Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº955

VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Vera Guimarães Martins

20/01/2015 na edição 834
O jornal do dia seguinte”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 18/1/2015

“Vivemos uma época em que a velocidade das transformações atordoa, e a imprensa escrita está enfrentando essas mudanças a duras penas. A meu ver, sua chance de sobrevivência está na busca de consistência, de análise, de reflexão”, escreveu a leitora Ilka C. “A Folha”, arrematou ela, “aponta na direção da superficialidade.”

O diagnóstico é duro, mas a crítica tem aparecido com frequência nas mensagens à ombudsman. Dizem esses leitores, com razão, que quem se dispõe a ler o noticiário impresso no dia seguinte espera que ele seja melhor do que o material oferecido na véspera na internet, não tanto em quantidade de informação (o que seria impossível), mas em profundidade na abordagem.

Essa equação era mais fácil quando jornais e sites tinham Redações separadas, cada uma produzindo seu próprio noticiário. Com a unificação, uma tendência mundial, o conteúdo do jornalismo digital melhorou (embora ainda haja muito a fazer) e o do impresso perdeu parte de sua vantagem, uma vez que os dois ficaram mais parecidos.

No caso da Folha, pesa ainda um paradoxo. A reivindicação de maior profundidade convive com um projeto gráfico que prevê textos mais curtos, sucintos. O modelo roda bem na cobertura do factual mais simples, mas não dá conta de histórias complexas, com versões conflitantes e vários desdobramentos, que demandam amarração e maior didatismo, para situar o leitor.

Para esses casos deveria valer a regra da exceção, prevista pelo jornal, que é apostar em narrativas mais longas e bem trabalhadas. Nem sempre acontece, e a cobertura do atentado em Paris é o exemplo mais recente. Quem acompanhou o noticiário nas duas plataformas não viu motivo para acreditar na proclamada superioridade do papel. O jornal do dia seguinte tinha seus diferenciais, mas derrapou na narrativa, muitas vezes confusa e espremida, encaixotada em um só texto.

No cotejo com o digital, o papel levou a pior. O ataque recebeu cobertura extensa e ao vivo nos sites, que compartilhavam cada detalhe ou fiapo de novidade em tempo real. Ok, a profusão de postagens sempre abriga irrelevâncias e notícias que serão desmentidas ao longo da apuração, mas inclui também a informação que estará no jornal, além do material que, por falta de espaço, será exclusivo do digital.

Para fazer frente a esse cenário, o impresso deveria mostrar excelência, funcionando como curador criterioso do conteúdo, com histórias bem amarradas, textos claros, gráficos relevantes e sem os erros que uma revisão atenta poderia evitar. Nesse caso não conseguiu.

Fonte de problemas

Após sete anos de batalha legal, James Risen, do “New York Times”, foi desobrigado nesta semana de depor como testemunha no julgamento de Jeffrey Sterling, ex-oficial da CIA acusado de fornecer detalhes sobre uma operação militar fracassada no Irã.

O governo americano acusa Sterling de ser o autor do vazamento das informações publicadas no livro “Estado de Guerra”, que Risen lançou em 2006 (no Brasil, em 2007). O Departamento de Estado tentava obrigar o jornalista a confirmar isso. Caso se recusasse a responder, o que já havia dito que faria, ele poderia ser acusado de desobediência à corte e ser preso.

Nesta semana, o secretário de Justiça, Eric Holder, anunciou o recuo sobre a intimação ao repórter e declarou ter reescrito as regras do departamento, para evitar que jornalistas possam ser presos por protegerem suas fontes.

No Brasil, o STF suspendeu a liminar que determinava a quebra do sigilo telefônico de Allan de Abreu, repórter do jornal “Diário da Região”, de São José do Rio Preto, que também se recusou a revelar a fonte de reportagens sobre uma operação da Polícia Federal. A ver como ficará o mérito.

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Vera Guimarães Martins é ombudsman daFolha de S. Paulo

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