Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

ENTRE ASPAS > FOLHA DE S. PAULO

Carlos Eduardo Lins da Silva

02/02/2010 na edição 575

‘Um dos maiores problemas do jornalismo contemporâneo no Brasil é a excessiva dependência dos que o praticam em relação a quem faz declarações. Se a missão do jornalista fosse só transcrever o que ouve, qualquer um que acionasse um mecanismo como o gravador faria o seu trabalho.

O caso mais sintomático recente é o de uma entrevista publicada com destaque na edição de 9 de setembro passado com alguém apresentado como ‘professor de pós-graduação da Unicamp’, na qual ele aconselhava a cidade de São Paulo a acabar com as marginais porque elas impermeabilizam o solo e agravam as enchentes.

Um leitor escreveu dias depois ao ombudsman e disse ter feito pesquisa pela internet no sistema Lattes, no qual achou três pessoas com o nome do entrevistado, nenhuma delas com mestrado ou doutorado. Encaminhei o caso à Redação. Em 25 de setembro, foi publicada correção na seção ‘Erramos’: ‘Diferentemente do que diz a reportagem (…) Roberto Watanabe não é professor da Unicamp. A informação foi fornecida pelo próprio entrevistado’.

Qualquer um pode ser enganado por alguém que mente. Há muitos casos famosos e reais de pessoas que adquiriram prestígio, dinheiro e poder, passando pelo que não eram. Mas o jornalista deve tentar se cercar de garantias sobre a qualificação das pessoas que lhe passam informações, como ensina o livro indicado ao fim deste texto e mostra o filme recomendado.

O que mais chama atenção na nota de correção é a sua última sentença (‘A informação foi fornecida pelo próprio entrevistado’) porque muitas vezes ao longo destes 21 meses neste cargo tenho recebido respostas parecidas quando leitores apontam erros, como se o fato de o entrevistado ter proferido uma impropriedade factual isentasse o jornalista de responsabilidade. Se a fonte está emitindo opinião, juízo de valor, sim. Aí, todo o ônus cabe a ela e repórter e editor devem se preocupar basicamente em ser fieis ao que foi dito e tentar garantir isenção no conjunto do material.

Mas quando se trata de informação, ou o jornalista confia muito na fonte por experiências pregressas ou pela sua notória respeitabilidade ou deve ser o mais crítico que possa nas suas perguntas, confrontar o que ouviu com outros especialistas conhecidos na área, pesquisar a respeito para evitar transmitir algum equívoco bem ou mal intencionado.

Similarmente, é obrigação jornalística descobrir e revelar ao leitor as vinculações do entrevistado com grupos econômicos ou empresariais, partidos políticos, igrejas ou qualquer entidade ou pessoa cujos interesses tenham a ver com o assunto a respeito do qual ele está falando ao jornal. Esse procedimento é muitas vezes negligenciado. Em repercussões de medidas econômicas ou políticas, por exemplo, é importante para o leitor saber se o especialista ou alguém a quem esteja associado pode estar sendo prejudicado ou beneficiado por elas para ele poder dar o devido peso a suas avaliações.

PARA LER

‘Jornalismo Diário’, de Ana Estela de Sousa Pinto, Publifolha, 2009 (a partir de R$ 35,93)

PARA VER

‘O Informante’, de Michael Mann, com Russel Crowe e Al Pacino, 1999 (a partir de R$ 15,21)’

***

‘Jornalismo e internet cidadãos’, copyright Folha de S. Paulo, 31/1/10.

‘Oportunidades de utilização de instrumentos da internet pelo jornalismo em benefício do cidadão são inúmeras. Esta coluna tem divulgado algumas desde abril de 2009. São, quase sempre, soluções relativamente baratas e bastante eficientes sob todos os pontos de vista.

Uma delas, adotada, entre outros, pelo ‘Journal Inquirer’, da cidade de Manchester, Connecticut, costa leste dos EUA, se chama SeeClickFix. O programa permite acesso pelo computador a mapas de regiões determinadas, nos quais é possível postar reclamações a respeito de serviços públicos em geral, em cima do local em que o problema ocorre.

A partir da primeira postagem, os responsáveis pela administração local podem responder sobre eventuais providências ou dar explicações, outras pessoas podem comentar o assunto, o jornal que publica o mapa em sua edição eletrônica pode cobrar os governantes ou acrescentar informações.

Isso é criatividade, inteligência, tecnologia, disposição colocadas a serviço do bem comum.’

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