Terça-feira, 20 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº974

VOZ DOS OUVIDORES > THE NEW YORK TIMES

  Uma cadeira vazia no tribunal

11/12/2012 na edição 724
  Sobre artigo de Margaret Sullivan, de Nova York (EUA); tradução de Jô Amado

O advogado David Coombs raramente fala em público fora do tribunal. Ele diz que é isso que seu cliente, Bradley Manning, o soldado do exército acusado de vazar documentos secretos para o WikiLeaks, prefere. Mas na segunda-feira (3/12) à noite, na igreja Unitarian, em Washington, Coombs abriu uma exceção. Falou para uma multidão de simpatizantes de Manning, agradecendo aos que estavam presentes assim como a um grupo mais abrangente: as 14 mil pessoas que contribuíram para o fundo de defesa do soldado Manning, inclusive Daniel Ellsberg, o homem que revelou os papéis do Pentágono e que chamou o soldado de herói. Acusado de ter tornado públicos centenas de milhares de documentos secretos, muitos deles relacionados às guerras no Iraque e no Afeganistão, o soldado Manning enfrenta a possibilidade de prisão perpétua.

O evento fez parte de uns poucos dias fascinantes sobre a história de Manning – ecoando com implicações na liberdade de expressão, segurança nacional e guerras dos militares americanos – mas o leitor do New York Times não teria sabido muito sobre isso se sua única fonte de informação fosse o jornalão. O diário não fez a cobertura do discurso de Coombs e, o que é muito mais importante, não mandou um repórter para acompanhar os oito dias de uma audiência anterior ao julgamento, inclusive um depoimento cativante do soldado Manning. Em termos de noticiabilidade, dar tão pouca cobertura à audiência é simplesmente esquisito. Trata-se de uma matéria irresistível – e importante.

Há o lado do drama humano – um jovem soldado, acusado de transferir segredos de Estado para o WikiLeaks, brutalmente encarcerado desde a primavera de 2010, que fala em público sobre seu caso pela primeira vez desde que foi preso – e vai direto às questões controvertidas em que o New York Times desempenhou um papel importante, publicando grande parte das informações reveladas pelo ato do soldado Manning.

Duas situações com alguma relação

Por que os leitores do tiveram que procurar Ed Pilkington, do The Guardian, ou qualquer outro dos repórteres enviados por um grande número de organizações jornalísticas, para ouvir o soldado Manning falar do inferno pelo qual passou – como ficar nu, em pé, amarrado com correntes, na brigada de “segurança máxima” em Quantico, Virgínia, implorando aos seus carcereiros por uma coisa tão simples quanto um pedaço de papel higiênico ou, antes, numa “gaiola” no Kuwait?

A ausência do jornal foi percebida e criticada por muitos observadores de mídia. Para além da matéria em si, o NYTimes tinha a obrigação de ter estado lá – para servir como prova – porque, num sentido muito real, o soldado Manning foi uma das mais importantes fontes do jornal da última década. “O New York Times tem material surpreendente, fantástico, incomparável, para matérias sobre Bradley Manning”, disse Ellsberg à repórter Eliza Gray, da revista The New Republic.

A seu favor, o NYTimes publicou artigo após artigo, baseado na informação que o soldado Manning fornecera à WikiLeaks, assim como publicara os Papéis do Pentágono que Ellsberg vazara durante a Guerra do Vietnã. As situações não são iguais. O soldado Manning pode não ter a mesma motivação inequívoca que tinha Ellsberg, enquanto militante pacifista, e há quem o descreva como um traidor aos seus juramentos militares mentalmente instável. Mas nem por isso as duas situações deixam de ter alguma relação, principalmente devido ao papel do NYTimes como principal divulgador da informação vazada em ambos os casos.

Uma decisão difícil de compreender

Na quarta-feira passada (5/12), perplexa pela falta de cobertura do NYTimes (que publicara apenas um artigo de 11 parágrafo da Associated Press), a ombudsman do jornal perguntou aos editores por que nenhum repórter do NYTimes fora enviado à audiência, em Fort Meade. Dean Basquet, editor administrativo, pediu à ombudsman que procurasse David Leonhardt, diretor da filial de Washington, que respondeu por e-mail. Leonhardt explicou que o NYTimes já cobrira os aspectos mais importantes do depoimento, como o tratamento de Manning em prisão incomunicável – referindo-se a dois artigos publicados há 19 meses. “Demos cobertura e o continuaremos fazendo”, escreveu Leonhardt. “Porém, assim como em qualquer outro caso legal, não cobriremos todos os trâmites do processo. Neste caso, isso envolveria vários dias do tempo de um repórter para uma matéria relativamente simples.” O artigo da Associated Press, disse ele, “forneceu fundamentalmente o mesmo material que uma matéria levantada por um repórter teria feito.” E acrescentou: “Os leitores poderão esperar mais cobertura de Manning, com certeza, nas próximas semanas.”

A ombudsman ficou satisfeita de saber que, embora atrasado, o NYTimes tivesse resolvido entrar no jogo, com um repórter no tribunal para o nono dia da audiência e um artigo na primeira página de sábado atualizando as informações. Às vezes, o jornal releva a importância de acontecimentos públicos, acreditando prioritariamente no seu jornalismo empresarial. Um exemplo disso foi a cobertura das audiências do Congresso sobre o ataque ao consulado na Líbia, que o NYTimes preferiu não dar na primeira página – decisão da qual a ombudsman discordou – e publicou em outubro. Essas decisões parecem dizer: “É notícia quando nós dizemos que é notícia.”

Às vezes, faz sentido priorizar uma reportagem exclusiva em relação a um evento público. Mas as duas coisas não são mutuamente exclusivas. Se tivesse havido vontade de cobrir o depoimento do soldado Manning, um repórter poderia ter sido encontrado. Mais ainda: a decisão de não mandar um repórter à audiência também continha um interessante pré-cálculo: o de que uma cobertura antecipada não seria considerada notícia de primeira página. Afinal, o NYTimes não usa artigos de agência em sua primeira página, exceto em circunstâncias altamente incomuns envolvendo notícias inesperadas, de última hora.

Talvez, como Leonhardt sugeriu, a filial de Washington esteja preparando algo melhor. Os repórteres do NYTimes de Washington fazem um tipo de reportagem investigativa fantástico. A ombudsman espera por uma boa surpresa a caminho. Poderia começar a fazer algum sentido para uma decisão difícil de compreender.

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem