Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Suzana Singer

24/09/2013 na edição 765
“Entre carrascos e quadrilheiros”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 22/9/2013

“Na quinta-feira de Cinzas que baixou na mídia depois que alguns condenados do mensalão ganharam o direito a mais uma defesa, a Folha destoou do bloco dos indignados.

No editorial ‘Não é pizza’, o jornal aprova o voto do ministro Celso de Mello e defende a tese de que, apesar da frustração pelo ‘processo longuíssimo’, é melhor isso que o arbítrio. ‘Seria mais simples se a Justiça se dividisse entre linchadores e comparsas, entre carrascos e quadrilheiros. Felizmente, as instituições republicanas e o Estado democrático não se resumem a tal esquema -por mais alto que seja o preço a pagar, em tempo, tolerância e paciência, em função disso.’

Ao recusar a tese de que dar mais uma chance aos réus é uma afronta à democracia, a Folha ficou praticamente sozinha. A manchete do ‘Globo’ era um lamento: ‘A Justiça tarda: STF mantém impunidade de mensaleiros até 2014’.

O ‘Agora’, jornal popular editado pela mesma empresa que a Folha, publicou uma grande foto de Mello rindo ao lado do título ‘Quadrilha do mensalão tem nova chance’. Seu principal concorrente, o ‘Diário de S. Paulo’, desejou ‘Feliz Natal, mensaleiros!’, já que as prisões devem ficar para 2014.

O ‘Correio Braziliense’ foi de ‘Aos vencedores, a pizza’. No site da ‘Veja’, ‘Mello não evoluiu: mensaleiros terão novo julgamento’.

O ‘Estado’ fez uma cobertura neutra, mas afirmou, em editorial, que, caso aceitasse os embargos infringentes, o Supremo Tribunal Federal se tornaria ‘objeto de profundo descrédito’, o que acarretaria ‘grave risco (…) de enfraquecimento institucional da democracia’.

O jornal não foi o único a lançar sobre os ombros do ministro a responsabilidade sobre o futuro da nação. ‘Eis o homem’, dizia a capa da ‘Veja’ do domingo passado, sobre uma foto de Celso de Mello e com um aviso de que ele ‘corre o risco de ser crucificado’.

Há muito não se via tamanha pressão sobre uma figura pública. Boa parte da imprensa rasgou a fantasia, deixou de lado a preocupação com a neutralidade, em nome de um objetivo maior: impedir que o julgamento continuasse, porque equivaleria a celebrar a impunidade de corruptos.

A Folha não entrou nessa dança, mas exerceu sua cota de pressão com a pesquisa sobre o julgamento, divulgada na quarta-feira, o ‘dia D’. O levantamento mostrou que, em São Paulo, só 50% sabiam que o STF decidiria sobre os embargos -19% estavam bem informados.

A análise escrita pelos diretores do Datafolha alertava para o alto grau de desconhecimento do processo entre os entrevistados, mas o jornal destacou apenas que a maioria (55%) era contra prolongar o julgamento. O número não combinava com os 79% que defenderam a prisão imediata dos réus, mostrando que a barafunda jurídica não foi bem digerida pela população.

Apenas na elite, entre os mais escolarizados, havia uma maioria clara (72%) torcendo para que Celso de Mello não desse uma nova oportunidade aos condenados.

O tal ‘clamor popular’, citado pelo próprio ministro e evocado por tantos porta-vozes da ‘opinião pública’, não existiu. Tanto que as ruas ficaram vazias, salvo o protesto de 30 entregadores de pizza no STF e o luto de cinco atrizes globais.

Por outro lado, não é correto dizer que a população acha que o julgamento foi um processo político, como argumentam os petistas. Praticamente todo o mundo acredita que o mensalão foi um caso de corrupção e não de caixa 2 (90%).

A verdade não está nem com os ‘carrascos’ nem com os ‘quadrilheiros’, como definiu o editorial da Folha, mas em algum lugar no meio do caminho, como costuma ser.

A pegadinha do Chiquinho

O playboy Chiquinho Scarpa pregou uma peça na imprensa. Nas redes sociais, avisou que enterraria seu carro predileto, um Bentley avaliado em R$ 1,5 milhão. Divulgou uma foto em que aparece ao lado de uma cova, no jardim de sua casa, com o carro ao fundo.

Os jornalistas morderam a isca. A Folha deu a notícia na quarta-feira, com Scarpa dizendo que seguia a ‘tradição dos faraós do Egito’ de enterrar ‘seu maior tesouro para esperá-lo na outra vida’.

Dezenas de jornalistas foram ao funeral automotivo. O carro começou a ser colocado no buraco até que Scarpa parou tudo e revelou que ele queria apenas promover uma campanha de doação de órgãos. Era uma forma de mostrar que algo precioso não tem valor embaixo da terra.

Além de divulgar a sua causa, Chiquinho escancarou como são frágeis os filtros da imprensa.”

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