Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

MOSAICO > MÍDIA & IMPERIALISMO

A descolonização midiática da humanidade

Por Luís Eustáquio Soares em 19/09/2011 na edição 660

No seu revolucionário livro Orientalismo (1978), o intelectual palestino Edward Said (1935-2003) mostrou-nos como o Ocidente, desde os seus primórdios, produziu saberes, imagens e representações negativas, estereotipadas, caricaturais e preconceituosas sobre o Oriente, nas quais os povos orientais eram concebidos, totalitariamente, como ignorantes, inferiores, bárbaros, preguiçosos, fanáticos e idiotas.

Em diálogo com Michel Foucault, principalmente tendo em vista a relação inseparável entre poder e saber, Said demonstrou como os prestigiados saberes ocidentais – a ciência, a arte e a filosofia – desqualificaram o Oriente, através de um duplo dispositivo de poder colonizador: 1) o da visão homogênea do Oriente, baseada na premissa de que todos os orientais são ignorantes, preguiçosos e fanáticos, sem considerar a extrema complexidade e diversidade étnica, cultural e econômica dos povos do Oriente; 2) o da apresentação, em contraparte, do Ocidente como multifacetário, instigante, inteligente, civilizado e dotado de diversidade étnica, de gênero, cultural.

Em livro posterior, Cultura e imperialismo (1993), Edward Said complementa os principais argumentos de Orientalismo através da tese de que os saberes e as representações que o Ocidente produz sobre o Oriente constituem estratégias de dominação, no âmbito da cultura, do imperialismo ocidental, de tal modo que, ao avançar, invadir, explorar e ocupar as mais diversas regiões orientais, o Ocidente realiza, na prática belicosa do imperialismo, a guerra igualmente orquestrada no plano da cultura e dos saberes legitimados, pelas mais diversas instituições ocidentais, inclusive a universitária.

Inferiorizar e desumanizar o não ocidental

No campo da literatura, por exemplo, não obstante o valor estético dos principais cânones do Ocidente, não há como ignorar, afirma Said, a representação distorcida que geralmente é feita do Oriente em boa parte das narrativas de ficção, peças de teatro e poemas dos mais conhecidos e prestigiados autores europeus e americanos, ao longo da historiografia literária ocidental.

Sob esse ponto de vista, a peça teatral A tempestade (1623), de William Shakespeare, é paradigmática. Nela os ocidentais são apresentados como magnânimos, belos, civilizados, nobres, ao passo que o outro, o não ocidental, detém um perfil negativo: é feio, é rancoroso, é vingativo, é dissimulado, como ocorre, por exemplo, com o personagem Calibã, descrito desde o começo como um escravo disforme e selvagem.

Said também argumenta que o simples fato de associarmos qualidade estética a um autor inglês, como no caso de Shakespeare, indicia-nos a partir do pressuposto de que a Inglaterra é epicentro da verdadeira cultura, o país que produz gênios, razão pela qual é superior a outros lugares, à periferia, cujo modelo civilizatório – é o que se subentende – só pode ser inculto ou e inóspito, logo impróprio à emergência de “gênios”, como Shakespeare, que só poderia ter nascido num pais “civilizado”, como a Inglaterra.

O que está em jogo, portanto, na relação entre Ocidente e Oriente, é esse aglomerado de representações que aquele produz sobre este, como parte da guerra; e antes de tudo como essas imagens, informações, narrativas, proposições teóricas e científicas não apenas justificam a intervenção/invasão imperialista, mas ao mesmo tempo são permanentemente alimentadas e retroalimentadas por praticamente todas as instituições do Ocidente, as governamentais, as religiosas, as acadêmicas, as artísticas, judiciárias, as midiáticas, as bélicas, através de um duplo movimento simultâneo: o movimento de inferiorizar e desumanizar o não ocidental americano-europeu e o processo ininterrupto de fetichização – transformando-os em eugênicos ocidentais – de americanos, europeus e israelenses.

Uma guerra de modelo civilizacional

Esse duplo movimento é tanto mais eficiente quanto mais se inscreve no cotidiano; quanto mais é normalizado e transformado em padrão, em referência, exemplo de rigor, inteligência, talento e seriedade jurídica, filosófica, artística, informativa, administrativa, burocrática, teórica, razão pela qual tudo que não parte do sistema de referência do imperialismo ocidental é de antemão desqualificado, inferiorizado, desprezado, recusado ou, no melhor dos casos: é concebido como o lugar do folclore, da piedade ou do exótico.

É por isso que a guerra imperialista em si, sob a forma de massacre efetivo dos povos não ocidentais, constitui uma trágica crônica do genocídio anunciado, prenunciado em cada “inocente” gesto de seriedade, de rigor, de talento, de competência – burocrática, administrativa, intelectual, teórica e informativa – que efetivamente praticamos institucionalmente, seja através de nossos próprios protagonismos, seja através da mistificação dos protagonismos alheios.

Sob esse ponto de vista, o que chamamos de mérito tende a fundar-se ou justificar-se a partir do sistema de referência multidisciplinar do Ocidente, como parte intrínseca do imperialismo ocidental. Por consequência, um mundo de paz verdadeira, que não seja a do cemitério, não será efetivamente possível se não for devidamente desintoxicado do sistema de referência eurocêntrico, que nos toma a todos, através de sua normalização e mistificação no cotidiano de nossas mais prestigiadas instituições.

A guerra imperialista é, em consequência, a própria normalização e mistificação do sistema de referência ocidental, eurocêntrico. Mais que uma guerra entre civilizações, portanto, é uma guerra de modelo civilizacional, do qual todos, de um modo ou de outro, participamos: ocidentais e não ocidentais.

A guerra é vital

Mudar, portanto, o mundo – torná-lo habitável, justo, sem guerras – é inseparável de uma política de descolonização ocidental de nós mesmos.

Não há como ser socialista se não, em processo, nos descolonizamos, na relação conosco e com os outros e também na relação que temos com os saberes, as artes e as ciências. É preciso considerar, nesse sentido, que o rigor, a competência, a inteligência, o talento, o esforço ( quando alimentados pelo sistema de referência eurocêntrico) são habitados por estes monstros: a guerra, o genocídio, o desprezo vil à vida.

Se considerarmos que o sistema midiático internacional é o principal eixo irradiador, na atualidade, do mistificado modelo de referência multidimensional do imperialismo, mais que satanizar o monopólio e o oligopólio midiáticos, é preciso admitir que ambos existem – o monopólio e o oligopólio – porque antes deles ou simultaneamente a eles existe igualmente um monopólio-oligopólio cultural, interpretativo, fundamentando, como questão de método, nosso cotidiano mesmo, na inocência séria de nosso respeito à competência, às práticas e aos saberes legitimados pela guerra imperialista no decorrer da História do Ocidente, como triste herança monumental e despótica da história das grandes civilizações que nos precederam.

Democratizar efetivamente os meios de comunicação planetários – e por consequência o brasileiro – é inseparável de nossa efetiva democratização, através de nossa efetiva descolonização, pois temos a vida colonizada para valer quando desejamos o que nos cega; quando somos eficientes na normalização e no processamento da ordem que oprime, submete e inferioriza o outro não ocidental; quando, portanto, somos o que temos sido ou desejamos ser: ocidentais, logo sérios, respeitáveis, talentosos, competentes, dignos, democráticos, civilizados, superiores.

Se a guerra, pois, constitui o cotidiano imperialista que normalizamos, a guerra em si, como a da recente invasão imperialista da Líbia, é parte da rotina do imperialismo, pois nós mesmos a normalizamos, através de nossas práticas, desejos e saberes, vidas, rotinas. A guerra, e vale o paradoxo, é vital, tendo em vista o modelo de civilização que cultivamos e efetivamos cotidianamente, competentemente, inteligentemente, amorosamente, talentosamente.

Mortes que não aconteceram

A guerra é vital também porque, no imperialismo ocidental, vida digna, com V maiúsculo, é a vida que se inscreve, como identidade ocidental, como nome próprio ocidental, como rosto ocidental – e antes de tudo como americana e europeia, razão pela qual, em contraponto, as demais vidas são indignas, inferiores, matáveis.

O aspecto mais nefasto da guerra imperialista, marcada por múltiplos preconceitos contra o não ocidental (categoria flutuante porque, em potência, qualquer um pode se tornar um não ocidental), reside precisamente no processamento cotidiano do jogo antinômico entre ocidental e não ocidental.

E é precisamente no interior desse jogo, jogando-o sem cessar, que o oligopólio midiático planetário desempenha um papel fundamental, na atualidade: o papel de estabelecer o perfil do verdadeiro ocidental, o mais competente, o mais desejável; e o do não ocidental ou do falso ocidental, logo do terrorista, ou candidato a sê-lo; logo do intratável, logo do autoritário, logo do inferior, logo do matável.

O oligopólio midiático planetário joga o jogo nefasto que é também o jogo do não matarás e do matarás: não matarás o ocidental, que é este; matarás o não ocidental, que é este. No interior desse jogo, ele mesmo o jogo da guerra ou a guerra do jogo, só a morte daqueles que foram eleitos para serem ocidentais é representada midiaticamente como legitimamente ocidental, razão pela qual são e serão mortes de pessoas que foram realmente vivas, porque tiveram história, porque tiveram sentimentos, porque tiveram pai, mãe, filhos; porque foram legitimamente ocidentais.

As outras mortes, as dos não ocidentais, nunca foram vidas, por isso não morreram; por isso não têm histórias próprias, nomes próprios; não têm sentimentos, desejos, parentes; motivos mais que suficientes para não representá-las midiaticamente. Elas não se tornam notícias porque não aconteceram, uma vez que nunca viveram de forma ocidental; essa é a nefasta e fascista premissa normatizada pelos oligopólios midiáticos planetários, que têm como principal servo no Brasil – porque mais eficientemente Ocidental – a TV Globo.

Mortes midiaticamente ressuscitadas

É, pois, parte previsível e surrealista desse jogo entre o não matarás e o matarás – que é também, por tabela, o jogo entre o representável e o não representável midiaticamente – o jogado jogo da singularização midiática de todos os mortos em consequência da destruição das Torres Gêmeas em Nova York.

É porque foram eleitos como vivos ocidentais que, mortos, passam a ser representados na lápide midiática planetária, motivo pelo qual o oligopólio midiático não cansa de entrevistar seus respetivos pais, irmãos, mães, filhos, pois, como parentes de assassinados mortos ocidentais, seus lutos devem ser mostrados e sentidos igualmente por todos nós, os ocidentais que somos ou desejamos ser. E é igualmente porque as Torres Gêmeas faziam parte da redundância incestuosa do Ocidente – a de que o Ocidente é gêmeo do Ocidente – que suas quedas cinematográficas são a imagem mais mostrada ao mundo nos últimos 10 anos.

É também por isso que a única verdade possível, em relação ao atentado de 11 de setembro, é a que está comprometida com a versão de que as Torres Gêmeas só poderiam ter sido destruídas por não ocidentais, por terroristas, por orientalistas fanáticos, de modo que, para o oligopólio midiático ocidental, mesmo diante das evidentes contradições da versão oficial do Ocidente americano, é inadmissível qualquer notícia que não esteja fanaticamente colada à perspectiva do Pentágono, razão pela qual toda versão outra, ainda que balizada pelos fundamentos da ciência ocidentalmente valorizada, é imediatamente acusada de conspiratória, sem rigor científico, não ocidental.

Sob o ponto de vista religioso, bíblico, fundado no axioma “não matarás um ocidental!”, qualquer morte provocada por atentado ocorrido nas terras santas do Ocidente – as terras americanas, europeias e israelenses – é midiaticamente ressuscitada, personificada, singularizada, chorada, ao mesmo tempo em que se torna razão suficiente para a vingança, que deve ser expressa em termos de mortes dos não ocidentais, no plural, porque a morte de um ocidental deve ser vingada com o indefinido de mortes de crianças, adolescentes, jovens, mulheres, homens, velhos não ocidentais, pouco importando se são inocentes, porque são de antemão culpadas, por não serem ocidentais.

A desintoxicação dos saberes

Como um morto ocidental vale por todos os vivos não ocidentais, a equação surrealista da vingança do Ocidente nunca será resolvida, de modo que seu resultado é sempre provisório e sempre demanda mais mortes não ocidentais, como parte da ocidental vingança infinita.

 Sob esse prisma, quantas pessoas não ocidentais morreram no Iraque, no Afeganistão, no Iêmen, no Paquistão, na Somália, na Líbia, vítimas da vingança das mortes dos ocidentais que se encontravam nas Torres Gêmeas? Um, dois, três milhões de não ocidentais? Quantas crianças se tornaram órfãs como consequência dessa infinita vingança: dezenas ou centenas de milhares? Quantos palestinos têm que morrer para compensar a morte de um colono soldado israelense? Quantos humanos devem perder as pernas, os braços, em função dos estilhaços de bombas da vingança infinita do Ocidente? Quantos não ocidentais estão exilados, sem lugar para morar, em função da vingança eterna do Ocidente maculado? Cinco ou seis milhões?

Quantos mais precisarão morrer?

Assim como temos o hábito de dizer que cada imagem vale por mil palavras, não é inverossímil afirmar que cada imagem mundialmente mostrada da caída das Torres Gêmeas equivale a milhares de não ocidentais assassinados pelo terrorismo de Estado do Ocidente, razão pela qual é possível deduzir que são imagens-bomba mais potentes que as bombas de nêutrons, embora de modo algum neutras, de vez que são ocidentalistas, as únicas autorizadas a matar, espoliar, acusar, porque, assim como “o não matarás” só vale para o verdadeiro ocidental, é possível também constatar que “o não censurarás” só vale para as edições bombásticas do oligopólio midiático planetário, sempre ocidentais ou pró-ocidentais, o que dá no mesmo.

Embora deva insistir no argumento de que a ocidentalização imperialista do oligopólio midiático não terminará com o fim do oligopólio, porque estamos todos igualmente ocidentalizados, penso que de algum lugar devemos partir para começarmos a mais importante tarefa que nos cabe, como vivos ocidentais e não ocidentais: a tarefa de desintoxicação imperialista-ocidental dos saberes, das culturas, das técnicas, das ciências apropriadas pela “rigorosa” versão e aversão do imperialismo ocidental.

Imperialismo é midiático

Como o oligopólio midiático é o principal lugar do imperialismo cosmológico da ocidentalização bélica do mundo, na atualidade, ou descolonizamos as mídias do planeta, ou meia dúzia de autodesignados verdadeiros ocidentais nos matarão a todos, mais cedo ou mais tarde.

Eis aí, pois, o referente da emancipação do mundo atual: a emancipação dos bilhões de humanos midiaticamente retratados como terroristas de fato, ou em potencial, subjugados por não mais que dezenas de famílias que disputam a eugenia de serem mais ocidentais que os ocidentais, como um Ariel etéreo, sem lastro na comum pulsação vital.

Desintoxicar o sistema midiático planetário só é possível através da afirmação de um Calibã não shakespeariano, por não estar marcado pelo desejo de ser ocidental; por, enfim, ter como lastro o comum rastro de nossa comunidade de destino, como vivos habitantes do planeta Terra.

Em diálogo, para concluir, com Edward Said, se o imperialismo tem múltiplas frentes – econômicas, culturais, políticas, geográficas, cosmológicas – é preciso constatar que hoje ele é, além de bélico, fundamentalmente midiático, de modo que esta é a melhor forma de desarmá-lo: a descolonização midiática da humanidade.

***

[Luís Eustáquio Soares é poeta, escritor, ensaísta e professor da Universidade Federal do Espírito Santo]

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