Terça-feira, 16 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1008
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VOZ DOS OUVIDORES >

José Queirós

18/12/2012 na edição 725

“Recebi da lei­tora Bár­bara Salta, que se apre­senta como espe­ci­al­mente inte­res­sada, ‘por moti­vos de índole aca­dé­mica’, em ‘assun­tos mili­ta­res e de geo­po­lí­tica’, uma recla­ma­ção invul­gar. A lei­tora con­si­dera que um extenso artigo publi­cado neste jor­nal no pas­sado dia 18 de Novem­bro — ‘A guerra dos dro­nes parece um jogo, mas é mais suja do que se pensa’, da auto­ria do jor­na­lista Ale­xan­dre Mar­tins — não passa de ‘uma dupli­ca­ção, algo absurda’, de uma outra peça, igual­mente dada à estampa no PÚBLICO (no extinto caderno P2). Esse texto ante­rior, inti­tu­lado sim­ples­mente ‘A guerra dos dro­nes’, foi assi­nado, a 15 de Feve­reiro deste ano, por Gus­tavo Sam­paio, que, segundo infor­ma­ção da direc­ção edi­to­rial, se encon­trava então na redac­ção como estagiário.

A essa ale­gada dupli­ca­ção chama Bár­bara Salta ‘um logro’. ‘Enquanto lei­tora assí­dua de jor­nais e revis­tas’, escreve, ‘já tinha uma noção do efeito de ‘cani­ba­li­za­ção’ entre dife­ren­tes órgãos de comu­ni­ca­ção social (jor­nais de maior tira­gem que pegam em notí­cias de jor­nais de menor tira­gem e os repu­bli­cam, ligei­ra­mente alte­ra­dos, como se fos­sem iné­di­tos e da sua auto­ria; ou o exem­plo mais recor­rente das esta­ções de tele­vi­são que pegam em notí­cias dos jor­nais, acrescentam-lhes algu­mas fil­ma­gens e as apre­sen­tam como se fos­sem suas, sem citar a fonte ori­gi­nal), mas nunca me tinha aper­ce­bido de que tam­bém já se faz ‘cani­ba­li­za­ção’ entre cole­gas de tra­ba­lho do mesmo órgão de comu­ni­ca­ção social’.

Em defesa da sua tese, a lei­tora con­si­dera ‘lamen­tá­vel’ que ‘o jor­na­lista Ale­xan­dre Mar­tins, abor­dando o mesmo tema, não con­siga acres­cen­tar nada de novo, nada de iné­dito, nada de ori­gi­nal, des­ta­cando no seu texto, logo no pri­meiro pará­grafo, a mes­mís­sima con­fe­rên­cia pro­fe­rida por P.W. Sin­ger [cien­tista polí­tico norte-americano] que já tinha sido refe­rida e expla­nada no artigo de Feve­reiro de 2012, em cer­tos momen­tos copi­ando inte­gral­mente fra­ses do outro artigo (e tra­du­ções livres rea­li­za­das pelo outro jor­na­lista), apre­sen­tando os mes­mos dados esta­tís­ti­cos, repli­cando as mes­mas ideias, uti­li­zando os mes­mos ter­mos’. Con­clui que a publi­ca­ção do seu texto se encon­tra ‘no limiar do plágio’.

É uma acu­sa­ção grave e, na minha opi­nião, errada e injusta. Errada no plano dos fac­tos, injusta no que se refere aos valo­res pro­fis­si­o­nais e éticos que estão em causa. Pode natu­ral­mente compreender-se que uma lei­tora que afirma ser uma estu­di­osa do tema tra­tado nos dois arti­gos que refere sinta que o texto mais recente não lhe trouxe ‘nada de novo’ (o que pode­ria ter acon­te­cido já com o pri­meiro). Con­tudo, nem essa con­clu­são poderá ser gene­ra­li­zada ao con­junto dos lei­to­res, nem este caso par­ti­cu­lar é dife­rente do de mui­tos outros arti­gos jor­na­lís­ti­cos que divul­gam com alguma pro­fun­di­dade infor­ma­ções que pode­rão não tra­zer ‘nada de novo’ a quem pos­sua um conhe­ci­mento espe­ci­a­li­zado da temá­tica abor­dada. Garan­tir essa divul­ga­ção a uma audi­ên­cia mais vasta, por razões de actu­a­li­dade e inte­resse geral, é mesmo uma das mis­sões fun­da­men­tais do bom jor­na­lismo, e é pelo rigor e qua­li­dade com que o faça que deve ser avaliado.

Reli com aten­ção os dois arti­gos que deram ori­gem à crí­tica desta lei­tora, e o mesmo poderá fazer qual­quer pes­soa inte­res­sada, con­sul­tando os arqui­vos do PÚBLICO. Con­cluí que se trata, em ambos os casos, de peças jor­na­lís­ti­cas de boa qua­li­dade, escla­re­ce­do­ras, bem docu­men­ta­das e bem redi­gi­das. Têm em comum muita infor­ma­ção de con­texto, como seria de espe­rar, já que abor­dam a mesma rea­li­dade: a cres­cente uti­li­za­ção pelas for­ças norte-americanas de aero­na­ves não tri­pu­la­das (os dro­nes) como ins­tru­men­tos de ata­que mili­tar, nome­a­da­mente com vista ao assas­sí­nio selec­tivo (mas geral­mente acom­pa­nhado de bai­xas civis) de com­ba­ten­tes tali­ban e da Al-Qaeda nas zonas tri­bais do Paquis­tão, bem como o intenso debate polí­tico e ético que este tipo de guerra robó­tica tem gerado.

Os jor­nais regres­sam aos temas em fun­ção de cri­té­rios de actu­a­li­dade, e se os ele­men­tos de con­tex­tu­a­li­za­ção estão cor­rec­tos, podem e devem ser repe­ti­dos e actu­a­li­za­dos, como acon­te­ceu neste caso, sem que isso sig­ni­fi­que qual­quer apro­pri­a­ção inde­vida de tra­ba­lho alheio: uma redac­ção é uma equipa, e a sua memó­ria um bem colectivo.

Na ver­dade, como resulta da sua lei­tura, as duas peças sobre os dro­nes, sepa­ra­das entre si por uma dis­tân­cia tem­po­ral con­si­de­rá­vel, par­tem de moti­vos dife­ren­tes de opor­tu­ni­dade edi­to­rial e assu­mem ângu­los de abor­da­gem igual­mente dis­tin­tos. Enquanto o artigo de Gus­tavo Sam­paio apro­funda e com­pleta notí­cias dos dias ante­ri­o­res sobre ope­ra­ções de ata­que por con­trolo remoto, que visa­ram um campo de treino isla­mista e a eli­mi­na­ção de um chefe ope­ra­ci­o­nal da Al-Qaeda, e des­creve prin­ci­pal­mente a evo­lu­ção tec­no­ló­gica deste tipo de armas e as suas impli­ca­ções mili­ta­res e polí­ti­cas, o texto de Ale­xan­dre Mar­tins tem por pano de fundo o avo­lu­mar da polé­mica, nos Esta­dos Uni­dos mas tam­bém na Europa, sobre a efi­cá­cia e a legi­ti­mi­dade do uso des­tas armas, e coloca a ênfase no debate sobre o número de víti­mas civis que tem pro­vo­cado, cres­cen­te­mente escru­ti­nado por orga­ni­za­ções inde­pen­den­tes, e nas pri­mei­ras ini­ci­a­ti­vas para ten­tar abrir cami­nho à proi­bi­ção da uti­li­za­ção letal des­ses apa­re­lhos por paí­ses da União Euro­peia — dili­gên­cias em que se envol­ve­ram, entre outros, dois euro­de­pu­ta­dos por­tu­gue­ses (Rui Tava­res e Ana Gomes).

Além de igno­rar estas dife­ren­ças, a lei­tora precipitou-se ao recor­rer, na sua recla­ma­ção, a argu­men­tos que não resis­tem à prova dos fac­tos. Não é ver­dade que no artigo de Novem­bro se ‘[copiem] inte­gral­mente fra­ses’ cons­tan­tes do texto de Feve­reiro, ou se ‘[apre­sen­tem] os mes­mos dados esta­tís­ti­cos’. Acresce que, no essen­cial, são dife­ren­tes as fon­tes con­sul­ta­das e cita­das. A única coin­ci­dên­cia tex­tual, salvo ligei­ras dife­ren­ças de tra­du­ção, encontra-se numa cita­ção de Peter Sin­ger (melhor, de um dos mili­ta­res por ele ouvi­dos para uma inves­ti­ga­ção sobre a expe­ri­ên­cia dos ope­ra­do­res dos dro­nes), e compreende-se que assim seja: trata-se de uma des­cri­ção par­ti­cu­lar­mente impres­siva deste tipo de guerra vir­tual (vir­tual para os ata­can­tes, natu­ral­mente), que tem sido repro­du­zida um pouco por todo o lado em arti­gos sobre este tema.

Falando numa con­fe­rên­cia, há três anos, o cien­tista norte-americano (não con­fun­dir com o filó­sofo aus­tra­li­ano do mesmo nome), citou a seguinte decla­ra­ção de um mili­tar que pilo­tou dro­nes sobre ter­ri­tó­rio do Ira­que a par­tir do seu ‘cubí­culo’ numa base situ­ada no Nevada: ‘Esta­mos na guerra durante 12 horas. Dis­pa­ra­mos armas con­tra alvos, damos ins­tru­ções para matar com­ba­ten­tes ini­mi­gos. Depois entra­mos no carro e vamos para casa. Vinte minu­tos depois, esta­mos sen­ta­dos à mesa do jan­tar, a falar com os filhos sobre os tra­ba­lhos de casa deles’.

A este res­peito, o jor­na­lista Ale­xan­dre Mar­tins — que me fez che­gar uma expli­ca­ção clara e con­sis­tente em res­posta às crí­ti­cas da lei­tora — con­si­dera que ‘deve­ria ter feito refe­rên­cia’ no seu artigo ao texto de Gus­tavo Sam­paio, por ter sido atra­vés dele que tomou conhe­ci­mento, pela pri­meira vez, da refe­rida con­fe­rên­cia de Peter Sin­ger, que no entanto con­sul­tou depois na ínte­gra. ‘Teria sido mais trans­pa­rente’, escreve, e eu só posso lou­var o escrúpulo.

Quanto ao resto, não vis­lum­bro qual­quer ‘dupli­ca­ção’ ou som­bra de plá­gio no seu tra­ba­lho. Numa nota que me enviou a res­peito deste caso, o direc­tor adjunto do PÚBLICO Miguel Gas­par subli­nha que entre os dois tex­tos ‘há alguns ele­men­tos de back­ground que são comuns, mas cujo uso é jus­ti­fi­cado, uma vez que sem eles o lei­tor não teria o enqua­dra­mento neces­sá­rio do fenó­meno’. Esse enqua­dra­mento, acres­centa, e eu subs­crevo, ‘é mui­tas vezes subes­ti­mado pelos jor­na­lis­tas, e a repe­ti­ção de elementos-chave em dife­ren­tes tex­tos, com essa fina­li­dade, ajuda o leitor’.

Bár­bara Salta des­creve com razão alguns exem­plos do que chama ‘cani­ba­li­za­ção’ jor­na­lís­tica entre dife­ren­tes órgãos de comu­ni­ca­ção social. O con­ceito, porém, não se aplica ao tra­ba­lho do PÚBLICO sobre osdro­nes. A acu­sa­ção de plá­gio, já o escrevi, é das mais gra­ves que se podem fazer a um jor­na­lista, e não deve ser bana­li­zada. A suges­tão de que um texto se encon­tra ‘no limiar do plá­gio’ quando o que está em causa é a repe­ti­ção útil e nem sequer lite­ral de ele­men­tos de con­tex­tu­a­li­za­ção, actu­a­li­za­dos quando neces­sá­rio, não tem fun­da­mento. Con­funde com um vício o que deve ser visto como uma vir­tude jornalística.”

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