Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

VOZ DOS OUVIDORES > ‘THE NEW YORK TIMES’

Cada morte, um peso

Por Margaret Sullivan em 27/01/2015 na edição 835
Tradução: Jô Amado, edição de Leticia Nunes. Reprodução da coluna de Margaret Sullivan [“When Calculus of Loss Doesn’t Add Up”, The New York Times, 25/1/2015]

Se você partir da premissa de que todas as vidas humanas são de igual importância, então os critérios das organizações jornalísticas muitas vezes são confusos. Isso porque, quando se trata de cobertura, algumas mortes violentas – numa citação distorcida de Orwell – são mais iguais do que outras.

Foi o que aconteceu no início de janeiro, quando a mídia ocidental, inclusive o Times, noticiou obsessivamente os ataques que deixaram 17 vítimas e três assassinos mortos em Paris. A cobertura foi intensa: no Times, não se passou um dia – durante dez dias consecutivos – sem que saísse uma matéria de primeira página, e, em geral, duas.

Nesse ínterim, numa parte muito mais remota do mundo, o grupo radical Boko Haram tinha devastado a cidade de Baga, no interior da Nigéria. As primeiras reportagens diziam que cerca de duas mil pessoas haviam sido massacradas. Nos primeiros dias, o Times quase não percebeu. A primeira reportagem escrita pela equipe do jornal apareceu impressa uma semana após o ataque; não ganhou a primeira página e não era muito extensa. Na semana seguinte, a cobertura da matança apareceu uma única vez na primeira página do Times – na forma de um grande mapa de satélite. (A matéria estava nas páginas internas.)

A essa altura, os leitores já reclamavam. No dia 9 de janeiro, Mark Solomon escreveu: “O massacre do Boko Haram é oportuno, angustiante e diretamente relevante em relação às outras notícias importantes do dia. Alguém poderia argumentar – e racionalmente, eu diria – que a principal matéria do dia é a do Estado Islâmico.” E acrescentava: “Onde está a matéria do Boko Haram?”

“Foram problemas totalmente distintos”

Karen Delince, outra leitora, disse-me que ficava verificando o jornal e o site do Times e não encontrara cobertura alguma do massacre na Nigéria. Pelo Twitter, o distribuidor de mídia Om Malik pediu-me para investigar a disparidade entre a cobertura de Paris e a da Nigéria, e destacou os 1,4 milhão de seguidores de um artigo de Ethan Zuckerman, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT, que documentava a “atenção irrisória da mídia” para os assassinatos na Nigéria.

Na verdade, a cobertura do Times pareceu fraca e atrasada.

Dev Patel, que faz parte da equipe do jornal Harvard Crimson, da Universidade de Harvard, escreveu-me a respeito do despacho da Reuters que foi publicado no dia seguinte ao do ataque, em 3 de janeiro: “Essas quatro frases constituem 100% da cobertura dada pelo Times ao massacre em Baga, no fim de semana passado.” Enquanto estudante de Jornalismo, “pergunto-me por que a equipe do Times praticamente ignorou a tragédia na Nigéria, enquanto o ataque terrorista em Paris, num nível bem menor, recebeu uma atenção imensa”.

Na semana passada, coloquei essas questões para três editores do noticiário internacional. Rapidamente, os três destacaram que o correspondente do Times na África Ocidental, Adam Nossiter, tem feito um trabalho extraordinário sobre o Boko Haram há vários anos. Escreveu textos muito fortes sobre o grupo muito antes que ele viesse à tona da consciência global, em abril do ano passado, com o sequestro de centenas de meninas.

Joseph Kahn, o principal editor do noticiário internacional do Times, disse-me que as matérias de Paris e da Nigéria não são comparáveis. “Foram problemas totalmente distintos”, disse ele, e o primeiro aconteceu numa importante capital ocidental onde o Times tem uma equipe considerável.

“Nem tudo recebe o mesmo tipo de cobertura”

Ele, assim como outros, falou da dificuldade de cobrir a pauta do Boko Haram devido à distância do lugar, aos problemas de checagem de informação e às questões pendentes de reportagens anteriores. Embora a Anistia Internacional divulgasse que o número de mortos poderia chegar a dois mil, ele disse-me que alguns especialistas confiáveis estavam sugerindo prudência em relação ao número. O Times precisava apurar o que havia acontecido, o que é melhor fazer in loco. O problema é que para chegar lá é difícil e toma muito tempo.

Joseph Kahn disse que uma maneira de providenciar uma cobertura rápida e significativa teria sido uma matéria sobre a controvérsia em torno dos números – informando os leitores sem correr o risco de superestimar o que acontecera. Uma matéria dessas – principalmente se fosse exposta com destaque e publicada com rapidez – teria sido uma forma gratificante de ser transparente com os leitores em relação ao que o Times sabia e ao que não sabia.

Kahn também disse que, enquanto o ataque de Paris teve um espectro intenso e curto, a matéria sobre o Boko Haram iria continuar e o Times continuaria com o compromisso de lhe dar cobertura. O editor responsável pela cobertura da África, Greg Winter, disse-me que Adam Nossiter estava de volta à Nigéria (ele também estava cobrindo a matéria sobre o Ebola), trabalhando num texto importante sobre o Boko Haram.

“Eu compreendo as preocupações dos leitores sobre a cobertura da Nigéria e compartilho dessas preocupações. É por isso que o nosso correspondente arriscou a vida durante anos para cobrir o país e os distúrbios na região Norte”, disse Winter. Perguntei a Joseph Kahn como os números de mortes violentas são avaliados, de uma maneira geral, durante as decisões editoriais. “Nem tudo recebe o mesmo tipo de cobertura”, disse ele. “Depende das opiniões que tivermos. ‘É um assunto importante? Vamos mandar alguém?’ Entre os fatores levados em consideração estão as circunstâncias, se é um assunto pouco comum, a localização e a relevância para os interesses dos Estados Unidos.”

Vidas perdidas são dignas de atenção imediata

Ele acrescentou: o Times tem que tomar cuidado para não superestimar uma notícia de morte violenta. “Nem todos os incidentes de massacres são matérias importantes para o New York Times. Você tem que colocá-los no contexto. E não simplesmente preencher as reportagens com doses ilimitadas de notícias terrivelmente violentas do mundo todo.”

Porém, em relação ao recente ataque do Boko Haram, Joseph Kahn disse: “Poderia ter recebido mais atenção e ter sido mais enfático.”

Concordo. Não tenho objeções ao tamanho da cobertura dada ao ataque de Paris. Mas, seja qual for o cálculo das avaliações jornalísticas, as vidas perdidas dos nigerianos foram, sem dúvida alguma, dignas de uma atenção imediata por parte do Times, assim como deverão continuar sendo.

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Margaret Sullivan é ombudsman do New York Times

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