Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Vera Guimarães Martins

20/05/2014 na edição 799

“A revolta do batismo”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 18/5/2014

A inauguração do novo estádio do Corinthians, no bairro de Itaquera, trouxe de volta as mensagens furibundas de torcedores que acusam a mídia em geral, e Folha e UOL em particular, de perseguir o clube ao se referir à arena como Itaquerão.

A revolta não é nova e já foi (bem) tratada neste espaço em 2011, por Suzana Singer. Submergiu por um tempo, sem nunca sumir, e voltou à baila agora, alimentada por notícias de que o clube terá dificuldades para pagar a conta do estádio.

Para os corintianos, o apelido pode inviabilizar a busca de um patrocinador que pague para pôr seu nome no estádio, os chamados “naming rights”, algo que tentam há anos e ainda não conseguiram.

“O estádio se chama Arena Corinthians, foi o nome dado pelo clube, que é o dono”, escreve o leitor Luiz Felipe Santoro.

“Acho imperdoável chamar de Itaquerão. O clube já escreveu à Folha pedindo para parar com isso, e nada mudou”, declara o vice-presidente Luis Paulo Rosenberg.

A Folha não deve ter sido o único destinatário da mensagem. Com algumas exceções, o apelido é a forma mais usada para se referir à arena (que o diga a presidente Dilma) -e por razões que escapam de qualquer teoria persecutória.

Chamar estádios pelo nome do bairro em que estão localizados sempre foi parte do jogo -vide Morumbi, Pacaembu, Maracanã etc. Assim como usar aumentativo.

“Esse ‘ão’ nasceu com Mineirão, foi ele que inaugurou essa cultura. É marco histórico da época da ditadura”, conta o colunista Paulo Vinicius Coelho, o PVC.

É o argumento irrefutável de todos os que estão usando Itaquerão. A Folha levanta também a questão da indefinição. “O clube usa Arena Corinthians temporariamente, enquanto negocia. A Fifa adota Arena São Paulo, e as placas de trânsito tratam como Estádio Itaquera”, diz o editor de Esporte, Naief Haddad.

A tese merece uma ressalva: chamar o estádio pelo nome da cidade não é sinal de indefinição, é padrão da Fifa em qualquer Mundial.

O fato é que a chegada dos “naming rights” aos estádios vai obrigar a imprensa esportiva a rediscutir padrões que sempre adotou.

Jornalista e corintiano, Juca Kfouri resume bem o dilema. “Não acho que seja papel de jornalista fazer propaganda. Mas, sim, [chamar de Itaquerão] prejudica o clube.”

Há outro complicador em campo: a imprensa se refere ao estádio do inglês Arsenal como Emirates Stadium e ao do Bayern como Allianz Arena. Quando o Corinthians arrumar patrocinador e adotar um novo nome, os defensores do argumento de que o que vale é nome mais conhecido vão insistir em Itaquerão?

Vai ser difícil convencer a torcida de que não se trata de dois pesos e duas medidas. (Colaborou Paulo Gomes)

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Vera Guimarães Martins é ombudsman da Folha de S. Paulo

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