa de todos os males da sociedade. Quando isso acontece, o ombudsman lembra-se dos conselhos e da força serena de George McGovern. E sente saudade. McGovern morreu aos 90 anos na semana passada.

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