Domingo, 20 de Maio de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº987
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VOZ DOS OUVIDORES > THE NEW YORK TIMES

Uma opinião a considerar antes de votar

30/10/2012 na edição 718
Sobre artigo de Margaret Sullivan, de Nova York (EUA); tradução de Jô Amado

Quando a editora-executiva Jill Abramson respondeu a perguntas de leitores este mês no site doNew York Times, ela deu uma resposta inequívoca sobre editoriais. “Como editora-executiva, não me envolvo com editoriais. Eu os leio do mesmo jeito que os leem nossos leitores.”

A declaração não surpreende quem conheça o trabalho interno do NYTimes e da maioria dos grandes jornais, onde uma parede sólida e bem guardada separa a sala de cobertura de notícias e a de editoriais. Mas é um conceito complicado para os leitores absorverem ou aceitarem por completo. A experiência da ombudsman Margaret Sullivan indica que muitos leitores não diferenciam – apreendem o jornal como um todo. E dá para compreender o motivo, principalmente na edição online, na qual os costumeiros indicadores de localização e rótulos são muitos menos óbvios do que na edição impressa, comenta, em sua coluna de domingo [28/10/12].

Considerando que a coluna da ombudsman sai no mesmo dia da eleição presidencial, vale a pena explorar essa separação e as dificuldades de comunicá-la aos leitores. E também vale a pena perguntar se os textos são profundos e interessantes. A ombudsman conversou com o editor da página de editoriais, Andrew Rosenthal, sobre a percepção que os leitores teriam sobre a “parede” entre as salas de editoriais e de notícias. “É difícil para os leitores compreenderem, principalmente porque alguns jornais não fazem essa distinção de forma tão nítida quanto aquela que fazemos”, disse ele, que concordou que a era digital contribuiu para tornar as coisas menos claras: “Na internet, tudo está em todo lado.”

“Omais imparcial possível”

Há uma outra dificuldade importante: a crescente quantidade de textos opinativos na seção de notícias – seja na forma de colunas, ou de textos de análise ou mesmo na atitude com que se escreve. Para ser claro, funciona da seguinte maneira: os editoriais, os textos de opinião não assinados que saem no verso da primeira seção do jornal diário e na revista de domingo são produzidos pelos 17 membros que compõem a equipe de editorialistas.Refletem as opiniões da editoria, que é chefiada por Rosenthal, e do diretor do jornal, Arthur O. Sulzberger Jr.

Com algo tão importante quanto a aprovação de um candidato à presidência, o diretor do jornal “acompanha com interesse pormenorizado” o trabalho editorial, disse Rosenthal, e os editoriais são produzidos após meses de estudo das questões abordadas – às vezes, entrevistando um candidato político pessoalmente e conseguindo um consenso na discussão. Ao final desta temporada política, o NYTimes terá divulgado a aprovação de candidatos ao Senado pelos estados de Nova York e Connecticut, assim como a de cinco candidaturas ao Congresso e algumas cadeiras a senador estadual.

Tudo isso é mantido absolutamente separado dos artigos de notícias do resto do NYTimes, seção na qual os repórteres respondem, de forma direta ou indireta, a Jill Abramson. (Quando a ombudsman era editora do jornal The Buffalo News, o editor responsável pelos editoriais respondia diretamente a ela, como ocorre em alguns jornais.) “Jill e eu não conversamos sobre editoriais”, disse Rosenthal. “Se isso acontece, acidentalmente, saímos do assunto o mais rapidamente possível.” E isso, explicou, porque “ela tem que ser o mais imparcial possível” em relação à cobertura feita por sua equipe.

Apoios têm valor e servem a um objetivo

Uma questão mais abrangente é: por que o NYTimes, e os jornais, de uma maneira geral, continuam a dar apoio político a um candidato? Não seria uma prática antiquada que – ao expressar sua preferência – causa mais desconfiança entre um público que muitas vezes acha que o seu jornal é parcial? E, a propósito, o apoio tem alguma importância?

Greg Mitchell,que escreve um blog diário sobre mídia e política para o jornal The Nation, acha que sim. Há muitos anos ele vem monitorando esses apoios. “As pessoas zombam da ideia de que os apoios dados pelos jornais, principalmente para a presidência, tenham alguma influência hoje em dia, mas eu discordo”, disse Mitchell. “Influenciam, sim, embora seja difícil prová-lo.” Ele também diz que observar os apoios permite-lhe avaliar como irá ocorrer a eleição presidencial. No momento, dizem que “é uma eleição apertada”.

Tom Rosenstiel, diretor do Projeto para a Excelência em Jornalismo para uma organização de pesquisa em Washington, acha que, de certa forma, os editoriais de apoio dos jornais podem ser mais importantes do que nunca – não devido a quem apoiam, mas às justificativas. “Os argumentos nos editoriais proporcionam um fazer-sentido útil, pois a audiência procura desvencilhar-se de tudo o que já ouviu”, disse. “Um processo colaborativo de tomada de decisões, racionalizado e baseado em fatos verificados no monitoramento dos candidatos por um longo período de tempo – isso é muito diferente dos comentários que ouvimos e que são pessoais ou uma coleção de impressões.” E Rosenstiel acrescenta: “A oferta de informação é super excedente, mas fazê-la com sentido não é.” Os cidadãos têm três deveres, disse ele: pagar impostos, responder como jurados e votar. “Votar é escolher”, disse ele. Os editoriais dos jornais falam diretamente dessa obrigação e privilégio.

Os leitores podem queixar-se e até mesmo protestar contra apoios editoriais. Podem chamar o jornal de parcial por causa deles. Mas por mais difíceis que sejam esses apoios, problemáticos e propensos a equívocos, continuam tendo valor e servem a um objetivo importante.

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