Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > ‘THE NEW YORK TIMES’

Para quem escreve o ‘Times’?

Por Margaret Sullivan em 11/11/2014 na edição 824
Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução da coluna de Margaret Sullivan [“Pricey Doughnuts, Pricier Homes, Priced-Out Readers”, The New York Times, 8/11/14]

David Gonzalez aproximou-se do pastor que pregava na esquina de uma rua do Bronx e disse que era do New York Times. “Ele tinha acabado de gritar sobre o fogo do inferno e a danação eterna”, relembra Gonzalez que, na época, em 1991, era chefe da sucursal do Bronx. Quando o pastor ouviu que ele era do Times, seu rosto iluminou-se. “Disse-me que apreciava muito a cobertura que fazíamos das óperas.”

Foi uma lição no sentido de não fazer suposições sobre os leitores do Times – um tema sobre o qual ouço muito de leitores que se sentem frustrados sobre aquilo que descrevem como elitismo na visão do mundo do jornal, que gostariam que o Times e sua equipe se lembrassem que a renda média por residência nos Estados Unidos é de 52 mil dólares por ano [cerca de R$ 135 mil] e que 15% da população norte-americana vive na miséria.

Não é difícil compreender por que se sentem frustrados. Aqueles excelentes apartamentos de cobertura, com etiquetas de 10 milhões de dólares parecem destinados a gestores de fundos de investimento, ou mesmo oligarcas russos. As matérias sobre meia dúzia de rosquinhas vendidas a 20 dólares (mais de R$ 50) são para quem goza de rendimentos disponíveis, e não para quem luta para pagar aluguel. Muitas das festas, assim como modelos de roupa e mesmo aqueles dispositivos engenhosos ocorrem fora do alcance da classe média.

Não é segredo que o Times pretende ser atraente para muitos de seus leitores ricos e, pelo menos às vezes, para os anunciantes que querem chegar a eles. (Basta levar em conta a seção especial de grandes anúncios que é produzida duas vezes por ano e que se chama, simplesmente, “Riqueza”.)

A seção imobiliária do WSJ chama-se “Mansão”

Claudia Griffiths, uma leitora do estado do Maine, disse o seguinte: “Uma lanterna de 160 dólares e um nivelador de 219 dólares? Será que o 1% dos 1% da população precisa da ajuda de vocês para comprar ferramentas? Olá, gente. Será que os editores do Times poderiam levar em conta para quem estão realmente escrevendo? Pois não é para a maioria dos norte-americanos.”

Irene Lin, de Washington, escreveu que o Times “satisfaz às elites brancas, cosmopolitas, de classe média alta e fica profundamente fora do alcance cultural e político da maioria da população dos Estados Unidos”.

Então, para quem é escrito o Times – para os super-ricos ou para cidadãos de todos os níveis de renda? Será que o jornal vem cumprindo o axioma da profissão jornalística segundo o qual sua missão é “preocupar os acomodados e consolar os sofridos”? Ou será que vem proporcionando maior conforto a quem já está amplamente confortável?

Perguntei ao editor-executivo, Dean Baquet, em que leitores ele pensa quando orienta a cobertura e as prioridades do jornal. “Considero o leitor do Times uma pessoa bem educada, articulada e provavelmente bem de vida”, respondeu. “Mas acho que temos tantos professores universitários quanto Wall Street tem banqueiros.”

Em relação à questão de um conteúdo de produtos caros, ele a chamou de “uma das maiores tensões” num quadro mais amplo do Times. A assinatura do jornal tornou-se cara e o jornal é mantido financeiramente por anunciantes que querem chegar aos leitores de alto poder aquisitivo, mas “você não pode transformá-lo numa operação jornalística elitista”. Segundo ele, não é apenas o Times que faz isso: a seção imobiliária do Wall Street Journal chama-se “Mansão”.

Interesses da elite

Dean Baquet disse que matérias sobre apartamentos de 56 milhões de dólares e sobre pais que compram casas perto das escolas particulares de seus filhos fazem parte do conjunto do jornal. Também há matérias sobre pessoas que lutam para sobreviver, observou ele. “Você tem que olhar para o jornal como um todo – e esse todo não é elitista”, disse. “Existem partes do jornal dirigidas a uma audiência rica? Sim, e isso está certo porque faz parte do equilíbrio.”

No ano passado, escrevi uma coluna sobre a cobertura que o Times fez da pobreza, observando que muitas vezes foi excelente e pedindo que fosse mais consistente e mais abundante. (Pesquisadores do instituto Pew destacaram que menos de 1% das matérias jornalísticas de primeira página, inclusive as do Times, tratavam de pobreza.)

Greg Kaufmann, editor do site TalkPoverty.org, no Center for American Progress, escreveu-me recentemente para elogiar o que considera uma melhoria no Times no que se refere ao “compromisso para dar cobertura à pobreza, à desigualdade e, principalmente, às lutas dos trabalhadores mal pagos”. Elogiou matérias sobre a proposta de desmantelamento de um programa de bem-estar social e sobre o salário, comparativamente alto, dos trabalhadores em restaurantes de fast food na Dinamarca. Mas continua preocupado com “artigos que atendem aos interesses da elite econômica que não faz coisa alguma pelo restante de todos nós”.

A rosquinha de luxo e o apartamento de cobertura

Eis aqui como eu analiso: não há nada de errado em cobrir esses assuntos. O Times deveria, com certeza, cobrir uma culinária sofisticada, uma moda sofisticada e muitas outras coisas sofisticadas. Não só esses assuntos têm valor noticioso como também, o que é inegável, a receita publicitária que ajudam a proporcionar permite ao Times produzir o jornalismo contundente e caro que é o principal de sua missão. Muitas outras organizações jornalísticas não podem produzir esse tipo de matéria, em alguns casos porque não têm como pagar por seus custos.

Mas, às vezes, o tom e a ênfase, assim como o conjunto, escorregam, deixando de reconhecer que essa audiência é uma pequena fatia do bolo econômico norte-americano (para não dizer global). Às vezes, uma auto-consciência por parte do Times – me ocorre uma reação de gozação no Twitter em relação a uma manchete sobre “paternidade artesanal” – e, com certeza, empatia, fazem falta. Fiquei impressionada com uma frase de David Gonzalez (cujo histórico, diz ele, é “operário, porto-riquenho, católico e do Bronx”): ele tenta escrever sobre as pessoas que têm menos, mas mantiveram sua “dignidade intacta”.

Como me disse Ginia Bellafante, que escreve uma coluna sobre a vida e as políticas de pessoas muitas vezes pobres e de classe média em Nova York: “Não podemos supor que uma referência a um determinado sapato, uma loja ou um restaurante” seja apreciada por todos. Na época, ela disse que o Times não pode ignorar uma parte importante de sua audiência: “Todas as pessoas ricas em Nova York, assim como em todas as cidades ricas e seus bairros elegantes, lêem o Times e sempre leram.”

O que ela tenta fazer em sua coluna é ampliar a perspectiva daqueles que podem “ficar bloqueados pela experiência de Nova York em termos de uma experiência imediata”. Em última instância, a rosquinha de luxo e o apartamento de cobertura – por mais grandiosos que sejam – não têm nada a ver com o principal objetivo do Times.

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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