Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Vera Guimarães Martins

03/03/2015 na edição 840
Teoria conspiratória nº 8.667”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 1/3/2015 

Uma das partes mais difíceis da função de ombudsman é separar o joio do trigo nas mensagens que recebe. Por joio entendam-se as reclamações dos militantes a soldo. O trigo são os leitores reais, que, com ou sem preferência partidária, manifestam dúvidas genuínas, ainda que fomentadas por fábulas conspiratórias do primeiro grupo.

A última dessas teorias tem como pivô o caso Swiss Leaks, nome dado ao vazamento de contas secretas de 106 mil clientes da agência do HSBC em Genebra. As informações, surrupiadas por um funcionário em 2008, ficaram longe do público até este mês, quando o Consórcio Internacional de Repórteres Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) deflagrou sua revelação.

No Brasil, a publicação foi feita pelo blog de Fernando Rodrigues, que trabalhou na Folha por 27 anos e deixou o jornal em novembro último. Eram 8.667 clientes brasileiros, detentores de cerca de US$ 7 bilhões, o que conferia ao país o nono lugar no ranking por depósitos.

A divulgação dos números foi seguida por uma cobertura modesta na grande imprensa, o que fez brotar aqui e ali acusações de que os jornais estariam omitindo-se para proteger políticos ou poderosos. A realidade é mais prosaica: os jornais levaram um furo na testa.

É ingenuidade ou desinformação achar que é possível a qualquer veículo, por maior que seja, manter em segredo uma grande história. O erro é tanto mais primitivo no caso do Swiss Leaks, cujos dados foram compartilhados por mais de 140 profissionais espalhados por 45 países. Faça um exercício, leitor: pense por dois segundos na palavra jornalista (e no que ela significa) e multiplique por 140: o resultado será qualquer coisa incompatível com segredo.

O problema é que, por uma conjunção de fatores, por aqui, só Fernando Rodrigues obteve os dados. Vamos às razões da exclusividade.

O ICIJ é uma rede global de 185 jornalistas de mais de 65 países, voltada à produção de matérias investigativas sobre temas de fôlego, como crime internacional e corrupção. São projetos de longo prazo, que exigem acesso restrito para garantir o uso responsável dos dados. O projeto do Swiss Leaks, por exemplo, começou em julho de 2014.

O Brasil tinha então seis membros no ICIJ. A Folha estava representada por Fernando Rodrigues, embora tenha outro filiado ao consórcio, o especialista em dados Marcelo Soares. No carioca “O Globo” também havia uma profissional no ICIJ, mas ela deixou o jornal em janeiro último. Resumo da ciranda: quando o material ficou pronto, só um brasileiro tinha acesso habilitado.

Desde que começou a publicar reportagens baseadas nos dados, Fernando Rodrigues tem sido instado a revelar todos os nomes, uma cobrança estendida, por desconhecimento ou má-fé, aos grandes meios, acusados de omitir informações que eles não têm. Marcelo Soares chegou a procurar o ICIJ, mas a adesão só na divulgação era impossível.

Como integrante do mesmo grupo do UOL, a Folha poderia reproduzir as reportagens feitas por Fernando Rodrigues, mas não o fez. “Sem acesso próprio a um material que envolve quebra de sigilo bancário, o jornal preferiu relatar o que disseram as reportagens nos casos em que julgou relevante”, informa a Secretaria de Redação.

É excesso de zelo –Fernando trabalhou na casa por quase três décadas. Louve-se, porém, o cuidado, bem-vindo quando se fala do sigilo de milhares de pessoas. Não é crime manter conta no exterior se ela tiver sido declarada à Receita Federal e seus impostos devidamente pagos –e desse dado só o fisco dispõe. Publicar os nomes de correntistas só é eticamente justificável se houver interesse público envolvido.

No Brasil, até agora, surgiram os nomes de Pedro Barusco, de membros da família Queiroz Galvão (envolvidos na Lava Jato) e de 31 pessoas ligadas a empresas de ônibus no Rio. À medida que os dados forem trabalhados, novas reportagens virão, e a discussão sobre a relevância pública será inevitável em cada uma. Mas o desafio dos jornais ainda precede esse dilema: antes é preciso que se virem para ter acesso ao material. O assunto pode render.

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Vera Guimarães Martinsé ombudsman daFolha de S. Paulo

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