Segunda-feira, 24 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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VOZ DOS OUVIDORES > FOLHA DE S. PAULO

Carlos Eduardo Lins da Silva

26/08/2008 na edição 500

‘O leitor Marcos Tafuri observou as edições eletrônicas de diversos jornais diários pelo mundo, constatou que o destaque e espaço dados aos Jogos Olímpicos em outros países, inclusive os que têm grande tradição esportiva, como os EUA, foram menores do que no Brasil, e escreveu ao ombudsman sobre a cobertura da Olimpíada:

‘Acredito que o nosso mercado publicitário, por carecer de maior poder econômico, vê em eventos grandiosos como a Olimpíada uma chance preciosa para comercializar seus espaços. Daí, as empresas de comunicação, para justificar esta demanda puramente comercial, criam em nosso imaginário a ‘importância da Olimpíada’. Tudo bem. Mas há um porém nesta história. O leitor de jornal, por natureza, é um ser crítico. Em sua natureza crítica, por vezes, ele sente traído quando jornais respeitados, como a Folha, o tratam como um idiota.’

Pode não ser este o motivo, mas de fato os meios de comunicação de massa brasileiros, inclusive este, inflaram demais os Jogos de Pequim, muito além provavelmente do interesse real do público em relação a eles.

Para mim, nada foi mais simbólico dessa desproporção do que o alto da primeira página da Folha de domingo passado. Em quatro colunas, estavam a imagem de Michael Phelps e a notícia de sua oitava medalha de ouro; em duas colunas, a foto e a informação sobre a morte de Dorival Caymmi.

Aposto como daqui a poucos anos (se tanto) a relação entre os brasileiros sabedores de quem foi Caymmi e Phelps será inversa ao espaço que o jornal dedicou a ambos: pelo menos o dobro de pessoas reconhecerá o compositor e não o atleta.

Poucos eventos noticiosos são mais complicados jornalisticamente do que a Olimpíada, especialmente esta, na China, no outro lado do mundo, com diferença de fuso de 11 horas. O jornal investe pesadamente para mandar uma grande equipe e é natural que queira ver o máximo resultado desse investimento nas suas páginas.

Embora o resultado final não tenha sido negativo em termos de informação, os exageros foram evidentes. Era mais do que antecipado que Michael Phelps ganharia muitas medalhas.

Mas desde a primeira o jornal lhe deu tanta importância, que no fim já não sabia mais o que fazer para ser diferente. Chegou a afogar sua imagem em letras em foto coberta por palavras.

A hipérbole foi a nota dominante desde o início, com a cascata de adjetivos retumbantes que descreveu a festa de abertura.

O que mais mobilizou leitores, no entanto, foi a foto de Diego Hypólito, publicada na capa do dia 18. Onze escreveram para se queixar dela e a consideraram desrespeitosa, humilhante.

Não concordo. A foto registra um fato. O instantâneo mostra a perplexidade do atleta que esperava vencer. Mas ganhar e perder são parte da competição. Conforme aforismo indiano, ‘para quem luta com os grandes, até a derrota é honrosa’.

O tratamento dado pela mídia à Olimpíada em parte reflete a expectativa social de que só vencer importa, quando o espírito olímpico originalmente é o contrário.’

***

‘Contrapropaganda’, copyright Folha de S. Paulo, 24/8/08.

‘Páginas do primeiro caderno da Folha esta semana foram atacadas por estranha praga verde. Bolas dessa cor invadiram o espaço das notícias, especialmente as internacionais, e prejudicaram sem a menor sombra de dúvida sua inteligibilidade e o conforto do leitor.

Tratava-se de campanha publicitária típica da obsessão de alguns ‘criativos’ de ocupar a área do jornal que pertence à informação jornalística, na esperança de atrair a atenção do consumidor. Conseguem, mas o preço que pagam é alto: a aversão do público.

Muitos leitores se queixaram ao ombudsman. João Nicolau Carvalho escreveu: ‘Qual a sua função [das bolinhas]? Hipnotizar o leitor? Não funciona… As bolinhas prejudicam nossa reflexão. Geram distonia entre a forma e o conteúdo’.

Alison Sales reclamou ‘porque as bolinhas causaram tamanho incômodo que simplesmente não consegui ler’. Talita Vasques pediu: ‘Não deixem que a ‘criatividade’ das agências de publicidade denigra a imagem do maior jornal do país’.

A Redação disse ao ombudsman que a ela ‘cabe apenas vetar extremos que desfigurem a imagem editorial do jornal’. Eu acho que este foi um caso extremo e que a campanha deveria ter sido vetada.

Tenho recebido inúmeras críticas de leitores inconformados com o excesso de anúncios nos últimos meses. Respondo que, embora a maioria de leitores e jornalistas talvez prefira jornal sem publicidade, é ela que garante as condições para o veículo ser independente e de boa qualidade.

Uma coisa é o incômodo de virar páginas inteiras ou separar cadernos sobre produtos que podem não interessar a muitos. Outra é desrespeitar claramente o direito essencial do leitor, que é ler o produto que comprou.

Sem contar que, muito provavelmente, a campanha é um tiro no pé do anunciante. Mas esse é um problema dele, que preferiu esse caminho.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 24/8/08.

‘‘Sonhos Mais que Possíveis’, de Odir Cunha. Planeta (a partir de R$ 7,70) – breve perfil de 60 heróis olímpicos, entre os quais Cassius Clay, João do Pulo, Jesse Owens, Nadia Comaneci, Mark Spitz e Maria Lenk

‘Guia dos Curiosos – Jogos Olímpicos’, de Marcelo Duarte. Panda Books. (a partir de R$ 27,57) – informações úteis e curiosas sobre os Jogos Olímpicos, desde os seus primórdios até os de 2004 em Atenas

PARA VER

‘Carruagens de Fogo’, de Hugh Hudson, com Ian Charleson e Bem Cross (R$ 12,90) – a história de dois corredores ingleses na Olimpíada de 1924 em Paris, suas contradições religiosas e sociais e o esforço que fazem para superá-las e vencer as provas

‘Munique’, de Steven Spielberg, com Geoffrey Rush e Daniel Craig (a partir de R$ 19,90) – relato de como, depois de 11 atletas israelenses serem seqüestrados e mortos na Vila Olímpica de Munique em 1972, o serviço secreto de Israel persegue os terroristas

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Reportagens críticas sobre Alckmin e Marta reequilibram cobertura crítica dos principais candidatos à Prefeitura de São Paulo

E ONDE FOI MAL

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