Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

MEMóRIA > ARMANDO NOGUEIRA (1927-2010)

A poesia do jogo

Por João Máximo em 30/03/2010 na edição 583

Um contador de histórias, um observador capaz de extrair do episódio mais simples um grande assunto, um idealista que João Saldanha chamou de ‘sonhador’, um apaixonado tentando transformar em poesia o objeto de sua paixão, tudo isso com estilo e elegância. Estes são alguns dos traços marcantes de Armando Nogueira como cronista.


Com um detalhe: tais qualidades foram postas a serviço do esporte, com ênfase, naturalmente, numa paixão maior – o futebol.


O que faz dele, além do mais destacado e influente cronista esportivo dos últimos 60 anos (estreou em 1950 como copidesque da seção de esportes do Diário Carioca), um jornalista, pode-se dizer, único. Explica-se esse único: os jornalistas que nos dedicamos ao esporte sempre adotamos o termo ‘cronista’ para dizer o que somos, mesmo que sejamos editores, redatores, repórteres, analistas, críticos, ou colunistas, e não cultores da crônica como gênero jornalístico-literário. Pois Armando Nogueira, mesmo quando obrigado por outras funções a ater-se à objetividade, à imparcialidade e mesmo à frieza do jornalismo, jamais deixou de ser o que era: cronista.


Um exemplo é a forma como, sendo pauteiro da editoria de cidade do jornal em que trabalhava, escreveu sobre a morte de Heleno de Freitas, ‘a personalidade mais dramática que conheci nos estádios desse mundo’. Em suas mãos, a notícia virou crônica, na primeira pessoa, no tom emocionado que os manuais de redação então condenavam. Outro exemplo, anterior e fora do esporte, foi o texto que escreveu como repórter, testemunha ocular do atentado ao jornalista Carlos Lacerda, na Rua Tonelero, em Copacabana.

Também na primeira pessoa e no tom emocionado, como seria a crônica sobre Heleno.

Jornalista único porque, justamente pelas normas que traçavam as linhas de modernização do texto jornalístico, nenhum outro ousava as liberdades e transgressões que ele cometia em textos não assinados. O que levou seus editores a abrirem espaço para, agora sim, suas crônicas, de início assinadas como Arno e depois com o seu próprio nome.


‘Na Grande Área’ marcou época


Armando Nogueira nasceu em 27 de janeiro de 1927, em Xapuri, Acre, para onde a família de cearenses se mudara ao fugir da seca. Em 1944, transferiu-se para o Rio, a fim de cursar a faculdade de direito. Teve outros empregos até descobrir o jornalismo.


No Diário Carioca – ao lado de uma geração que começou a reformar a imprensa brasileira, a de Prudente de Moraes, neto, Pompeu de Souza, Danton Jobim, Carlos Castello Branco, Otto Lara Rezende, Rubem Braga – trabalhou de 1950 a 1963. Neste último ano, em breve passagem pela Tribuna da Imprensa, criou sua famosa coluna ‘Na Grande Área’, que, nos próximos 13 anos, ocuparia um canto de página no Jornal do Brasil.


Armando deixou claro o que seria essa coluna logo na primeira publicada, onde explicava o título que alguns colegas, por não o entenderem, achavam pouco sugestivo. O primeiro parágrafo:




‘Tudo acontece na grande área: a guerra de Pelé e a guerrilha de Garrincha, o chute fatal, a rebatida heroica, o drible temerário de um beque, a tragédia do goleiro em cujos pés solitários a grama não floresce; na grande área, ressoa, implacável, a hora da verdade, erguendo e derrubando mitos no gesto simples de chutar uma bola; na grande área, nasce o gol, nasce o infarto que mata de emoção o torcedor; na grande área, onde os homens se acovardam e se engrandecem, a rasteira é pecado que no ato se paga pelo castigo do pênalti, entidade tão decisiva no destino de um jogo que, segundo um velho pensador do futebol, só devia ser cobrado pelo presidente do clube; nos canteiros da grande área, os pés imortais de Domingos da Guia pisando a grama de leve para não magoar a própria semente de sua arte – Nílton Santos.’


Por mais que alguns críticos denunciassem naquele estilo o desejo de pertencer à mesma família literária dos poetas que só depois de 1958 passaram a escrever sobre futebol (Carlos Drummond de Andrade e Paulo Mendes Campos entre eles), uma diferença era evidente. Enquanto os outros eram escritores que, amando o futebol, só eventualmente escreviam a respeito, Armando Nogueira fazia-o todos os dias, tornando-se escritor por amor ao futebol.


Para ele, o futebol vinha primeiro. E o estilo, depois. Essa paixão pelo jogo – que o tornava capaz de escrever liricamente sobre um drama ou uma tragédia e que o levava a perceber sempre algo de humano no erro, no equívoco, por mais grave que fosse – é que o ajudou a ser único.


Sem a intolerância do crítico, o azedume do analista, o tecnicismo do comentarista, mas com a alma do cronista. Outro exemplo é o texto sobre o dia em que Pelé, traído pelo efeito da bola, chutou o vento em pleno Maracanã: ‘E a bola do jogo, Deus queira que não, mas sou capaz de jurar que a bola do jogo, a essas horas, murchou de remorso’.


Essa paixão pelo futebol, inclusive o futebol defensivo que ele abominava, mas compreendia, é o seu diferencial.


Universo poético


Em 1954, assistindo à sua segunda Copa (ainda angustiado pela derrota na primeira), deplorou o que chamou de desperdício de talento: a marcação por zona de Zezé Moreira, posição que só muito depois reveria.


E passou a reverenciar o futebol mais ofensivo daquela Copa, o da Hungria de Puskas, Kocsis e Hidegutti.


Transformou aquele futebol em algo tão mítico que Nélson Rodrigues, seu amigo fraterno (a quem o próprio Armando considerava ‘o maior de todos os cronistas esportivos’), passou a se referir à seleção magiar como ‘o escrete húngaro de Armando Nogueira’.


Ainda sobre a Copa de 1954, um dado histórico: foi com sua câmera que ele fotografou Zezé aplicando uma chuteirada no ministro húngaro Guztav Sebes, numa das maiores brigas já registradas em mundiais de futebol.


Nélson Rodrigues é caso à parte. João Saldanha também, para citar um amigo e um ex-amigo de Armando Nogueira que, após a morte de Mário Filho, formou com ele a santíssima trindade da crônica. Nélson era um escritor, um dramaturgo que passou a escrever sobre futebol com base em rica imaginação (‘Armando, o que nós achamos do jogo?’, indagou certa vez à saída do Maracanã, levado pela miopia que não o permitia enxergar o campo).


Suas crônicas são brilhantes, mas textos de escritor convertido em cronista esportivo, é fato que mais assíduo que Drummond e Mendes Campos. São, invariavelmente, peças de ficção, irresistíveis pela força de quem as escreve.


As de Armando, não. É partindo da realidade que ele cria seu universo poético, por vezes meio mágico.


A força de Saldanha – que responsabilizou Armando por sua queda às véspera da Copa de 1970 – era de outro tom. Jamais teve ambições literárias, fazendo da capacidade de escrever como falava (seus comentários pelo rádio e pela TV jamais seriam igualados), o segredo de seu sucesso.


Forma perfeita


Mesmo durante os 23 anos em que, a partir de 1966, dirigiu o jornalismo da Rede Globo, integrando o grupo que criou o Jornal Nacional, Armando não se afastou do esporte. Deixou de participar de resenhas, deixou de escrever, mas continuou atento, indo a todas as Copas até a de 2002, no Japão e na Coreia do Sul, e a sete Olimpíadas, até a de Atenas. E aproveitou para reacender outra paixão: a de piloto amador. Ele e seu ultraleve.


Quando o cronista voltou à ativa, fez-se mais interessado em tênis, vôlei, basquete e outras modalidades (‘Sempre tive o gosto do esporte, divina graça que faz do jornalista um ser movido a utopias. Um idealista que procura a verdade e só esbarra em versões…’).


Seus leitores também voltaram, fiéis como sempre. Inclusive aqueles que perceberam nele certo rebuscamento que, na verdade, resultava do apuro estilístico a que ele se lançou no dia em que, ao pedir a Clarice Lispector que escrevesse uma crônica sobre futebol, ela exigiu em troca uma crônica dele sobre a vida:




‘O match da minha vida, Clarice, está por aí, rolando numa bola que já não é de meia, nem de gude: bola de tantos sonhos perdidos pela linha de fundo – círculo, inspiração do sol, forma perfeita, esfera de fogo queimando, às vezes, a grama dos meus campos. Que o match da minha vida possa ao menos terminar em paz – empate’.

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