Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1016
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VOZ DOS OUVIDORES >

A verdade por trás das fotos

Por Sobre artigo de Daniel Okrent em 11/01/2005 na edição 311

Há duas semanas, ainda juntando as peças de um verdadeiro quebra-cabeças, os editores de fotografia do New York Times examinaram mais de 900 imagens da devastação provocada pela tsunami no sudeste asiático para optar por uma que ocupasse quase a metade da primeira página da edição de terça-feira, 28/12. Dois dias após o desastre, as informações ainda chegavam devagar, e, aos poucos, ia-se descobrindo a assustadora dimensão da tragédia.

Quando a fotografia de uma mulher chorando agachada diante de uma fileira de corpos de crianças mortas foi estampada com destaque na página mais importante do jornal, muitos leitores – e alguns funcionários da redação do Times – reclamaram, conta Daniel Okrent [9/1/05]. Consideravam a imagem abusiva, desnecessária, e, pelo seu tamanho e posição, praticamente forçada à visão dos leitores. Alguns escreveram para protestar que aquilo era um desrespeito com os vivos e os mortos. Outros alegaram que o Times não teria publicado a foto se as crianças fossem americanas e brancas.



Fotos do New York Times

O ombudsman, que aprova a publicação da imagem em questão, foi atrás da editora Jill Abramson para descobrir como foi feita a escolha. Segundo ela, depois de muita ponderação, ficou decidido que a foto parecia guiar perfeitamente a notícia: mostrava a enormidade do desastre em sua mais pura forma – já que pelo menos um terço das vítimas da tsunami eram crianças. ‘É uma fotografia indescritivelmente dolorosa, mas que, em todos os sentidos, consegue ser proporcional ao horror da tragédia’, defende Jill.

Força inquestionável, decisão subjetiva

O inquestionável poder das imagens faz com que elas se transformem em marcas permanentes de eventos grandiosos. São símbolos, referências. Mas mostram a verdade? É isso o que questiona Okrent, para justificar a escolha da polêmica imagem. Segundo ele, o fotógrafo Richard Avedon disse certa vez que ‘não há algo como imprecisão em uma fotografia. Todas as fotografias são precisas. Nenhuma delas é a verdade’. Na era dos pixels, o ombudsman duvida até da certeza de precisão das fotos. As imagens de fotojornalismo do Times ficam de fora deste risco, pois, pela política do jornal, não podem sofrer modificações.

Mesmo assim, elas passam por um longo processo até serem publicadas. Antes de serem observadas, analisadas e julgadas pelo leitor, seu significado é determinado, analisado e julgado por diferentes pessoas em diferentes etapas. O fotógrafo capta um conjunto de imagens, que são entregues a um editor de fotografia. Este seleciona as fotos que se enquadram no contexto da matéria. O diagramador decide o tamanho a ser usado de acordo com o objetivo da foto – deve causar impacto? Ou ser discreta? – e o editor escolhe sua localização dentro do jornal. Quando chega aos olhos do leitor, esta imagem já foi repetidamente julgada. Mas, mesmo assim, é apresentada como um fato.

O que Okrent tenta mostrar, em sua coluna, é que o processo de se optar por uma determinada imagem para representar um evento é subjetivo. No mesmo dia em que o Times publicou a foto polêmica das crianças mortas, outros jornais optaram por colocar na primeira página a fotografia de um homem segurando a mão de seu filho morto. Em close, a imagem mostra apenas o rosto do pai e a pequena mão da criança. Era, também, uma imagem poderosa e, segundo ele, é fácil entender porque foi tão usada pela imprensa. Mas era um retrato genérico de uma tragédia. Poderia ter sido tirado há dez anos ou daqui a dez anos: a dor do homem diante da morte do filho é universal, e poderia ser ambientada na África, no Oriente Médio ou na América do Sul.

Mas a imagem escolhida pelo Times, defende Okrent, só poderia ser tirada agora, na costa devastada do Oceano Índico. Ele chama a atenção para o canto superior da foto: são mostrados pés cobertos por um lençol branco, no que parece ser uma outra fileira de corpos. A sensação, ao olhar este detalhe, é de continuidade: não sabemos quantas fileiras de cadáveres há naquele local, mas sabemos que elas são muitas. ‘Os bebês deitados em suas fileiras silenciosas são tão reais, e tão específicos, quanto a insanidade do ato da natureza que os assassinou. Esta fotografia conta a história da tsunami do sudeste asiático de dezembro de 2004 – não a verdade, mas um substituto da verdade que não irá deixar os pensamentos daqueles que a viram.’

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