Segunda-feira, 22 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Como lidar com a bagagem de vida dos jornalistas?

Por Margaret Sullivan em 11/02/2014 na edição 785

Independente do que possa se pensar a respeito do atual debate sobre imparcialidade no jornalismo, uma coisa é certa: ninguém começa a trabalhar como um quadro negro vazio. Os jornalistas trazem seus passados, suas crenças, talvez sua fé, suas preferências políticas e suas relações para aquilo que fazem. O jornalismo tradicional diz: “Ponha isso de lado. Seja o mais objetivo possível.” Uma maneira de pensar mais nova diz: “Seja quem você é defenda-o. Diga apenas a seus leitores de onde você vem”.

Três situações no Times em que a imparcialidade do redator foi atacada talvez mereçam ser examinadas nesse contexto. As situações são bastante diferentes, assim como as abordagens a “eis aqui de onde venho”.

A primeira delas – e meu principal assunto aqui – é uma resenha literária de Janet Maslin, uma das críticas da equipe de resenhas literárias do Times, sobre o livro The Loudest Voice in the Room, em que Gabriel Sherman examina Roger Ailes, presidente da Fox News. A resenha foi negativa, chamando o livro de “pouco sincero” e criticando suas fontes anônimas. Depois que foi publicada, Sherman me escreveu queixando-se que Janet Maslin não revelou uma amizade de longa data com alguém que ele descreve de maneira pouco favorecedora: Peter J. Boyer, atualmente editor-contribuinte da Fox News.

“Nossa preocupação não é com marido ou parentes”

A segunda situação é uma coluna, assim como o comentário feito num blog que a acompanhava, de Nicholas Kristof, colunista da seção de Opinião do Times, que aborda o caso de Dylan Farrow, filha adotiva de Woody Allen, que narra em detalhes suas lembranças de abuso sexual na infância pelo cineasta. (Allen aborda o caso em um artigo na seção de Opinião de domingo).

A seu favor, o passado de Nicholas Kristof é conhecido – é amigo de Mia Farrow há muito tempo. Mas isso bastaria? Considerando a proximidade da relação com os Farrow, a imparcialidade total talvez não fosse possível aqui, disseram alguns leitores. Em outras palavras, a revelação era absolutamente necessária, mas talvez não fosse suficiente.

E a terceira situação é a cobertura de Israel por Isabel Kershner, que tem um contrato com o Times, mas não faz parte da equipe. Ela é casada com Hirsh Goodman, cujas opiniões rigorosas sobre a política israelense são bastante conhecidas e que escreveu recentemente um texto na seção de Opinião do Times. A relação entre ambos não foi revelada naquele texto nem no contexto dos artigos dela. Alguns leitores disseram-me que não concordam com isso e, o mais importante, que a relação entre ambos os leva a questionar a capacidade de Isabel Kershner escrever imparcialmente.

O editor da seção Internacional, Joseph Kahn, discorda: “Pusemos à disposição dela regras muito claras sobre como fazer as reportagens e não temos por que suspeitar que ela tenha se afastado delas desde que o assunto foi questionado. Seu marido tem direito a ter suas opiniões e sua carreira. Nossa preocupação, enquanto redação, é com Isabel, e não com seu marido ou parentes.”

Uma opinião que merece ser avaliada

É um assunto espinhoso e já foi discutido pelas pessoas que me antecederam. É evidente que conflitos de interesse óbvios devem ser evitados – a repórter não deveria (e não o faz) encobrir seu marido. Principalmente, no entanto, a repórter deve ser avaliada por seu trabalho. A citação de uma relação conjugal em todos os textos que escreve não seria apenas incômoda, mas desnecessária. A revelação deveria ser feita quando a autora tem uma relação conflituosa com alguém ou alguma coisa sobre a qual escreve. No máximo, a situação de Isabel Kershner aumenta o trabalho dos editores, para garantir que as informações são corretas; e eles parecem ter consciência disso.

Analisemos mais profundamente a situação da resenha literária.

Janet Maslin confirmou que tem uma amizade de longa data com Boyer e disse que sabia que ele era citado no livro. (Seu papel é insignificante: é citado apenas em um capítulo e, mesmo ali, numa passagem curta.) Num e-mail, ela descreve uma prática, entre críticos literários, que me surpreendeu. “Quando temos conflitos de interesse em relação a amigos citados num livro, nunca mencionamos os amigos”, escreveu. Em vez disso, optamos por “decidir que não temos como fazer a resenha de livros”. No caso em questão, ela compreendeu que havia duas coisas a levar em consideração; sua amizade de longa data com Peter Boyer e com Peter Kaplan, ex-editor do New York Observer que Gabriel Sherman chamou de seu mentor. As referências pareciam tangenciais, segundo ela, e depois de discuti-las com seu editor ela decidiu escrever a resenha.

Gabriel Sherman disse-me que ficou “preocupado que fosse permitido a uma amiga de uma personagem do meu livro fazer a resenha sem revelar esse relacionamento aos leitores do Times”. Minha impressão foi de que Sherman ficou muito aborrecido com a resenha propriamente dita, mas sua opinião merece ser avaliada.

Esclarecimento aprofunda compreensão

Perguntei a Danielle Mattoon, editora de Cultura do Times, sobre aquela prática. “Os críticos são nossas autoridades e confio neles”, disse ela, destacando que eles têm grande autonomia. “Se fazem a resenha de um livro, isso significa que não existe conflito.” O que ela pede dos críticos é “uma resposta honesta a um livro por seu mérito” e ela confia que foi isso que ocorreu neste caso.

Em minha opinião, a prática da resenha literária no Times – tanto pelos três críticos da equipe da página de arte, quanto por freelancers no suplemento Book Review – tem uma longa história e práticas bem estabelecidas. Mas esta resenha (que, no geral, não questiono) teria merecido o benefício de uma frase de esclarecimento.

Num mundo em que, cada vez mais, “a transparência é a nova objetividade”, não deveria haver hesitação sobre esclarecimentos, quando fosse o caso. Na realidade, isso enriquece a conversa e aprofunda a compreensão do leitor.

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