Terça-feira, 13 de Novembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1013
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VOZ DOS OUVIDORES >

Suzana Singer

18/12/2012 na edição 725

“Bernardo, 3, se afogou em uma aula de natação. Luiz, 4, ficou paraplégico em um acidente de carro porque não estava na cadeirinha. Os gêmeos Pedro e Lucas, de um ano e meio, morreram na piscina de casa.

As tragédias acima, publicadas com grande destaque na Folha nas últimas duas semanas, parecem uma série de terror para pais de crianças pequenas, seres já naturalmente assustados.

Os relatos dos dramas foram acompanhados por números fortes como ‘seis crianças morrem em piscinas por mês’ ou ‘só 57% usam o equipamento de segurança para transportar menores’. Faltava apenas um aviso piscando: ‘Cuidado! Pode acontecer com você’.

Reportagens que servem de alerta raramente são criticadas, porque são consideradas de ‘utilidade pública’, são lembretes sobre os cuidados que devem ser tomados no cotidiano (‘Faça cerca ao redor da piscina’, ‘Use a cadeirinha mesmo se for até a esquina’, ‘Não deixe crianças desassistidas na água’).

O problema é que esse noticiário, que hipervaloriza o improvável, provoca o desagradável efeito colateral de disseminar o pânico.

É possível diminuir essa sensação dando a cada ocorrência sua devida dimensão. No Brasil, houve 76 mortes de crianças por afogamento em piscina em 2010 (último dado disponível). Só para comparar: por sufocamento provocado pelo próprio vômito, houve praticamente o triplo de mortes (226).

Considerando o número total de crianças de até 14 anos, o risco de um afogamento em piscina acontecer é de 0,00016% -ou menos de 2 em 1 milhão, segundo cálculo feito por Marcelo Soares, do blog ‘Afinal de Contas’.

Não significa que essas histórias devam ser menosprezadas, já que a meta deveria ser que nenhuma criança morresse em um ambiente controlado como uma piscina -ou que sofresse sequelas evitáveis de um acidente de trânsito.

Mas o jornal poderia publicar dados que relativizassem os riscos, uma espécie de ‘botão antipânico’. Reynaldo Gianecchini, jovem e atlético, recebeu um diagnóstico de linfoma não Hodgkin? O jornal conta a sua saga, mas informa que a incidência desse tipo de câncer é de 1 em cada 10 mil homens na faixa etária do ator (de 35 a 39 anos).

Uma garota foi morta com um tiro na nuca em Higienópolis? Tem que noticiar, mas não custa citar a incidência de assassinatos por morador no bairro.

Um franco atirador abriu fogo em uma escola primária nos EUA? Aconteceu anteontem, foi terrível, mas não será por isso que as crianças americanas estarão mais seguras em casa ou na rua.

No livro ‘Risco: a Ciência e a Política do Medo’ (Odisséia Editorial, R$ 39,90), o jornalista canadense Dan Gardner calculava que a probabilidade de um estudante americano ser assassinado na escola era de menos de 1 em 1,5 milhão, um risco ‘quase zero’.

Ele alerta para as consequências de um noticiário exagerado dessas tragédias. A sensação de que as escolas viviam em estado de guerra, especialmente depois do massacre de Columbine (1999), levou muitas instituições de ensino a gastar mais com segurança (detectores de metais, câmeras e guardas), em vez de, por exemplo, investir em livros ou na reforma de prédios.

‘É um círculo vicioso. A mídia reflete o medo da sociedade, mas, ao fazer isso, ela gera mais medo, e isso se reflete de volta na sociedade’, escreve Gardner.

Contrapondo alguns números às emoções das tragédias, o jornal poderia amenizar o efeito das más notícias na ansiedade coletiva.

***

Na contramão do medo, a Folha ajudou, na terça-feira passada, a incutir esperanças indevidamente em pais de crianças doentes. O título principal de ‘Saúde’ anunciava que ‘Leucemia tem nova opção de tratamento’. Abaixo, uma foto bonita de uma menina de sete anos curada nos EUA.

A reportagem, traduzida do ‘New York Times’, mostrava corretamente que se trata de uma terapia que começa a ser testada em humanos. Apenas 12 pacientes, em estágios avançados da doença, foram submetidos à nova técnica que usa um retrovírus desativado.

‘Ainda não é uma opção de tratamento. É um estudo em fase 1, experimental’, explica o oncologista pediátrico Antonio Sérgio Petrilli, do Graacc. Ele diz que pacientes o procuraram para perguntar sobre o tratamento depois de ver a notícia.”

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