Quarta-feira, 19 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Vera Guimarães Martins

12/08/2014 na edição 811
“Anatomia de um erramos”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 10/8/2014

No dia 2 de junho, a Folha deu na manchete: “Na USP, 6 em cada 10 alunos poderiam pagar mensalidade”. A reportagem, que ocupou a capa inteira do “Cotidiano”, provocou uma chuva de reclamações.

No domingo seguinte (8), a coluna da ombudsman apontou fragilidades na edição e alguns malabarismos estatísticos, mas concluía, com base nas respostas de então, que “aparentemente, não havia erros a corrigir”. Só que não.

Nesta sexta (8), dois meses depois, o jornal publicou uma errata de 21 linhas, enorme para os padrões da seção, mas ínfima diante do destaque e do espaço concedidos ao conteúdo contestado.

O texto admite erro no uso da média do IBGE, de três pessoas por família, e diz que a correta seria 3,7, extraída do perfil socioeconômico dos calouros da USP. Deixa-se de explicar o porquê: aquela é a média nacional, baseada em uma população ampla e diversificada, da qual a universidade é parte pequena e com características bem diferentes.

A correção reafirma, porém, que essa mudança “não altera de modo significativo o resultado final”, os 60% que foram parar no título.

Um “erramos” vago, discretíssimo e, principalmente, insuficiente. O cálculo de pessoas por domicílio era só um dos problemas. O principal é que, ao contrário do que o texto reafirma, não era possível então, nem é agora, garantir que 60% dos alunos da USP têm renda para pagar mensalidade parcial ou integral.

Para afirmar isso, seria necessário cruzar o número de integrantes do domicílio do estudante com os dados da renda familiar total –informações que o jornal não conseguiu obter. Sem eles, a conclusão alardeada está sujeita a ser desmentida pelos microdados reais.

Mesmo sofrível assim, a correção enfrentou um longo caminho. O primeiro passo foi dado pelo leitor Bruno Mandelli, 30, que vive no Rio de Janeiro. Economista, ele não se conformou com a resposta recebida e contra-argumentou que, sem a correlação entre o tamanho da família e sua renda total, qualquer resultado seria só uma estimativa aproximada e provavelmente subestimaria o total de alunos com direito a bolsa de estudo do ProUni.

E deu exemplo: “Imagine dois alunos: um vive sozinho e tem renda de salário mínimo; outro vive em uma família de cinco, com renda total de cinco salários mínimos. Ambos têm renda familiar per capita de um salário mínimo e, portanto, se qualificam para a bolsa integral pelo ProUni. Pelo método da Folha, porém, só um deles se qualificaria.”

A pedido da ombudsman, a Secretaria de Redação fez uma rechecagem dos dados. Oito especialistas foram ouvidos, e o relatório concluiu que a reportagem errou: 1) ao considerar o tamanho da família brasileira no lugar da família real do calouro e 2) ao calcular a renda per capita dos alunos usando uma média de renda. O jornal corrigiu as duas, mas reiterou que o enunciado continuava correto –na contramão das fontes ouvidas no relatório.

Se o problema era só esse, por que tanta demora para admitir o erro? A Secretaria de Redação justifica dizendo que “o processo de checagem foi difícil e demorou a produzir conclusão, em razão de a Fuvest ter se negado a fornecer os dados precisos da renda per capita dos calouros, o que levou o jornal a usar abordagens aproximativas”.

Não há dúvida de que os cálculos são complexos e de que o trabalho foi grande, mas eu não descartaria dificuldades de outra ordem. A escolha da manchete é uma decisão colegiada, e seu conteúdo passa, necessariamente, pelo crivo de algum integrante da Secretaria de Redação. Uma reportagem inconsistente é, portanto, um erro compartilhado pelas chefias.

Perguntei também por que, apesar de toda a controvérsia despertada, o jornal não publicou uma nova reportagem agora, relatando a checagem. A resposta foi que não houve mudança substancial.

Além disso, a Secretaria crê que o fato de 68,8% dos calouros de 2013 (ano analisado) terem cursado o ensino médio em escolas particulares reforça o publicado. Conclui: “Vale frisar que a reportagem até hoje não foi contestada pela própria USP, que seria a maior interessada num eventual desmentido”.

A bola agora está com a USP.

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Vera Guimarães Martins é ombudsman daFolha de S. Paulo

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