Sábado, 25 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

VOZ DOS OUVIDORES > ‘FOLHA DE S. PAULO’

Vera Guimarães Martins

16/03/2015 na edição 842
A volta do clássico, agora em campo minado”, copyright Folha de S. Paulo, São Paulo (SP), 15/3/2015

Caiu do cavalo quem, como eu, acreditou que 2015 daria um refresco no clima de animosidade desgastante das eleições do ano passado. O governo nem completou três meses, e o país volta a viver aquele flá-flu atordoante, agora numa versão mais complicada, que soma o acirramento da disputa eleitoral de 2014 aos solavancos ainda mal decifrados dos protestos de massa de 2013.

Se o momento é delicado para o país, é ainda mais sensível para a grande imprensa, da qual se exige o distanciamento necessário para uma cobertura desapaixonada do cenário incerto. Não foi o que se viu.

A Folha da segunda-feira (9) foi particularmente desequilibrada ao trazer uma sucessão de conteúdos negativos para o governo. Começava na manchete (“Fala de Dilma na TV gera panelaço em 12 capitais”), passava por artigo do grupo Movimento Brasil Livre em Tendências/Debates e ocupava mais três das cinco páginas de “Poder” (as duas restantes tratavam da Lava Jato).

Era só notícia ruim. Na página A4, o relato de panelaço e vaias. Na A5, uma análise de que o governo deveria se preparar para algo maior e imprevisível; ao lado, foto de Aécio Neves e reportagem com o líder da oposição e a ex-ministra Marta Suplicy, agora adversária do PT.

A carga ressurgia na A9, “Grupos contra Dilma esperam levar 100 mil às ruas no dia 15”, sobre os organizadores do protesto deste domingo (e lá estavam de volta, agora com foto, os mesmos rapazes do MBL). Um texto pequeno de uma coluna anunciava o ato dos movimentos alinhados ao PT, mas seu título era puro fogo amigo: “CUT, MST e UNE fazem ato contra o ajuste fiscal”.

O problema não estava nas reportagens propriamente ditas, mas no conjunto. A opção pela manchete do panelaço foi correta: o fenômeno surgiu de forma espontânea nas redes sociais e ganhou proporção inesperada. Sua ocorrência não foi tão maciça quanto se depreendia pela manchete, nem tão insignificante e localizada como pregava o governo. Era notícia surpreendente num dia tradicionalmente frio. Não por acaso foi o destaque dos três grandes jornais.

(Na terça, a própria presidente se incumbiria de levar para as manchetes as palavras “Dilma” e “impeachment”, fazendo um comentário atabalhoado sobre o assunto.)

No restante da semana, o desequilíbrio se refletiu na disparidade do tratamento conferido às manifestações pró e contra o governo.

Não que eu ache que ambas tenham o mesmo peso. O protesto previsto para este domingo é mais notícia porque guarda algum frescor e semelhança com a onda de 2013. A chave pode ter se invertido, mas os personagens continuam sendo novas figuras da sociedade civil, grupos que não têm vínculo partidário nem são patrocinados por verbas públicas ou imposto sindical.

Meu ponto é que, no polarizado ambiente atual, a manifestação de MST e sindicatos ecoava não apenas a voz do Outro Lado, mas a do (e)leitorado que continua fiel à petista –e também à Folha.

A Secretaria de Redação não acredita, porém, que tenha havido qualquer diferença. “O jornal fez uma cobertura equidistante e equilibrada dos preparativos das manifestações. Entendeu as duas não só como eventos políticos mas como acontecimentos urbanos aos quais parte do público leitor poderia ter interesse em comparecer.”

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Vera Guimarães Martinsé ombudsman daFolha de S. Paulo

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