Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

VOZ DOS OUVIDORES > ‘THE NEW YORK TIMES’

Um barquinho de papel num mar digital

Por Margaret Sullivan em 17/06/2014 na edição 803
Tradução de Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução da coluna de Margaret Sullivan [“A Paper Boat Navigating a Digital Sea”, The New York Times, 14/06/14]

É manhã de quarta-feira e 39 editores já chegaram – alguns carregando laptops e smartphones, outros com canetas e blocos de anotações – para a reunião das 10 horas na sala de conferências do Times, no terceiro andar. Essa reunião, que até recentemente se concentrava no jornal impresso, agora dá ênfase a uma discussão diferente: o jornalismo nas plataformas digitais do Times. Houve elogios para as manchetes que continham as palavras corretas – no caso, tanto “Eric” quanto “Cantor” – para maximizar os resultados das buscas online; uma pergunta indagando se uma matéria seria acompanhada por um vídeo; e conversas sobre como dar maior destaque a um pacote político na home page.

Houve até uma referência jocosa ao pico de leitura que se seguiu a uma incursão inicial no Twitter pelo novo editor-executivo, Dean Baquet, que elogiara a cobertura de um funeral no Brooklyn e fornecera um link.

A reunião da manhã é uma das duas grandes reuniões diárias – a outra é às 4 horas da tarde. (Só para constar: das 23 pessoas sentadas em volta da mesa principal, sete eram mulheres e duas, dois homens, eram afro-americanos.) O foco das reuniões – que há muito tempo, no Times, deixou de ter “O que é que sai na primeira página?” como questão principal – era, claramente, um esforço para transformar a redação numa síntese de “todas as plataformas”.

Mas as mudanças estruturais, tanto no Times quanto no mundo dos maiores jornais, são ainda mais gritantes. E em relação a isso há um problema cuja solução não é fácil: como transformar totalmente um futuro digital quando o modelo empresarial – e o DNA da redação – ainda está tão vinculado ao jornal impresso.

Estrutura de custos

Façamos uma avaliação:

** O jornalismo do Times alcança um número muito maior de pessoas na versão digital do que na impressa. E a tendência do digital é continuar a crescer, enquanto o impresso continua na espiral em queda da circulação que começou há dez anos e se acelerou durante o colapso econômico de 2008.

** Mas o impresso, com a receita da publicidade e das assinaturas, mantém o equilíbrio do jornal. Nos primeiros três meses deste ano, a publicidade participou com 159 milhões de dólares (cerca de R$ 350 milhões); desse total, apenas 38 milhões de dólares (cerca de R$ 85 milhões) vieram de anúncios digitais, enquanto a maior parte veio do jornal impresso.

** As assinaturas exclusivamente digitais, que agora são cerca de 800 mil, são consideradas a tábua de salvação. Mas é difícil manter seu crescimento; confiar em seu dramático crescimento contínuo é uma ideia insustentável.

Entretanto, o custo disso tudo é astronômico. Apenas os custos anuais da redação são de mais de 240 milhões de dólares (cerca de R$ 540 milhões), o que mantém 1.250 jornalistas e sucursais por todo o mundo.

Portanto, surgem questões urgentes: seria o ritmo de mudanças no Times suficientemente rápido? E o que será o futuro, tanto do ponto de vista jornalístico quanto empresarial? Não tenho respostas definitivas para essas perguntas, mas outras pessoas já o tentaram fazer.

“Teoricamente, o Times pode acabar com o impresso”, escreveu Frédéric Filloux em seu blog Monday Note. Steve Outing, consultor de mídia digital, acha que o melhor para o Times seria sair semanalmente, mantendo apenas a edição dominical, que é lucrativa. Ryan Chittum, da Columbia Journalism Review, acha a opção por uma edição dominical uma situação provável. “Acho que alguma coisa desse tipo irá acontecer no final desta década”, escreveu.

Jonah Peretti, que fundou o BuzzFeed, disse numa entrevista recente que a grande questão para o Times não é como melhorar suas opções digitais, e sim, “por que elas precisam de uma receita tão grande”. E respondeu: “É porque sua estrutura de custos foi feita para o jornal impresso. Quando você avalia quanta receita tem origem no impresso e a extensão de sua operação devido ao impresso, o desafio que enfrentam ao seguir em frente é como passar a um mundo pós-impresso.”

O essencial é o jornalismo

Essa é a questão mais difícil para o Times. Parte do desafio ocorre porque o jornal impresso está no sangue da maioria dos jornalistas do diário. Dean Baquet passou toda a sua carreira em jornais impressos e luta diariamente para fazer a transição. “Estou tentando não me comportar como editor de um jornal impresso”, disse-me numa entrevista, na semana passada. “O que estou tentando ensinar a mim mesmo é levar essa energia e dedicação para outras plataformas.” Mas o objetivo do jornalismo do Times, disse ele, continuará sendo o mesmo. “Colocamos o serviço público antes de qualquer outra coisa.”

É difícil encontrar alguém no Times que ache que o jornal impresso vai acabar em breve. E ninguém quer que isso aconteça. Há um amor muito forte pelo jornal tradicional, inclusive entre aqueles que estão se mexendo pelas mudanças – mesmo entre os jovens jornalistas autores de um recente “relatório de inovações“ sobre o Times que acumulou muita e merecida atenção no mundo dos jornais impressos.

Amy O’Leary, por exemplo, que faz parte do grupo de 10 pessoas que trabalhou no relatório – coordenado por A.G. Sulzberger, o filho de 33 anos do publisher do Times, Arthur Sulzberger Jr. –, disse-me que guardou todas as suas matérias que saíram na primeira página numa caixa branca de arquivo e que os editores do Times mandam aos repórteres uma placa de metal quando é publicada uma matéria sua de primeira página pela primeira vez. Ela também sabe perfeitamente que o futuro não está ali. “O importante é que a redação está enfrentando essas questões”, disse-me Amy, uma repórter de 36 anos.

Ela tem razão. Mas, para olhar inteiramente para o lado digital, o Times também tem que avaliar duramente as despesas da redação, com um olho num futuro mais magro que não sacrifique a excelência jornalística.

Para prosperar, o Times precisa de uma mudança radical num ritmo acelerado. Numa empresa que confia tanto no jornal impresso para receita e no digital para o futuro, isso não será fácil. Mas é fundamental, pois, para os leitores, o essencial é o jornalismo do Times – não a sua forma, mas a sua sobrevivência.

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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