Quinta-feira, 14 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Carlos Eduardo Lins da Silva

10/06/2008 na edição 489

‘Uma mulher na Inglaterra passou por mastectomia, concordou em dar entrevista a um jornal e ter publicada sua foto em reportagem sobre câncer. Cinco anos mais tarde, um namorado fez busca sobre seu nome na internet, achou a reportagem, se aborreceu e desmanchou o namoro. Ela pediu ao jornal que retirasse da web o seu nome e a sua foto.

Um homem nos EUA se internou em clínica de reabilitação para alcoólatras e aceitou que seu nome e foto aparecessem em reportagem sobre recuperação de viciados em drogas. Três anos depois, recuperado, teve grande dificuldade para conseguir emprego porque empresas faziam busca de seu nome na internet e desconfiavam dele.

Estes são dois exemplos recentes de um dilema com que jornalistas e empresas de comunicação têm se defrontado devido à nova realidade criada pelo enorme acesso a informações que os recursos tecnológicos da internet proporcionam a milhões de pessoas.

Pelo que se observou da intensa discussão gerada pelo tema no recente encontro mundial de ombudsmans de comunicação, ainda não se estabeleceu consenso sobre como agir nesses casos.

A maioria dos veículos de países desenvolvidos adotou a prática de, quando há erros em matéria arquivada, indexar a ela uma correção. Alguns, como o jornal inglês ‘The Guardian’, esperam 24 horas antes de arquivar eletronicamente o texto, de modo que, se alguma correção tiver de ser feita, ela possa ser incorporada ao original antes de ser arquivada.

Todos se preocupam, obviamente, com a integridade do arquivo. A qualquer jornalista com preocupações éticas repugna a idéia de permitir que se altere o que foi publicado porque é evidente o perigo de distorções históricas graves que precedentes desse tipo podem provocar.

Mas também é indiscutível que a facilidade atual de achar em segundos documentos não necessariamente corretos ou cujos fatos tenham sido desmentidos pelo tempo sobre a vida de qualquer pessoa pode criar constrangimentos, prejuízos ou até tragédias pessoais irreparáveis.

Mesmo quando não há erro ou deslize ético por parte do veículo, como nos dois casos citados acima, a situação do meio de comunicação se torna delicada.

Será que, de agora em diante, ele deve passar a alertar o entrevistado de que sua história e sua imagem poderão ser acessadas pelo público para o resto da vida antes de obter a autorização para contá-la e expô-la? Será que, depois de refletirem sobre isso, tantos entrevistados se recusem a ponto de inviabilizar a operação jornalística?

Atendi recentemente a um leitor que me pediu que a Folha apagasse de seus arquivos duas matérias em que ele foi entrevistado quando jovem. Ele afirma que contêm informações falsas. Mesmo que não houvesse inverdades, ele como qualquer outra pessoa poderia ter se arrependido de algumas afirmações, talvez produtos de arroubo juvenil, a que todos estão sujeitos.

A Secretaria de Redação me informou que ‘a Folha não altera seu arquivo digital, por considerar que isso seria ‘reescrever’ a história, modificar o que já foi impresso’, que ‘todos os erramos publicados estão na versão digital, mas ainda não estão indexados à matéria correspondente’ e que está ‘trabalhando para fazer isso em breve.’

Faço votos de que o ‘em breve’ seja breve e que o jornal considere a possibilidade de, em alguns casos extremos, por razões humanitárias, abrir exceções à regra de não mexer no arquivo eletrônico.’

***

‘Curtas, mas sérias’, copyright Folha de S. Paulo, 8/6/08.

‘Capa do suplemento Equilíbrio de 29 de maio publicou desenho de homem negro para ilustrar reportagem sobre odores desagradáveis do corpo. Muitos leitores manifestaram justa indignação. Instados pelo ombudsman, ilustrador e editora responderam não ter havido intenção de fazer associações e lamentaram que o resultado tivesse causado essas reações. Bom, mas pouco. Pedido de desculpas público teria sido muito mais apropriado.

Anúncio de novo shopping na primeira página de 31 de maio, com foto de atriz conhecida, dizia ‘Leia mais no caderno Ilustrada’. Embora estivesse identificado como ‘informe publicitário’, ele pareceu a alguns leitores uma chamada jornalística. Na Ilustrada não havia nada para ler sobre o shopping, mas sim outros anúncios dele. A Redação desconhece (e não deve conhecer) o conteúdo dos anúncios. Mas alguém no jornal precisa cuidar para que eles não criem confusão entre publicidade e jornalismo.

Grande parte do ‘Painel do Leitor’ voltou a ser ocupado por assessores de imprensa. É justo que eles tenham espaço para se manifestar. Mas que seja ou no noticiário, como ‘outro lado’, ou em seção nova, que se poderia chamar ‘direito de resposta’ ou ‘outro lado’ mesmo. O ‘Painel do Leitor’ é do leitor.’

***

‘Assuntos mais comentados da semana’, copyright Folha de S. Paulo, 8/6/08.

1. Caso Alstom

2. Cobertura esportiva

3. Doações partidárias

ONDE O JORNAL FOI BEM

Células-tronco

Cobertura de todo processo pelo jornal foi imparcial e precisa, apesar de seu posicionamento editorial claro e justificado

Eleição americana

Jornal nunca entrou na ‘obamania’ e acompanhou com isenção e didatismo processo de escolha do candidato do Partido Democrata

Cadeirinhas

Reportagem na quinta foi exemplo de serviço útil e didático de interesse concreto para o leitor

E ONDE FOI MAL

Quinteto Violado

Registro da morte de Antonio Alves, líder do Quinteto Violado, foi bem feito, mas insuficiente para importância do grupo

Bicentenário

Página sobre 200 anos da imprensa trouxe boas matérias, mas é pouco para o significado da data

Caso Alstom

Cobertura melhorou, mas continua na esteira do concorrente direto e ainda falta empenho editorial

PARA LER

‘Reparação’, de Ian McEwan (Companhia das Letras, 2002) – extraordinário romance relata como equívoco de uma pré-adolescente provoca conseqüências trágicas para a família e transtorna o seu futuro (a partir de R$ 35,60)

PARA VER

‘Gente Como a Gente’, de Robert Redford, com Donald Sutherland e Mary Tyler Moore (1980) – ótima estréia de Redford como diretor mostra como acidente que causa morte de irmão e pelo qual se sente responsável transforma a vida de um rapaz (em inglês, importado, a partir de R$ 53,90)

‘O Clube do Imperador’, dee Michael Hoffman, com Kevin Kline e Emile Hirsch (2002) – bom filme conta história de erro cometido por jovem de família poderosa na escola e o acompanha pelo resto da vida (a partir de R$ 14,99)’

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