Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Suzana Singer

06/08/2013 na edição 758
“Na trilha do cartel”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 4/8/2013

“Há duas semanas, a Folha vem sendo sendo alvo de uma ‘guerrilha verbal’ na internet, para usar uma expressão que o jornal cunhou no editorial ‘Mitos das redes sociais’, do domingo passado.

O objetivo dos ‘guerrilheiros cibernéticos’ é levar a Folha a publicar denúncias sobre o envolvimento de políticos tucanos no cartel formado em licitações de trem e metrô de São Paulo.

As armas dessa guerrilha são a divulgação de reportagens da ‘IstoÉ’, posts em blogs governistas e correntes no Facebook acusando o jornal de ‘blindar o PSDB’.

Para saber se a causa dessa militância é justa, é preciso separar opinião e fato. Foi a Folha quem primeiro divulgou que a multinacional Siemens fechou um acordo com as autoridades antitruste brasileiras para delatar a existência do cartel, do qual ela própria fazia parte.

Em 14 de julho, o assunto ocupou a manchete. A reportagem informava que o cartel funcionou em ao menos seis licitações, mas alertava que ‘não se sabe ao certo o tamanho real, o alcance, o período em que atuou e o prejuízo causado’.

Dez dias depois, a ‘IstoÉ’ estampou ‘O propinoduto do tucanato paulista’, com uma reportagem que retomava o depoimento, de 2008, de um ex-funcionário da Siemens. O denunciante, anônimo, tinha planilhas que comprovariam a formação de cartel e o repasse de dinheiro para offshores de lobistas.

Embora a revista tenha rasgado duas fotos de Geraldo Alckmin e José Serra, o texto não trazia evidência de envolvimento dos governadores nem de pagamento de propina. Havia apenas o ex-funcionário falando de subornos a políticos, ‘na maioria tucanos’, e a diretores da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Esse mesmo depoimento tinha sido publicado em 2009 pela ‘CartaCapital’, mas, na época, não teve maior repercussão.

Segundo a Secretaria de Redação, a Folha não recuperou a informação publicada pela revista porque o denunciante se recusou a falar sobre o caso para o jornal.

No final da semana passada, a ‘IstoÉ’ voltou à carga, desta vez tentando quantificar o tamanho do prejuízo causado pelo superfaturamento de trens e metrô. A fonte eram ‘pessoas ligadas à investigação’, que corre no Ministério Público de São Paulo e no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica). A conclusão era que os cofres paulistas perderam R$ 425 milhões.

A Folha ‘respondeu’ com uma reportagem em que afirmava que o ‘cálculo do que foi superavaliado depende de levantamento de contratos assinados pela CPTM e pelo Metrô’, o que ainda não foi feito.

O jornal, acertadamente, evitou repercutir o que não era apuração própria, mas cometeu um erro: as duas reportagens publicadas até então não mencionavam que partido estava no governo quando o cartel atuava.

O quadro publicado junto aos textos listava várias licitações sob suspeita sem mencionar que elas ocorreram em gestões tucanas -entre a ‘prática criminosa que trafegou sem restrições pelas administrações Covas, Serra e Alckmin’ (‘IstoÉ’) e a assepsia do noticiário da Folha, era possível deixar o noticiário mais informativo e equilibrado.

‘Folha noticia caso do superfaturamento do Metrô de SP (…) e não cita o nome de ninguém do governo tucano. Nunca vi nada igual!! Rabo preso com o PSDB??’, tuitou, na segunda-feira, o deputado federal Ricardo Berzoini (PT-SP). O blog ‘Tijolaço’ lançou outra frase de efeito para ser repassada pelos ‘guerrilheiros’: a Folha inventou a corrupção sem corruptor.

A manchete de anteontem -’Governo paulista deu aval a cartel do metrô, diz Siemens’- silenciou boa parte dos críticos. Pela primeira vez, o nome de um tucano (Mário Covas) apareceu em destaque no jornal.

A reportagem, baseada em documento apresentado pela Siemens ao Cade, dizia que o governo de São Paulo é acusado de ter dado aval para a formação do cartel e que esse conluio teria perdurado durante as administrações Alckmin e Serra.

Foi dado espaço ao ‘outro lado’ e tomou-se o cuidado de não partir para conclusões precipitadas, como fez a ‘guerrilha cibernética’, interessada em divulgar, com estridência, acusações não fundamentadas.

Como lembrou o colunista Elio Gaspari, o fato de uma empresa do tamanho da Siemens estar disposta a colaborar cria uma oportunidade ímpar de ‘expor o metabolismo das roubalheiras nacionais’.

O jornal não pode perder essa chance. Só que sem timidez nem açodamento.”

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