Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Carlos Eduardo Lins da Silva

28/10/2008 na edição 509

‘A cobertura do caso Eloá em Santo André pela Folha foi acanhada, acrítica e burocrática.

O jornal tem todo o direito de decidir apenas registrar casos policiais como este. Pelo meu gosto, é exatamente o que deveria fazer.

Mas, se resolve que um crime é importante, ou investe e faz a coisa direito ou sofre pelo trabalho malfeito.

Por dez dias, o episódio constou da primeira página, sete com foto. É claro que era prioritário para a Redação.

Mas até sábado, o espaço para o noticiário foi pequeno e, mesmo depois, o esforço foi inconstante: alguns dos melhores repórteres entraram e saíram; a maior parte das retrancas era de declarações públicas e fatos já noticiados pela mídia eletrônica.

Faltou espírito crítico. Registraram-se opiniões contrárias à volta da amiga da namorada ao cativeiro desde o primeiro dia, mas de modo geral em tom ameno. Faltou ‘vontade editorial’.

As versões da polícia ganharam sempre mais destaque, a ponto de na terça-feira o perfil de um dos negociadores o retratar quase como herói. É justo mostrar o lado dos policiais e realçar seus aspectos positivos. Mas elegias numa operação que claramente fracassou são inadequadas.

O jornal foi burocrático ao acompanhar a tragédia. Limitou-se quase sempre a dar informação bruta, que o leitor provavelmente já havia recebido pelo rádio ou TV. Houve pouca análise, interpretação, informação exclusiva.

Meu antecessor Mário Vitor Santos em artigo para a revista ‘msg’ (indicação abaixo) lembra que ‘o bom teatro lida com os instintos mais básicos da platéia, mas também suscita reflexões sobre a natureza profunda do ser’.

Não se pode exigir que jornalistas sejam Shakespeares. Mas eles bem podem jogar luzes sobre desgraças como esta, oferecer visões psicanalíticas, sociológicas, promover o debate sobre políticas e instituições públicas envolvidas (da polícia aos conselhos tutelares, do governo à mídia).

Da mídia, por exemplo, este jornal só começou a tratar na terça-feira. E modestamente. Muitos leitores escreveram para se queixar dela.

De fato, os meios de comunicação ajudaram muito para criar esses infortúnios: ao tornarem o assassino uma celebridade, interferirem na ação das autoridades, transformarem o drama em circo e incentivarem a curiosidade mórbida do público, que impediu a família até de se despedir em paz da vítima.

Mas isso não é exclusividade nem do Brasil nem destes tempos. Talvez seja inevitável. Ocorre em todos os países. Veja-se o caso do pai que aprisionou a filha na Áustria.

E em todos os tempos. A revista ‘O Cruzeiro’ tratou o caso Aída Curi, há 50 anos, com tons de sensacionalismo que fazem o jornalismo atual parecer sóbrio (ver indicação de livro abaixo).

Mesmo sem mídia, o prazer doentio de ver detalhes de tragédias emerge a toda hora. Quem já não testemunhou dezenas de motoristas reduzirem a velocidade para olhar o motoqueiro caído na rua?

O ser humano é assim. O que não impede que se tente melhorar.’

***

‘Tudo que é sólido se desmancha no fim’, copyright Folha de S. Paulo, 25/10/08.

‘Na campanha eleitoral paulistana do primeiro turno de 2008, a Folha fez um bom trabalho. A série DNA Paulistano e as reportagens semanais sobre as propostas para as mais relevantes políticas públicas municipais dos cinco principais candidatos deram ao leitor informação sólida para ajudá-lo a definir sua escolha.

O tratamento aos três primeiros colocados nas pesquisas foi razoavelmente justo. O tom crítico prevaleceu em relação às propostas dos três. Ocorreram exageros e injustiças, que apontei na coluna de 5 de outubro, mas nenhum extremamente grave.

É uma lástima que todo esse esforço e seus resultados se tenham desmanchado no segundo turno. O debate sobre políticas públicas e projetos de governo se esvaiu no amontoado de textos sobre denúncias e insinuações trocadas entre os candidatos.

O equilíbrio editorial dissipou-se. O jornal tendeu claramente para Kassab. Nem tanto pelas reportagens. Eu contei 10 matérias negativas sobre ele e 14 sobre Marta; 11 positivas para ele e 5 para ela.

Mas colunas e artigos fizeram toda diferença. Anotei 13 textos opinativos com críticas a Marta e nenhum contra Kassab. No cômputo final, Kassab foi favorecido.

Não que isso possa ter grande influência sobre o resultado das urnas hoje. A pesquisa acadêmica comprova que jornais têm poder bastante reduzido de determinar o voto do cidadão. Mas eles precisam se manter fiéis a seu compromisso de buscar máxima isenção, apartidarismo, equanimidade.

Ainda pior foi a impressão que as edições da última semana passaram, pelo menos para este leitor: a de que o jornal já tratava o pleito como episódio superado, decidido. Pelo pouco espaço que dedicou, a ausência de criatividade nas pautas e de empenho na execução do trabalho, pelo quase automatismo editorial.

Pena que um início tão auspicioso tenha redundado num final desanimador.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 25/10/08.

‘PARA LER

‘Cobras Criadas’, de Luiz Maklouf Carvalho (a partir de R$ 45,50) – mostra como o jornalismo sensacionalista explorava casos de crimes de amor no Brasil dos anos 1950

‘MSG’ (revista de comunicação e cultura) da Aberje e Editora Lazuli (R$ 10,90) – em seu número inaugural, seis artigos tratam da cobertura pela mídia do caso Isabella

PARA VER

‘O Quarto Poder’, de Costa Gavras, com John Travolta e Dustin Hoffman, 1997 (a partir de R$ 12) – bom filme com história parecida com a do caso Eloá. Um homem faz algumas crianças como reféns num museu; a mídia o transforma numa celebridade nacional

‘Atração Fatal’, de Adrian Lyne, com Michael Douglas e Glenn Close, 1987 (a partir de R$ 11,80) – como a obsessão amorosa transforma um namoro em tragédia

ONDE A FOLHA FOI BEM…

Boas fotos

As do horário de verão na capa de Cotidiano 2 de sábado passado e a do velório de Eloá, na primeira página de quarta são excelentes pela composição e plasticidade

Mais!

O de domingo passado, com textos de Renato Janine Ribeiro e Kenneth Serbin e entrevistas com Carlos Fuentes e Michael Redi estava caprichado

…E ONDE FOI MAL

Favelas

Na quarta, reportagem sobre relatório do Ipea destaca dados negativos, como aumento da população favelada, e praticamente omite os positivos, como ampliação da rede de esgoto, água encanada e coleta de lixo

Só um lado

Uma semana depois de dar artigo de secretária da Educação sem contraponto, na quinta a página A3 traz artigo de secretário da Segurança sobre greve da polícia também sem outro lado

ASSUNTOS MAIS COMENTADOS DA SEMANA

1. Caso Eloá

2. Eleições municipais

3. Greve dos policiais civis’

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