Domingo, 20 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

VOZ DOS OUVIDORES > PÚBLICO

José Queirós

11/10/2011 na edição 663
“Traduções mal feitas e outros equívocos”, copyright Público, Lisboa (Portugal), 9/10/11.

“1. Vários leitores têm chamado a atenção para a frequência com que deparam com erros de tradução nas páginas do jornal. Têm razão em fazê-lo: esses erros — que por vezes chegam a ser anedóticos — podem distorcer informações ou, no mínimo, torná-las confusas. Em alguns casos, resultam da ‘tradução’ literal de termos estrangeiros, sem atenção às expressões idiomáticas próprias da língua de origem ou à sintaxe da língua portuguesa, como parece ter acontecido no caso recente, assinalado pela leitora Eunice Silva, do texto intitulado ‘Bactéria irmã da tuberculose pode ajudar a combater doença’ (edição on line, 06.09).

A peça noticiava os resultados de uma investigação publicada numa revista científica de língua inglesa e é de presumir que tenham sido traduzidas do artigo original frases como esta: ‘Há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra’. A leitora argumenta que ‘esta frase não faz sentido em português, além de se notar que é uma tradução (uma má tradução, diga-se)’. Admite que a expressão ‘menos e menos’ (em vez do português ‘cada vez menos’) tenha resultado do ‘less and less’ inglês, e critica sobretudo a estrutura sintáctica da frase’, pois em bom português ter-se-ia escrito ‘há estirpes muito resistentes contra as quais a medicina actual tem cada vez menos ferramentas’. Eunice Silva refere ainda a existência, na mesma peça, de uma provável distorção do sentido do texto original, resultante do erro infelizmente comum de ‘traduzir’ o vocábulo inglês ‘eventually’ por ‘eventualmente’.

A leitora tem razão. Erros deste tipo, por vezes mais graves, surgem com indesejável frequência, em especial na edição on line, na qual a celeridade na publicação das notícias, somada à necessidade de recorrer a muitas informações de agências e outros meios de comunicação estrangeiros, não estará a ser acompanhada por um efetivo controlo de qualidade do trabalho de tradução. Que aliás nem sempre é assinalado: não são raros os casos em que passagens inteiras de textos publicados em jornais ou revistas de outros países não são devidamente atribuídos, como se fossem da autoria de um redator do PÚBLICO — uma atitude reprovável que muitas vezes se denuncia, precisamente, pela mediocridade da tradução. E esta torna-se mais visível quando as incongruências do texto em português resultam da incompreensão de expressão idiomáticas inglesas, francesas ou até castelhanas, ou do desconhecimento do significado distinto que têm, nessas línguas, termos graficamente semelhantes a certas palavras portuguesas.

Perguntei à direcção editorial como é assegurada a qualidade da tradução na elaboração de peças noticiosas. Quis saber se qualquer jornalista é considerado habilitado para traduzir, ou se existem profissionais com essa função específica, e quais são os procedimentos para controlar a qualidade das traduções. Recebi da directora, Bár­bara Reis, o seguinte esclarecimento: ‘Usamos tradutores profissionais para grandes textos, publicados na revista, por exemplo. No dia-a-dia já tivemos secretárias com essa formação e especialidade, mas tal não é verdade há uns anos, dada a gradual diminuição da redacção. Os jornalistas usam fontes em várias línguas. Alguns dos erros que notamos não tem a ver com ignorância, mas com distracção (…). É um problema que só se consegue resolver reforçando o número de desks e editores online, incapazes de lerem com atenção todos os 150 textos que publicamos por dia. Estamos neste momento a equacionar esse mesmo reforço’.

Do ponto de vista dos direitos dos leitores, espero que essa reflexão chegue a bom porto, sabendo que a discussão das prioridades na alocação de meios humanos é sempre difícil num projecto jornalístico obrigado a conciliar as suas ambições com a escassez de recursos. Mas, como já aqui defendi, nenhum jornal de qualidade pode merecer esse nome ou manter essa reputação dispen­sando os meios necessários ao controlo da qualidade que reclama. Os erros de tradução podem parecer, a alguns, um problema menor. Não são: afectam o rigor da informação e a qualidade da escrita.

2. O leitor Fernando Rodrigues criticou nos seguintes termos uma peça publicada na edição da passada quarta-feira, 5 de Outu­bro: ‘Noticia (…) o PÚBLICO, na pág. 6, o seguinte: ‘MP acusa médico que deixou compressa no corpo de doente’. Até aqui tudo bem (embora sem assinatura), mas, no texto, após descrever os factos respeitantes ao título em epígrafe, não se fica por aí. E, no último parágrafo, vem uma outra notícia que nada tem a ver com o dito título (e que aliás já tinha sido dado à estampa uns dias antes), que se refere a um acusação do MP a um outro médico por abuso e coacção sexual. Que tem a ver uma coisa com a outra? Porquê? Não entendo’.

Não me foi possível obter uma explicação sobre a opção editorial criticada pelo leitor. Fui apenas informado de que se terá tratado de uma ‘fusão’ de dois despachos da agência Lusa, que não é citada nessa notícia não assinada. Posso apenas presumir que quem decidiu ligar os dois casos num só texto o fez com base no único ponto comum que poderá ser invocado: em ambas as situações há um médico acusado pelo Ministério Público. Por mim, concordo com o que o leitor sugere: o relacionamento dos factos é forçado e despropositado, e deveria ter sido evitado. Não parece justificável, nem acrescenta valor informativo sério, que a dois parágrafos sobre uma alegada negligência médica se acrescente um terceiro, para ‘recordar’ que ‘outro médico’ (é assim que é referido) foi ‘recentemente’ acusado de crimes de abuso sexual.

3. Outro leitor, Augusto Küttner de Magalhães — que uma análise da correspondência que recebo mostra ser um dos mais intervenientes na análise do que lê no PÚBLICO, aplaudindo ou criticando — retoma na sua última mensagem o tema, que lhe é caro, do receio de qualquer deriva sensacionalista no seu jornal. E questiona se ‘haveria necessidade’ de publicar, na capa da edição da última quarta-feira, o título ‘Utente vai ter de esperar 19 meses por consulta’, que lhe pareceu mais próprio da imprensa dita popular.

Neste caso, e na minha opinião, não tem razão. O sensacionalismo, numa definição um tanto simplista, é a aposta na exploração mercantil da informação, que apela a emoções básicas e à curiosidade mórbida, num registo populista que não se detém face ao rigor dos factos e aos direitos das pessoas. O título em causa é apelativo (e bem), convidando à leitura de uma história concreta representativa de um tema de evidente interesse público. A notícia a que está associado, assinada por João d’Espiney, não se afasta de um registo sóbrio e factual, que nada deve ao sensacionalismo. A apontar-lhe uma deficiência, seria a do recurso repetido ao estribilho do que não foi possível apurar ‘até ao fecho desta edi­ção’, para justificar a ausência do exigível contraditório — e esta, sim, é uma pecha que parece estar a alastrar, neste jornal, muito para além da justa medida.

Pode sempre discutir-se, no caso concreto de cada edição, a escolha de uma matéria chamada à primeira página. Entendi a crítica do leitor como uma objecção de ordem temática (não seria assunto para a capa), mas também aí não o acompanho: trata-se de uma notícia em que o jornal cumpre o seu indispensável papel de vigilância dos poderes, neste caso do funcionamento (ou das disfunções) de um serviço público de interesse geral como é o Serviço Nacional de Saúde.

Sim, o FC Porto vai à frente

Um leitor que não se identificou — vá-se lá saber porquê — alertou para um erro nas páginas de Desporto da passada segunda-feira, 3 de Outubro. ‘Estranhamente’, escreveu, o jornal colocara o Benfica no primeiro lugar da tabela classificativa da liga de futebol. ‘Ora’ — notava — ‘isso não é verdade; quem está em primeiro lugar é o FC Porto e, se [no último domingo] a prova tivesse terminado, seria ele o campeão e não o Benfica’.

Tem razão o leitor anónimo, a tabela estava errada. Nuno Sousa, editor do Desporto, explica porquê: ‘Embora Benfica e FC Porto somem os mesmos pontos, o primeiro critério de desempate, de acordo com o artigo 13.º do Regulamento de Competições da Liga Portuguesa de Futebol Profissional, passa pela diferença entre golos marcados e sofridos ao longo da competição. Um parâmetro que é favorável ao FC Porto (12 contra 11 do Benfica) e que, consequentemente, deixa o actual campeão nacional na liderança do campeonato. Foi um lapso, infelizmente não detectado a tempo, mas que seria corrigido na edição do dia seguinte, na classificação publicada na página 26″.

Erro reconhecido e corrigido, portanto. Mas teria sido útil que a explicação clara agora fornecida tivesse sido dada desde logo no local próprio (‘O PÚBLICO errou’), para informar com rigor quem pudesse ter dúvidas sobre os critérios regulamentares referidos. E também porque, ainda que isso possa espantar alguns leitores, a questão de saber quem, entre clubes de futebol com igual pontuação, vai afinal à frente do campeonato, é para outros relevante e sensível. Acresce que este tipo de erro já sucedeu no passado, tornando-se difícil entender que quem no jornal elabora ou revê a tabela classificativa não conheça o regulamento da Liga ou, em caso de dúvida, não o consulte.”

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