Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > ‘O POVO’

Erivaldo Carvalho

20/08/2013 na edição 760
“Jornalismo e fé”, copyright O Povo, Fortaleza (CE), 18/8/2013

“Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero’ Pierre Beaumarchais, teatrólogo francês

Quinta-feira, 15 de agosto de 2013. No feriado de Nossa Senhora da Assunção, padroeira de Fortaleza, parte da cidade viveu sua tradicional Caminhada com Maria. O evento recebeu grande cobertura dos veículos locais de imprensa. No O POVO, o sucesso foi garantido já na terça-feira, antevéspera. Em chamada de capa e título interno, o jornal profetizava que ‘dois milhões’ de fiéis participariam da procissão. No dia seguinte aos festejos, sexta-feira, o número de peregrinos foi mantido. Todas as vezes, atribuiu-se, genericamente, a quantidade de pessoas aos ‘organizadores do evento’. Questionei, no relatório interno, a fragilidade da informação que repassamos ao leitor. Com todo o respeito aos seguidores da fé, quem atua na área litúrgica mal consegue dizer quantas almas cabem em uma igreja. Então, como os ‘organizadores’ teriam condições de estimar essa participação popular em uma escala gigantesca, envolvendo mais de 12 km de extensão, que se desenrola durante várias horas do dia? Eles não dispõem de instrumentos nem técnicas confiáveis de projeção populacional em espaços públicos. Não é algo fácil nem para amadores. Em alguns estados, apenas a Polícia Militar acumula a expertise – e mesmo assim não é um ponto pacífico. O jornal sabe disso.

Síndrome de São Tomé

A explicação mais sólida que encontrei para os ‘dois milhões’, também publicada pelo jornal, foi a recente visita do papa Francisco ao Rio de Janeiro, que teria provocado uma repentina onda de filhos pródigos. Pode ser que sim. Mas pode ser que não. Não há elementos mínimos que sustente ou desbanque a hipótese. Ficou vago. Jornalismo não funciona assim, na base da inspiração divina. Não dá para assinarmos embaixo, acriticamente, de uma declaração que anuncia o milagre da multiplicação, sob pena de estarmos cometendo um pecado jornalístico. Ainda no mesmo campo semântico: temos de ser, assim no céu com na terra, seguidores de São Tomé. E aqui não vai crítica a algum tipo de simpatia que por ventura o jornal possa ter pelo credo católico nem o fato de termos um feriado em ‘dia santo’. Sem medo de blasfemar, só esses dois aspectos já renderiam pelo menos outras duas colunas.

Não podemos deixar de perceber, por exemplo, que estimativas de público, de preferência referendadas pela imprensa, estão no cerne de qualquer aglomeração com um objetivo muito claro: o sucesso do empreendimento. O critério é válido para a partida de futebol e para o comício político; para o Queremos Deus e a Parada Gay; o Fortal e as manifestações de rua. Coberturas como essas são, potencialmente, problemáticas, nesse aspecto. Mas, em relação a prognósticos de público que as frequentou, todas devem ser tratadas igualmente. Credibilidade é o nosso pão de cada dia. É essa nossa via crúcis.

Reinvenção e pagamento

Não teria época pior do que essa para as empresas planejarem fechar o acesso a conteúdos jornalísticos via internet. A tese da monetarização de portais a partir de assinaturas, como muitos já fazem, é plausível, do ponto de vista da sustentação do negócio. Jornalismo de qualidade custa muito dinheiro. Em linhas gerais, a arrecadação auxiliaria a publicidade digital, algo ainda incipiente, no pagamento das contas. O problema é a encruzilhada por que passa a chamada mídia tradicional, que terá de se reinventar para se manter relevante. O modelo de coberturas, pautas e relação com o público mudou, radicalmente. As mídias sociais e o recente solavanco das ruas, que ainda ecoa nos ouvidos de muitos, só agravou o cenário. Manter e ampliar o espectro de frequentadores de sites, blogs e portais, com o modelo atual, já é desafiador. Não é fácil convencer o público da qualidade dos conteúdos, por mais que isso faça a grande diferença. Imaginem dizer que ele ainda terá de pagar por isso.

FOMOS BEM

SECA E SAÚDE

Reportagens mostraram que drama no Interior vai muito além da escassez d´água.

FOMOS MAL

DESATIVAÇÃO DO IPPS

Ficamos devendo uma reportagem de fôlego sobre o mais antigo presídio do Estado.”

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