Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

VOZ DOS OUVIDORES > ‘THE NEW YORK TIMES’

Os riscos e armadilhas dos vídeos online

Por Margaret Sullivan em 20/05/2014 na edição 799
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução da coluna de Margaret Sullivan [“The Promise, and Pitfalls, of Video”, The New York Times, 17/5/2014]

A primeira reação de Adam Nossiter ao já famoso vídeo das meninas nigerianas sequestradas foi no sentido de tomar cuidado. “Achei que não deveríamos dar um destaque excepcional [a ele] até que fosse completamente verificado”, disse-me pelo telefone Nossiter, chefe da sucursal do Times para a África Central e Ocidental, descrevendo como ele e um fotógrafo freelancer que faz serviços para o Times assistiram ao vídeo no início da semana, num quarto de hotel em Maiduguri.

Porém, como correspondentes veteranos sabem muito bem, o ritmo das notícias tende a não cooperar com ponderações sensatas. O vídeo já aparecera em outros lugares, seus editores pressionavam por sua divulgação e a matéria de Nossiter sobre o vídeo acabou em manchete do site do Times na segunda-feira e na primeira página da edição impressa de terça. A situação angustiante que mostrava – o sequestro de mais de 200 meninas por extremistas islâmicos – chamou a atenção de pessoas pelo mundo todo. O vídeo parecia ser a primeira prova de que pelo menos algumas das meninas ainda estavam vivas.

A matéria inicial de Adam Nossiter incluía uma linguagem de questionamentos que não me lembro de ter visto antes. O segundo parágrafo começava com estas palavras surpreendentes: “Se verdadeiro”. O quarto parágrafo naquela matéria online acrescentava dúvidas. “Foi impossível aceitar inteiramente como autêntico o vídeo”, era como começava. Um parente das meninas localizado em Chibok, o vilarejo onde elas foram sequestradas no mês passado, disse que ninguém assistira ao vídeo, e Nossiter escreveu “porque não há energia elétrica, muito menos acesso à internet”.

No dia seguinte, ele divulgou que o vídeo fora mostrado a alguns parentes por autoridades do governo nigeriano e eles haviam identificado suas filhas, diminuindo as dúvidas sobre a autenticidade do vídeo.

Ceticismo radical

Entretanto, o primeiro impulso de Adam Nossiter foi bom. E embora tenha acabado não justificando a precaução, levantou questões em relação à autenticação de imagens de vídeo – e à dificuldade de fazê-lo – no atual ciclo implacável de 24 horas de notícias. Aprofundei essas questões com jornalistas de dentro e de fora do Times durante a semana passada.

A palavra que surgiu, de forma recorrente, nessa meia dúzia de entrevistas foi “verificação”.

Claire Wardle, uma especialista em autenticidade de vídeos que é professora no Tow Center, da Universidade de Columbia, diz, simplesmente, que os jornalistas “devem sempre partir do princípio de que o conteúdo é incorreto”. Podemos chamá-lo ceticismo radical – um conceito muito útil.

Steve Buttry – coautor, com Claire Wardle, de um guia para jornalistas intitulado Verification Handbook – também tem uma boa tirada sobre o assunto. “Jornalismo é trabalho pesado e verificação é um dos trabalhos mais pesados do jornalismo”, disse numa entrevista recente publicada no site do Festival Internacional de Jornalismo.

Steve Buttry e Claire Wardle concordam que não há meios infalíveis para verificar vídeos, mas há medidas de bom senso que podem ser adotadas pelos jornalistas. Estas envolvem a velha e boa checagem e rechecagem com múltiplas fontes – Buttry chama a isso “triangulação” – e novos métodos digitais.

O Times é cliente de uma organização jornalística chamada Storyful, que tem como uma de suas especialidades verificar a autenticidade de vídeos de várias maneiras – o mais importante seria tentar obter a versão original de um vídeo e entrar em contato com a pessoa que o gravou.

O risco da retratação

No mês passado, algumas organizações jornalísticas tiveram que divulgar retratações – publicar correções e remover imagens – depois que um vídeo que descrevia uma avalanche mortal no Monte Everest acabou sendo uma avalanche que ocorreu naquele lugar há vários anos. Nenhuma organização quer ter que fazer uma coisa dessas.

Bruce Headlam, editor de vídeo no Times, disse-me que, por sua própria natureza, o vídeo exige um cuidado adicional. “O vídeo é tão imediato e intuitivo, assim como é muito convincente, que temos que ficar excepcionalmente vigilantes”, disse ele. Além do mais, enviar um vídeo não é uma ação que permita muitas nuances. “Num vídeo, não há o parágrafo ‘Para ter certeza’”, disse, em alusão ao desmentido muitas vezes ridicularizado que aparece frequentemente em matérias jornalísticas. Headlam disse-me que a grande maioria dos vídeos que aparece no site do Times não exige essas questões de autenticidade porque é gravada pela própria equipe jornalística ou por freelancers cuja reputação é amplamente conhecida no jornal.

Numa ocasião recente, o Times preparava-se para publicar um vídeo e parou. O vídeo, amador, que pretendia mostrar helicópteros sendo abatidos por forças pró-russas na Ucrânia, tinha circulado por agências de notícias, embora com desmentidos anexados. Segundo um produtor de vídeos do Times, Ben Werschkul, o jornal preparava-se para publicar o vídeo, mas no último minuto decidiu não fazê-lo. O pessoal da editoria internacional achou que parecia propaganda e não era suficientemente sólido para publicar como notícia, além de ter uma origem incerta. (Imagens desacreditadas da Ucrânia – fotografias, e não vídeos – causaram problemas ao Times recentemente, como escrevi em meu blog no mês passado.)

Parece uma decisão prudente, que reflete o tipo de raciocínio feito por Adam Nossiter quando viu o vídeo da Nigéria pela primeira vez. O Times continua caminhando, de maneira inexorável, para a era digital, na qual texto e fotos são apenas parte da equação da notícia e essas são questões que permanecem.

Com a importância cada vez maior do vídeo (tanto para o valor da notícia quanto como fonte de receita publicitária), dos inúmeros lugares de onde se originam e da velocidade das notícias, as probabilidades de um registro perfeito são baixas, como admitiu Bruce Headlam. “Se até hoje não tivemos que remover alguma coisa por não ser autêntica”, disse ele, “é provável que mais cedo ou mais tarde o tenhamos que fazer.”

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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