Quinta-feira, 21 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1064
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VOZ DOS OUVIDORES >

Sobre transparência e conflito de interesses

Por Margaret Sullivan em 23/09/2014 na edição 817

O artigo estava na parte de cima da primeira página no início deste mês – uma investigação HYPERLINK "http://www.nytimes.com/2014/09/07/us/politics/foreign-powers-buy-influence-at-think-tanks.html"do HYPERLINK "http://www.nytimes.com/2014/09/07/us/politics/foreign-powers-buy-influence-at-think-tanks.html"Timessobre a influência de dinheiro vindo do exterior em organizações de pesquisa norte-americanas. Dizia que mais de uma dúzia de think tanks“receberam dezenas de milhares de dólares de governos estrangeiros durante os últimos anos, forçando o governo dos Estados Unidos a adotar políticas que muitas vezes refletem as prioridades dos doadores”. O artigo alertava para o perigo de uma grande quantia de dinheiro que estava “transformando cada vez mais o mundo dos think tanks, que já foi sóbrio, num sólido braço dos lobbies de governos estrangeiros em Washington”.

Talvez o Times devesse prestar atenção a seu próprio alerta. Precisamente no dia seguinte, chegou-me uma reclamação por e-mail – não sobre o artigo, mas sobre um texto publicado na página de Opinião. O autor, Till Bruckner, da organização sem fins lucrativos Transparify– que analisa os financiamentos dos think tanks –, dizia que, talvez inadvertidamente, “o NYT possa estar ajudando e contribuindo justamente para as manipulações da opinião pública e das políticas governamentais que publicamente deplora”.

O artigo da página de Opinião, intitulado “Os sauditas podem esmagar o Estado Islâmico”, convocava “a comunidade internacional a formar uma sólida coalizão com a Arábia Saudita para deter os avanços militares da organização terrorista Estado Islâmico”. Um de seus autores é associado ao Centro HYPERLINK "http://belfercenter.ksg.harvard.edu/"BelferHYPERLINK "http://belfercenter.ksg.harvard.edu/"para a Ciência e Assuntos Internacionais da Universidade de Harvard, que Bruckner descreve como “um dos mais opacos think tanks” em termos de divulgar suas fontes de financiamento.

Pode ser que não exista aqui um conflito de interesses – mas é muito difícil afirmá-lo. E este não é um caso isolado de um leitor do Times pedindo mais transparência. Muitos o fazem. E com razão. Os leitores citam constantemente exemplos, tanto nas páginas de notícias quanto de opinião e editoriais, nos quais o jornal dá voz a informações e opiniões sem revelar os vínculos financeiros ou políticos por trás delas. Seguem-se dois exemplos que ouvi.

Algumas sugestões para colaboradores

Um artigo de Brenda HYPERLINK "http://www.nytimes.com/2014/09/10/opinion/russias-next-land-grab.html"ShafferHYPERLINK "http://www.nytimes.com/2014/09/10/opinion/russias-next-land-grab.html", na página de Opinião, sugerindo que o presidente Obama convidasse o presidente do Azerbaijão para uma vista a Washington para discutir “o próximo roubo de terras pela Rússia”, que ela acredita ser no Sul do Cáucaso, a região fronteiriça entre a Rússia e a Turquia, rica em petróleo. O crédito a identificava como vinculada à Universidade de Haifa e professora visitante da Universidade de Georgetown, mas não revelava que ela era consultora da empresa estatal de petróleo do Azerbaijão. (Uma nota do editorcom relação a isso, contendo uma crítica implícita do autor, foi anexada na semana seguinte.)

Uma matéria relacionada à HYPERLINK "http://www.nytimes.com/2014/06/15/world/middleeast/rebels-fast-strike-in-iraq-was-years-in-the-making.html?_r=0"organização Estado Islâmicoe alguns gráficos de informação que usam como fonte o Instituto para o Estudo da Guerra. Este é dirigido, em parte, pelo ex-general do exército Jack Keane que, segundo um artigo de Lee Fang no semanário The HYPERLINK "http://www.thenation.com/article/181601/whos-paying-pro-war-pundits"Nation, tem atuado como consultor pago da indústria militar norte-americana. “Descrever Keane simplesmente como dirigente de um think tank e ex-oficial militar, como fez a mídia, deixa de lado uma carreira bastante lucrativa”, escreveu Fang.

Quantas informações fica o Times devendo a seus leitores? Quanto seria prático fornecer informações em termos de tempo e energia gastos pelos editores? Comuniquei-me com Sewell Chan, um dos editores de Opinião, e conversei com Philip B. Corbett, editor para padrões, sobre estas preocupações. Chan disse-me que os colaboradores da página de Opinião assinam um documento comprometendo-se a cumprir as orientações do Times no que se refere à integridade, o que inclui conflitos de interesse. Também disse (depois de consultar Andrew Rosenthal, o editor de Opinião) que os editores passariam a ser mais cuidadosos ao aprovar esses colaboradores.

Hans Gutbrod, diretor-executivo da Transparify, tem algumas sugestões a esse respeito. Em primeiro lugar, disse-me que as organizações jornalísticas deveriam fazer algo mais do que simplesmente assinar um documento de rotina. Deveriam insistir, por meio de uma declaração afirmativa, que não existe um conflito de interesses – financeiros ou outros. Omitir uma informação pode parecer uma coisa inofensiva, mas fazer uma falsa declaração afirmativa pode levar os colaboradores a refletir.

O uso de “laranjas”

Em segundo lugar, Hans Gutbrod afirmou que, nas situações em que os think tanks não são transparentes no que se refere a quem os financia, as organizações jornalísticas deveriam declarar claramente que uma determinada organização não revela quem a financia. “Os leitores e os cidadãos deveriam poder descobrir quem paga por uma posição política que venha a ser adotada”, disse ele.

Eu acrescentaria que o Times deveria solicitar de colaboradores em potencial que listassem os nomes das organizações em que trabalharam como consultores remunerados ou como membros de uma equipe (talvez por um período de cinco anos), assim como se alguém ou alguma organização com interesse no tema em questão o remunerou. Essa informação deveria ser divulgada junto ao leitor, ou usada para simplesmente desqualificar o autor.

Philip Corbett (cuja responsabilidade é sobre notícias, e não sobre as opiniões) disse-me que a divulgação é ainda mais importante nesta era digital. “Há uma maior expectativa de transparência por parte dos leitores, e isso é bom”, afirmou. No caso específico dos gráficos que incluíam informações do Instituto para o Estudo da Guerra, Corbett destacou que os gráficos usavam múltiplas fontes, com os devidos créditos e links.

Não é prático para o Times, disse ele, fornecer aos leitores uma explicação completa do que pode motivar as fontes de informação. Não é possível fazer um texto investigativo de cada fonte usada num gráfico. Mas alguns artigos, como é o caso da recente matéria sobre think tanks ou a reportagem investigativa de 2008 “Secretária eletrônica”, de David Barstow, sobre generais reformados e seu bem-remunerado papel na exortação às guerras através de aparições na mídia, ajudam os leitores a apreender o espírito da coisa, disse ele.

O Times é uma plataforma poderosa e global para ideias e opiniões que influenciam políticas. Suas páginas de notícias e de Opinião conferem legitimidade de uma maneira quase incomparável.

Nos dias de hoje, quando os lobistas são alvo de críticas cada vez maiores por parte do público, há quem prefira usar “laranjas” – como, por exemplo, pessoas supostamente neutras de um think tank – para fomentar uma ideia que pode em seguida ser disseminada por e-mail ou endossada por seu cliente por meio de um comunicado de imprensa. O Times não pode permitir que o usem dessa maneira.

Para que seus leitores possam avaliar as ideias, precisam saber de onde elas vêm – e quem pode estar pagando por elas.

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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