Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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VOZ DOS OUVIDORES >

Carlos Eduardo Lins da Silva

30/09/2008 na edição 505

‘PARA quem viveu a Guerra Fria, o caso Rosenberg teve importância extraordinária. Julius e Ethel foram executados na cadeira elétrica da prisão de Sing Sing em 19 de junho de 1953 e considerados mártires por simpatizantes das teses de esquerda por mais de cinco décadas.

Eles foram acusados de espionar para a União Soviética e passar aos inimigos ideológicos dos Estados Unidos segredos militares, inclusive sobre a bomba atômica, que teriam permitido aos comunistas produzirem a sua.

O processo jurídico foi atabalhoado; a polarização política, no auge do macarthismo, contaminou os procedimentos legais. A opinião pública se dividiu radicalmente entre os que tinham certeza da culpa e da inocência dos dois.

No dia 19, o jornal ‘The New York Times’ publicou entrevista com um dos co-réus do casal Rosenberg, Morton Sobell, que aos 91 anos pela primeira vez admitiu publicamente que tanto ele quanto Julius haviam espionado, mas que Ethel, embora soubesse das atividades do marido, não participara delas.

O ‘Times’ também noticiou que depoimentos até agora sigilosos sobre o julgamento haviam sido divulgados ao público e reforçavam a tese da inocência de Ethel Rosenberg.

No sábado, dia 20, a Folha publicou texto sobre o material do ‘Times’ com chamada de capa. O título na primeira página era para a confissão de Sobell; o da página interna para a provável inocência de Ethel Rosenberg.

Diversos leitores se manifestaram para protestar contra o título interno. Todos se referiram a um artigo de Olavo de Carvalho que circula na internet, no qual este jornal é denunciado por ‘não se vexar de inverter o preceito básico do noticiário jornalístico, para atenuar o impacto de uma notícia que poderia pegar mal -ó horror!- para a reputação ilibada dos comunistas’.

Carvalho é um instigante polemista, bem preparado intelectualmente, que defende posições muito conservadoras. Ele enxerga neste jornal a intenção deliberada de distorcer a realidade para favorecer grupos ideológicos ou partidos políticos de esquerda.

Exatamente como os que se localizam no pólo oposto ao seu no espectro das idéias e acusam a Folha de conspirar a favor da direita.

Neste caso, como na maioria dos outros, é difícil crer em bruxas. O simples contraste entre os dois títulos que o jornal usou para dar a notícia comprova que ele é feito por pessoas que pensam diferentemente e não segue nenhuma linha estrita com objetivo predeterminado.

Eu acho que a novidade era a confissão de Sobell e que a primeira página acertou. Mas quem acompanha o caso Rosenberg sabe que há pelo menos 15 anos já não restava muita dúvida sobre a culpa de Julius. A divulgação de documentos da era soviética a comprovava. Portanto, achar que a reiteração de sua culpa era secundário também se justificava.’

***

‘Para ler’, copyright Folha de S. Paulo, 28/9/08.

‘‘O Caso Rosenberg – 50 Anos Depois’, de Assef Kfouri. Códex e Escritório de Comunicação, 2003 (a partir de R$ 40) – ótima e didática compilação de todo o drama dos Rosenberg até o cinqüentenário da execução do casal

PARA VER

‘Daniel’, de Sidney Lumet, com Timothy Hutton, 1983 (em lojas virtuais americanas, a partir de US$ 12,99 mais impostos) – bonito filme que conta a história ficcional dos Rosenberg, sob a ótica de seus filhos, que eram pequenos quando os pais morreram

ONDE A FOLHA FOI BEM…

DNA Paulistano

Encerra-se hoje, após oito semanas, a série com a radiografia da cidade, um dos mais importantes projetos jornalísticos do ano

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Foram desproporcionais à importância do erro da candidata Marta Suplicy o espaço e destaque dados na sexta ao fato de ela não ter declarado à Justiça pequena firma inoperante há anos

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O Japão é governado a partir desta semana por um homem que morou em São Paulo, fala português e se interessa pelo Brasil; jornal quase nada informa sobre ele

Assuntos mais comentados da semana

1. Eleições municipais

2. FGTS e ações da Petrobras

3. Greve da polícia civil paulista’

***

‘Manchetes contestadas desgastam imagem’, copyright Folha de S. Paulo, 28/9/08.

‘Na segunda-feira, pela segunda vez em um mês, a Presidência da República negou informação referente à Petrobras que havia sido manchete deste jornal.

Na terça, a contestação do governo pelo menos saiu na primeira página, não em página interna, como em 21 de agosto. Mas o desgaste da imagem do jornal junto ao leitor é quase o mesmo.

Como no episódio anterior, a reportagem assumiu como definitiva uma decisão que provavelmente ainda está em fase de estudos.

No outro caso, até agora ela não se materializou (a criação de uma empresa estatal independente da Petrobras para cuidar do pré-sal).

Desta vez, pode ser que o governo venha a permitir que se use o FGTS para comprar ações da companhia e financiar o pré-sal, como informou a Folha. Mas parece claro que este ainda não é um assunto fechado.

Outros veículos mostraram, por exemplo, que o ministro do Planejamento se opõe com vigor a essa possibilidade por achar que os recursos do Fundo são vitais para o financiamento habitacional.

A defesa do jornal diante da veemente negativa do presidente da República à sua manchete de domingo foi capenga. Responder que há estudos e discussões sobre a possibilidade de usar o FGTS para financiar o pré-sal não é reiterar que a decisão de fazê-lo foi tomada. Ao contrário, reforça a negativa presidencial.

Creio que é prudente ser mais cauteloso ao menos na escolha de palavras taxativas. Há enorme diferença entre decidir e pedir subsídios para tomar decisão.’

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