Sábado, 20 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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VOZ DOS OUVIDORES >

Carlos Eduardo Lins da Silva

21/10/2008 na edição 508

‘‘Capa é a primeira impressão tanto para o assinante como para o leitor de banca, e ver nesse domingo TODA capa com publicidade, me perguntei: cadê o jornalismo?’.

Assim começa a correspondência que Frederico de Oliveira e Souza me dirigiu sobre a primeira página da Folha do dia 12 de outubro. Ele e muitos outros se sentiram desrespeitados por receberem uma capa promocional abaixo do logotipo do seu jornal.

Ao permitir que o espaço mais nobre do produto fosse totalmente ocupado por um anúncio que, além do mais, tentava se parecer com notícia, o jornal abriu brecha para ver seu prestígio corroer-se diante do público.

Quase ninguém duvida da necessidade de o veículo de comunicação ser lucrativo para garantir independência editorial, investir em qualidade.

Joelma Sampaio Evangelista, ‘assinante decepcionada’, escreveu: ‘Compreendo que o jornal precisa de apoio comercial para sobreviver, mas daí a obrigar o leitor a ler, logo de cara, uma página sobre um produto, é uma total falta de respeito. Gostaria de acreditar que os diversos departamentos da Folha são inteligentes o bastante para evitar esse tipo de coisa’.

E esta não foi a única derrapada do jornal nesse infeliz domingo. Na capa ‘de verdade’, havia uma ‘chamada’ que não estava identificada como publicitária e remetia o leitor para o caderno Dinheiro.

O caderno de economia é material jornalístico, não publicitário. O anúncio da primeira página dirigia o leitor para outro anúncio, mas parecia endereçá-lo para notícias.

A publicidade é uma atividade fascinante, que valoriza e estimula a inteligência e a criatividade e desempenha importante função para promover a atividade econômica e difundir idéias úteis para a sociedade.

Mas às vezes criadores se excedem e tentam furar a muralha chinesa que precisa demarcar com absoluta exatidão propaganda e jornalismo.

Os veículos que abdicam dessa distinção ameaçam seriamente sua credibilidade, a virtude principal para lhes garantir a subsistência.

A Redação, questionada, afirma que ‘a separação Redação e Comercial nunca foi e nem será afrouxada’.

Indaguei da Redação se o artifício da capa promocional já havia sido utilizado antes, já que eu não me recordava de precedente.

Fui informado de que, sim, uma vez, em 2003. Também me foi dito que ‘jornal usa com muita parcimônia esse recurso e a Redação é sempre comunicada, mas essa decisão é comercial’.

A meu ver, trata-se de procedimento errado. A última palavra sobre a invasão do terreno tradicionalmente informativo deveria ser da Redação.

Ainda que estivesse registrada a marca ‘informe publicitário’ acima da ‘manchete’ publicitária (em família tipológica que, em minha opinião, não era claramente diversa da usada nas notícias), a capa promocional de domingo passado usurpou o jornalismo e ofendeu o leitor.

Já basta a praga da sobrecapa, que atrapalha a leitura, mas ao menos não se confunde com o noticiário.

A logomarca do jornal é sagrada, não pode ser tomada emprestada para promover nenhuma propaganda. O preço a pagar depois pode ser muito maior do que o recebido do anunciante agora.’

***

‘Faça o que eu digo, não o que eu falo’, copyright Folha de S. Paulo, 19/10/08.

‘A Folha acha a vida pessoal dos candidatos desimportante para decisões eleitorais. É inexplicável por que deu tanto espaço e destaque a temas relacionados à condição conjugal do prefeito de São Paulo.

Todos os temas de políticas públicas, cerne da discussão para os eleitores decidirem seu voto, desapareceram do jornal de segunda a sexta.

O estado civil de Gilberto Kassab (DEM) gerou quatro chamadas de capa, 11 abres de página, 24 matérias, oito colunas, seis notas, 19 cartas de leitores, 1.172 centímetros de textos noticiosos (cerca de quatro páginas cheias).

Até o correspondente em Pequim foi mobilizado para escrever sobre o assunto, embora ele venha sendo muito pouco utilizado na cobertura da crise econômica, em que o papel da China é vital.

Este exagero despropositado é grave erro editorial. Se o jornal acha que a vida íntima do prefeito não é relevante, por que lhe dá tanto relevo?

Além de incentivar a degradação do ambiente político, a decisão incoerente de tornar tal caso o prioritário da campanha do segundo turno provocou desequilíbrio total no tratamento até então relativamente justo que o jornal vinha dando aos dois candidatos.

Marta Suplicy recebeu nestes cinco dias uma carga de matérias negativas absolutamente desproporcional em relação a seu adversário.

Por exemplo, ela foi alvo de oito textos opinativos críticos; Kassab, de nenhum. Das 19 cartas publicadas, 15 foram contra Marta. Registre-se que o ‘Painel do Leitor’ recebeu 224 cartas contra ela e 55 a favor. Mas para o ombudsman, a relação foi inversa: 36 pró e 8 contra a ex-prefeita.

Ao estimular o bate-boca indigente e ajudar para que o insinuado na propaganda do PT ficasse explícito, o jornal abriu mão de fomentar o debate sadio. Ele nunca deveria se prestar ao trabalho sujo que outros veículos fazem com muito prazer e competência.’

***

‘Para ver’, copyright Folha de S. Paulo, 19/10/08.

‘‘Crazy People’ de Tony Bill, com Dudley Moore e Daryl Hannah, 1990- inteligente comédia sobre publicitário que resolve ser inteiramente honesto nos anúncios que cria, por isso é colocado num hospício, mas seu trabalho é bastante apreciado pelo consumidores.

Para ler

‘Os Jornais Podem Desaparecer?’, de Philip Meyer, tradução de Patrícia de Cia, Editora Contexto, 2004 (a partir de R$32,25) – talvez o mais importante livro sobre a crise atual dos jornais impressos defende a tese de o que pode garantir sua sobrevivência é a credibilidade, derivada da manutenção de qualidade.

‘Capas de Jornal’, de José Ferreira Junior, Senac Editora, 2003 (a partir de R$31,50)- ótimo estudo sobre a importância da primeira página para os jornais diários.

Onde a Folha foi bem…

Saúde

Iniciativa de manter página diária sobre saúde merece aplauso, mas a nova editoria ainda não encontrou seu rumo editorial.

Alencastro

Chegada de Luiz Felipe Alencastro ao time de colaboradores fixos no jornal é garantia de qualidade e sofisticação intelectual.

…e onde foi mal

Dia do professor

Após uma recém-encerrada dura greve do magistério público paulista, comemorar o Dia do Professor com artigo da secretária de Educação sem nenhum contraponto é claro desequilibrio editorial

IBAS

Jornal cobriu mal a reunião de cúpula do fórum, formado por Índia, Brasil e África do Sul, três importantes países ‘emergentes’, que pode ter papel relevante na geopolítica do século 21.’

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